"Cartório das Almas" (2023), de Leo Bello - Divulgação
"Cartório das Almas" (2023), de Leo Bello - Divulgação

“Cartório das Almas”: A complexa simplicidade de viver

Único filme da seção Olhares, na 27ª Mostra de Cinema de Tiradentes, “Cartório das Almas” (2023) impressiona pela eficácia que consegue atingir com a extrema simplicidade narrativa de sua proposta. Simplicidade, contudo, apenas na superfície. Temos aqui uma ficção científica que objetiva falar sobre temas densos, como vida e morte, livre-arbítrio e existencialismo. Entretanto, o longa-metragem brasiliense dirigido por Leo Bello dispensa qualquer tipo de exibicionismo visual e decide contar sua história da maneira mais sóbria possível.

No filme, Laura (Gabriela Correa), uma “jovem” de 126 anos, é a recém contratada no Cartório das Almas, e trabalha em um casebre no meio do nada. Em sua nova função, ela protocola as motivações daqueles que renunciaram à eternidade e conduz os desistentes para a morte. No entanto, por força de contrato, à própria Laura não é possível interromper sua tediosa existência.

Apenas pela sinopse, a ficção científica já salta aos olhos. Porém, aqui não temos naves espaciais, viagens interplanetárias ou andróides inteligentes. Tampouco há efeitos visuais mirabolantes, cenários altamente tecnológicos ou multiversos temporais alternativos. Tudo é construído de forma minimalista. Laura, a protagonista, tem a aparência normal de uma mulher de vinte e poucos anos. Os locais pelos quais ela passa não têm nenhum elemento explicitamente futurista. Pelo contrário, neles convivem objetos de diferentes temporalidades, mas todos apontando para uma mistura entre passado e presente. Os ambientes do filme ora são desertos, ora pouquíssimo povoados. Parecem, no final das contas, parados no tempo, em uma época indeterminada. Não sabemos exatamente onde a história se passa. Parece Brasília, mas também pode não ser.



“Cartório das Almas” consegue, assim, transitar dentro da incerteza que melhor potencializa a ficção científica. Tanto a tecnologia dos “banhos”, que dá aos personagens vida ilimitada, quanto a renúncia a eles, que lhes retira a vida, nunca são explicadas, e nem é necessário que seja. Nunca sabemos, por exemplo, se aquele é um procedimento governamental ou patrocinado por alguma empresa privada. Laura e as pessoas que passam pelo processo simplesmente entram em uma banheira cheia de um líquido branco e, após submergir, voltam à superfície sem o peso do tempo, mas também cada vez mais sem as memórias anteriores aos banhos. Já quem abdica da eternidade precisa justificar a escolha por escrito, assinar e depois entrar em um velho compartimento parecido com um armário, de onde sairá transmutado em um pássaro preto.

O processo é habilmente explicado a partir de uma montagem paralela entre a leitura da carta de uma senhora que desistiu de viver e um dos banhos de Laura. Entendemos, por contraposição, o que quem deixa de passar pelo artifício perde e o que quem prossegue com os banhos ganha. Apesar da simplicidade, o longa-metragem não deixa de tornar sua premissa crível. Essa representação da tecnologia como algo incompreensível, mas de efeitos pragmáticos claros, me lembrou o recente “Piscina Infinita”, de Brandon Cronenberg, que também deixa de lado os pormenores sobre o mecanismo tecnológico.

Todavia, ao contrário do filme estrangeiro, “Cartório das Almas” aposta em um ritmo muito mais lânguido. São planos geralmente longos, paleta de cores dessaturada (quase um preto e branco), poucos diálogos e via de regra enquadramentos mais abertos, mostrando o céu e amplas paisagens, que dão ao filme uma atmosfera calma e introspectiva, ideal para a ausência de grandes acontecimentos ou reviravoltas que caracteriza o enredo. A própria localização do cartório que intitula o filme contribui para essa impressão. Trata-se de uma repartição pública em meio a um descampado, quase um cenário de western ou distopia. Um espaço limiar, que parece estar entre a vida e a morte, a ficção e a realidade, a fábula e a concretude. Não por acaso, Laura, que ocupa este espaço, se assemelha a uma espécie de figura mitológica greco-romana, um elo entre quem não quer mais viver e a possibilidade de finitude.

