"Depois a Louca Sou Eu" (2019), de Júlia Rezende - Divulgação

“Depois a Louca Sou Eu”: humor em meio ao caos

“Eu não posso deixar quem eu sou sabotar quem eu devo ser”. Assim, em suas próprias palavras, a protagonista de “Depois a Louca Sou Eu” resume seu caos interno. Ela só não está atenta ou consciente de que, para além do que lhe acontece individualmente, existem condições sociais que a mantém nessa luta desgastante, e a maioria deles estão ligados ao capitalismo. Dani, vivida por Débora Falabella, é uma jovem mulher que durante toda a vida vem enfrentando transtorno de ansiedade e consequentes crises de pânico. Ainda assim, segue produtiva e emenda um trabalho de seus sonhos atrás do outro. Se por um lado ela mostra a força de seguir em frente,  contornando seus problemas pessoais para se adaptar ao mundo e realizar seus objetivos profissionais, por outro não questiona como a sociedade e o mundo do trabalho possuem lógicas de funcionamento que, muito provavelmente, também são fatores que influenciam em sua saúde mental. Mas isso, talvez, seria tema a ser explorado em um outro tipo de filme, diferente do que está proposto na nova comédia dirigida por Julia Rezende (“Ponte Aérea”, “Meu Passado Me Condena”).

“Depois a Louca Sou Eu” (2019), de Julia Rezende – Foto: Stella Carvalho

Com roteiro de Gustavo Lipsztein, adaptado do livro homônimo de Tati Bernardi, “Depois a Louca Sou Eu” se desenvolve com muito humor e leveza, pois segue a perspectiva de sua protagonista-narradora. Ela está em uma espécie de viagem de autoanálise e ri de si mesma (seria um mecanismo de defesa aqui?) ao revisitar as situações mais adversas. Ao mesmo tempo, consciente da seriedade do assunto, a narrativa não se perde das dores que envolvem a fragilidade psicológica e, assim, equilibra a comédia com pequenas, mas certeiras doses de drama.

Ao narrar o filme, Dani comenta o que vive e como percebe o mundo à sua volta, além de compartilhar suas memórias. Nos flashbacks, conhecemos detalhes importantes de sua infância, como a separação dos pais, o medo constante de barata ─ e do que apenas se parece com uma ─ e o desajuste social na adolescência, incluindo a dificuldade nos relacionamentos afetivos. Nessas fases, fica claro como sua condição psicológica é algo que lhe traz muitas dificuldades no dia-a-dia, mas não há um diagnóstico adequado, tampouco tratamento. Ao retratar o desconforto de Dani em ambientes de terapia e cura alternativas usando a chave cômica, o filme acaba caindo em exotização e estereótipos desses universos.

Quando adulta, Dani segue a investigação por alguma solução, até chegar aos medicamentos ansiolíticos, que ora são amigos, ora inimigos, sendo os efeitos adversos, a dependência e o uso desregrado os fatores que determinam o lado negativo. Na luta por um equilíbrio que não vem, Dani vai construindo sua trajetória profissional e pessoal aos trancos e barrancos. Mesmo que seja independente, que consiga os trabalhos que deseja (colunista em revista famosa, roteirista de novelas, autora de livro de sucesso), os desafios são diários e o sofrimento constante. Afinal, qualquer mínima situação que lhe tire da restrita zona de conforto que construiu para si mesma é gatilho para as crises.

“Depois a Louca Sou Eu” (2019), de Julia Rezende – Divulgação

Se ir à praia com o namorado é algo banal para a maioria das pessoas, no caso de Dani isso significa pensar mil vezes antes se o melhor é desistir e ficar em casa para evitar uma série de processos: a claustrofobia de um engarrafamento no trânsito, o desconcertante encontro com pessoas estranhas, a preocupação com a mãe deixada para trás. Enfrentando seus medos, ela até decide ir, mas todas essas etapas da pequena viagem são vividas por ela num extremo de emoções quase insuportáveis em sua mente inquieta. Algo que ela consegue disfarçar para o entorno em alguns momentos, mas em outros não.

Deste entorno, conhecemos mais a fundo sua mãe, Silvia (Yara de Novaes), e seu par romântico, Gilberto (Gustavo Vaz), que também tem suas disfuncionalidades. Logo se percebe a complexa e intensa convivência com a figura materna, pois, apesar de todo o amor, há uma relação de codependência e superproteção. Já com Gilberto, o que se estabelece é identificação e companheirismo, uma vez que ele também sofre com ansiedade e os dois se sentem compreendidos um pelo outro, apesar dos percalços comuns de um namoro. Vale destacar que com esse personagem o filme traz uma representação masculina que expressa vulnerabilidade e sensibilidade, na contramão da masculinidade tóxica, que invisibiliza tais aspectos, além de evitar a reprodução do estigma de excentricidade como exclusivo do feminino ─ embora a questão de gênero não seja discutida.

Em termos de linguagem, a identidade do filme é de pura estética pop, com cenários de muitas cores que pulam aos olhos, músicas mainstream (Anitta e Clarice Falcão estão na trilha sonora, inclusive), ritmo de montagem ágil ─ por vezes frenético, com suas microcenas nos entrecortes ─ e o uso de texturas, como letreiros e trechos animados. Há também leves distorções da imagem (pelo uso de lentes específicas para tal), especialmente na aproximação dos rostos, que provoca a sensação de instabilidade e estranhamento, coerentes com a protagonista.

Por vezes, as experiências dela podem se parecer com as nossas, já que, no entendimento geral sobre ansiedade, há diversos níveis de identificação. No entanto, há que se ficar atento quanto às diferenças de um sentimento de ansiedade passageiro e um transtorno como condição psíquica, que é o caso da protagonista. “Depois a Louca Sou Eu”, então, mira nessas identificações possíveis e na empatia por meio da comédia de situações, com base nas crônicas autobiográficas da autora do material original, e pelo bom trabalho de interpretação de Falabella, que traz algumas nuances necessárias para a personagem. É bem sucedido no entretenimento sem maiores pretensões e coloca em primeiro plano um tema que, mesmo tão em alta na realidade contemporânea, ainda sofre com preconceitos e desinformação. ■

Nota: