Luc Besson retorna aos cinemas com uma visão romântica do clássico “Drácula”, de Bram Stoker. Em “Drácula: Uma História de Amor Eterno” (2025), o cineasta francês aposta em uma adaptação gótica, épica e romântica do mito do vampiro, misturando terror, drama, fantasia e até cenas de ação. O resultado é visualmente e poeticamente ambicioso, ainda que perca um pouco o tom em alguns aspectos narrativos.
Inspirado no romance de 1897, o longa se distancia da fidelidade literária para mergulhar de cabeça em uma história de amor trágico que atravessa os séculos. Ao contrário do livro (e até mesmo da cultuada adaptação de 1992 por Francis Ford Coppola), aqui o foco é quase total no lado romântico e mítico de Drácula, mais próximo da figura popular que o cinema moldou ao longo das décadas do que do monstro sombrio de Stoker.
A trama, dividida em dois tempos, alterna entre a história original e o próprio Drácula narrando sua trajetória a Jonathan Harker. Tudo começa no século XV, quando o príncipe Vladimir, devastado pela morte brutal de sua amada esposa, renuncia a Deus e acaba amaldiçoado com a vida eterna, tornando-se um vampiro. Séculos depois, na Londres do século XIX, ele encontra Mina, uma mulher idêntica à sua amada perdida, reacendendo a chama de um amor que desafia o tempo.
Caleb Landry Jones entrega um Drácula melancólico e, em alguns momentos, sedutor, cercado por uma atmosfera de luto e desejo; Zoe Bleu interpreta, com a dualidade entre a sensualidade e a doçura, tanto Elizabeta quanto Mina; enquanto Matilda De Angelis se destaca como Maria, uma fusão criativa entre Lucy (a vítima que é enterrada com seu vestido de noiva) e Renfield (o servo de Drácula que fica preso em um hospício). O elenco ainda conta com nomes de peso como Christoph Waltz, Guillaume de Tonquédec e Raphael Luce.
O filme brilha tecnicamente, com a fotografia que remete à obra referenciada de Coppola, com luzes sombrias e estilo gótico; a trilha sonora é envolvente e sublinha com elegância o tom épico da narrativa; e a montagem, por vezes acelerada, injeta dinamismo em cenas de batalhas e perseguições. Há uma inspiração clara em momentos de guerras religiosas na Europa, que contextualizam o trauma de Vladimir e sua transformação em criatura da noite.
Entretanto, Besson toma algumas decisões que comprometem o impacto emocional da obra. Cenas que poderiam explorar ao máximo o terror e o suspense acabam ganhando tons cômicos, que acabam destoando da proposta épica. O filme não se preocupa em explorar ou estabelecer as “regras” da existência vampiro, preferindo tratá-las de forma quase jocosa, o que enfraquece o poder simbólico da figura do vampiro como ameaça. A presença inusitada de gárgulas vivas no castelo do protagonista também quebra a imersão da verossimilhança estética realista, parecendo deslocada dentro do universo poético e sombrio criado até então. O terror gótico, embora presente em momentos pontuais (como o ataque às freiras em um convento, em uma das sequências mais impactantes do filme), não sustenta a tensão de forma contínua.
Ainda assim, “Drácula: Uma História de Amor Eterno” é uma experiência cinematográfica envolvente, visualmente impressionante e com ambição épica. É uma leitura apaixonada do mito, mais interessada no amor do que no medo, que dependendo da expectativa do espectador, pode ser seu maior acerto ou sua maior limitação. Mas não restam dúvidas sobre a potência narrativa e o peso que a obra original ainda pode alcançar em uma releitura cinematográfica, mesmo depois de tantas adaptações, encontrando novas formas de se contar a história do maior vampiro de todos os tempos. ■
DRÁCULA: UMA HISTÓRIA DE AMOR ETERNO (Dracula: A Love Tale, 2025, França). Direção: Luc Besson; Roteiro: Luc Besson (baseado no livro de Bram Stoker); Produção: Virginie Besson-Silla; Fotografia: Colin Wandersman; Montagem: Lucas “Kub” Fabiani; Música: Danny Elfman; Com: Caleb Landry Jones, Christoph Waltz, Zoë Bleu, Matilda De Angelis, Ewens Abid, David Shields, Guillaume de Tonquédec; Estúdio: Luc Besson Production, EuropaCorp, TF1 Films, SND; Distribuição: Paris Filmes; Duração: 2h 9min.
Onde ver "Drácula: Uma História de Amor Eterno" no streaming:

Crítico, roteirista e professor. Graduado em cinema e audiovisual pelo Centro Universitário UNA. Desde 2017 atuando de forma independente em: produção e curadoria em projetos de cineclubes; análise/crítica; comentários de filmes em mostras de cinema; roteiro; ensino sobre linguagem cinematográfica, escrita, artes e mídias.