Reforça essa leitura a metáfora das graúnas, que aqui são a forma assumida por aqueles que escolhem não mais viver. Embora óbvia, por tomar uma figura parecida com a do corvo, símbolo da morte, a alegoria serve bem às temáticas do filme, apontando para uma continuidade da vida, ainda que sob outras formas. Mais ainda, a metáfora também representa a liberdade adquirida por aqueles que, não mais felizes em vida, têm a possibilidade de escolher outro caminho, já que, no filme, os pássaros não podem ser mantidos presos.

Aliás, é um destes animais que proporciona ao filme talvez seu momento mais emocional. A certa altura, um homem vai ao cartório abdicar da eternidade e leva um pássaro enjaulado, dizendo a Laura que aquela graúna é sua esposa. A funcionária do cartório o questiona sobre como pode ter certeza, e o homem então acaricia delicadamente o pássaro, que responde ao toque curvando a cabeça, como que retribuindo o carinho. Aqui o filme consegue, apenas a partir da construção de universo, de algumas linhas do roteiro e de um plano-detalhe, dar vida a uma ideia tão irreal quanto poética, ousada e abstrata na mesma medida, de que seguimos sendo nós mesmos, com nossos amores e identidades, após deixarmos de viver.

O roteiro, também escrito por Leo Bello, não tenta escapar dessas questões difíceis e até mesmo controversas. Embora o longa não seja pesado ou fatalista, no final das contas, estamos assistindo a uma série de suicídios assistidos. Em certo momento, até mesmo uma criança procura pelo cartório. Nesse sentido, uma das frases mais impactantes que ouvimos vem no terço final do filme: “Quero para mim a dignidade de abraçar a morte”. A questão central não deixa de ser, então, a morte como condição natural humana. Para quê viver a qualquer custo, se não há mais sentido na existência?

Esse é justamente o dilema de Laura, que não tem mais ninguém no mundo, mas precisa seguir vivendo pela obrigação contratual. O progressivo vazio da personagem, que conduzirá à reviravolta final do filme, é muito bem representado tanto pelo talento da atriz quanto por simbologias visuais de morte que vão paulatinamente se infiltrando na vida da personagem. Gabriela Correa consegue transmitir com poucos, mas expressivos recursos de interpretação, o estoicismo da personagem. Laura trabalha no cartório, mas não pode interferir na decisão dos personagens, nem desenvolver qualquer tipo de relação com nenhum deles. Mas a atriz é capaz de demonstrar o quão difícil essa postura é para a personagem apenas pelas leves hesitações que constrói com os olhares, pelos discretos sorrisos que vez ou outra escapam de sua face, ou ainda, pelas modulações de sua voz, cada vez mais cansada.

Já em termos de linguagem cinematográfica, temos primeiro a pena de graúna que entra na pele da personagem e será várias vezes ressaltada pela montagem ao longo do filme, cada vez mais consumindo a pele da protagonista, de forma a evidenciar o quão próxima Laura está de seu inexorável destino. Já mais para o final, em um momento de rara demonstração de emoção, a protagonista chora, e a lágrima que sai de seus olhos é preta, assim como os pássaros que simbolizam o fim da vida. No fim de fato, o sol aparece pela primeira vez, um pássaro nasce, e acompanhamos Laura em um outro contexto, que ao mesmo tempo consolida, concretiza e subverte o enredo que estávamos acompanhando até então.

“Cartório das Almas”, sobretudo a partir da segunda metade, se torna um tanto quanto repetitivo, e o ritmo contemplativo contribui para uma certa morosidade da experiência. Sinto também que o filme poderia ter uma classificação indicativa mais alta, que o permitisse explorar de forma mais explícita algumas questões, como a própria pena no braço de Laura ou o efeito corporal dos banhos e da falta deles. No entanto, a riqueza temática alinhada à potente discrição visual nunca deixa o filme se tornar desinteressante. Sempre estamos ávidos por saber aonde vamos chegar com aquele universo. É digno ainda de nota que, em um filme com pretensões tão humanas e universais, grande parte do elenco seja composto por pessoas negras, sem, contudo, que a obra pare em momento algum para se autocongratular por essa escolha. Afinal, “Cartório das Almas” trata de assuntos que interessam e movem a todos nós, recorrendo à ficção científica para dar conta de lidar com tantas questões difíceis. É na simplicidade, afinal, que a fantasia do filme encontra a complexidade da vida. ■

Cartório das Almas

Nota:

Cartório das Almas

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