Um dos grandes sucessos do cinema brasileiro da década passada, “Que Horas Ela Volta?” conta a história da trabalhadora doméstica Val, que depois de anos cuidando do filho da patroa, precisa se reconectar com a sua própria filha, que vem morar com ela enquanto se prepara para ingressar na universidade. Dez anos depois, o tema central do filme dirigido por Anna Muylaert e protagonizado por Regina Casé vai de encontro ao documentário “Aqui Não Entra Luz”, premiado no 58º Festival de Brasília e exibido na 19ª Mostra CineBH. O longa busca honrar e reverenciar as trabalhadoras domésticas a partir da vivência da diretora Karol Maia, que é filha de uma delas.
Entre memórias pessoais e pesquisas históricas, Karol percorre quatro estados brasileiros historicamente marcados pela escravidão, entre eles Minas Gerais. Em sua investigação sobre a arquitetura das senzalas e dos quartos de empregada, a cineasta encontra e conversa com mulheres que enfrentam esse legado e lutam para que suas filhas possam sonhar outros destinos.
Produzido pela produtora mineira Apiário Estúdio Criativo, com coprodução da Surreal Hotel Arts e distribuição da Embaúba Filmes, “Aqui Não Entra Luz” é o primeiro longa-metragem autoral de Karol Maia. O filme ganhou no Festival de Brasília o troféu Candango de Melhor Direção e o Prêmio Zózimo Bulbul, concedido pela Apan (Associação dos Profissionais do Audiovisual Negro) e pelo Centro Afrocarioca de Cinema. A diretora conversou com o cinematório sobre o filme e a importância do assunto que ele trata. Confira:

O filme fala de um assunto que diz muito sobre a nossa sociedade, sobre a construção da nossa identidade inclusive. E é um assunto complexo, que precisa ser discutido, confrontado. E o que eu fiquei pensando ao assistir ao filme é que é muito difícil alguém não ter ou pelo menos não conhecer uma história dessas, seja na família ou com alguém próximo. Mas, mesmo assim, é um assunto sobre o qual as pessoas ou não querem falar ou preferem evitar. Por que isso na sua opinião?
Eu acho que o trabalho doméstico mantém privilégios em pé. Quando a gente tem na construção de um país um projeto de escravização tão bem estruturado como foi aqui no Brasil, o último país das Américas a abolir a escravidão, continuar a fazer a manutenção desse modelo é confortável pra muita gente. Então, eu acho que, ao falar desse assunto, inevitavelmente a gente vai ter que falar de coisas difíceis, vai ter que falar sobre pontos de responsabilidade individual. E eu acho que o silêncio protege muitas pessoas. Eu acho que protege de formas diferentes. Não posso falar por todas, mas algumas trabalhadoras optam pelo silêncio porque não querem perder seus empregos. E os contratantes optam pelo silêncio porque não querem perder o seu privilégio de remunerar alguém mal e ter essa pessoa disponível pra fazer um trabalho muito complexo e muito difícil, que é o da trabalhadora doméstica. E trabalho doméstico a gente pode entender como babá, como a cozinheira, a faxineira, todo mundo que tá trabalhando nesse ambiente familiar que é um ambiente de segredo, né? Uma família não vai revelar os segredos que estão acontecendo dentro de casa.
Sim, sem dúvida. O filme é estruturado em um trajeto por quatro estados: Minas Gerais, Rio de Janeiro, Bahia e Maranhão. Como você traçou essa rota?
Essa rota foi traçada a partir de um dado que é a quantidade de pessoas que foram trazidas ao Brasil Colônia para serem escravizadas. Pessoas que foram sequestradas para serem escravizadas no Brasil. Então, esses foram os estados que mais receberam mão de obra escravizada. Foi a partir dessa rota que eu fui traçando o meu caminho do filme, até chegar em São Paulo, que é a minha cidade, a cidade onde eu nasci, onde eu moro.
E durante a sua pesquisa, como você chegou a cada uma das entrevistadas? No debate após a exibição, vocês disseram que eram seis a princípio, né? Como é que vocês chegaram nelas? Eu imagino que deve ter sido um processo de escolha muito difícil.
Eu fiquei muito feliz ali com a comparação que fizeram com Eduardo Coutinho. Porque sem dúvida eu assisti muito aos filmes do Eduardo Coutinho, e aquele jeito dele de conversar com as pessoas é incrível. A gente se sente ao lado dele assistindo aos filmes. E eu com certeza fui com um pouco dessa ambição também quando eu fui conversar com essas trabalhadoras domésticas, de trazer o mesmo tom de intimidade que os filmes do Coutinho trazem pra gente. E eu fui encontrando elas de uma forma muito diferente. Algumas de um jeito muito mais incisivo e planejado. Por exemplo, a Marcelina, que foi uma trabalhadora que eu tive que insistir bastante pra ela topar, está presente no filme. Outras foi de um jeito mais espontâneo. Teve uma que não entrou no filme, a Jerusa, que eu fui filmar a casa de uma de uma patroa em Salvador, e foi a única vez que não foi a patroa que me recebeu, foi a a empregada. E aí quando eu olhei pra Jerusa, ela me lembrava muito uma tia minha e eu fiquei enlouquecida! Eu falei: “eu preciso filmar essa mulher, porque ela parece muito a minha tia.” Mas no final a narrativa da tia não se sustentou e eu tive que abrir mão dessa história. Mas eu acho que a gente fez uma pesquisa muito ancorada em sindicatos, então eu visitei sindicatos, consegui uma entrada por meio deles também, ao mesmo tempo que as indicações de amigos e parceiros também foi super importante. A Mãe Flor, por exemplo, foi uma indicação da nossa produtora local em São Luís, no Maranhão, porque eU fui no sindicato de São Luís e nenhuma trabalhadora quis falar comigo. Então, também aconteceu esse tipo de coisa. E escolher não falar às vezes é uma estratégia que elas precisam assumir.

Foi quanto tempo mesmo desde o início do projeto até a finalização?
A gente contabiliza oito anos, desde que esse projeto virou um projeto de filme. Porque antes era um projeto de instalação. Eu queria muito falar sobre esse assunto, então eu precisava organizar essa ideia. Eu tentei por dois anos consecutivos fazer uma instalação em um centro cultural de São Paulo e por dois anos eu fui negada no edital. Ainda bem! Aí logo no ano seguinte eu fui aprovada no edital Rumos e aí virou esse filme.
E, uma pergunta que eu imagino que seja difícil de responder, mas você pode dizer algo que mais te surpreendeu durante esse esse trajeto de oito anos? Algo que você descobriu nesse processo de de pesquisa, seja nas entrevistas ou mesmo nos materiais daquela sequência que você mostra as plantas dos imóveis com quarto de empregada. Nesse nesse trajeto todo, algo que te marcou, que você não sabia ainda sobre o tema?
Tem um lugar que eu visitei, que está no filme, que é uma senzala doméstica que fica exatamente embaixo de uma casa grande. A porta da senzala deve ter um pouco mais de um metro. E eu lembro que quando eu fui visitar esse lugar, tinha um guia turístico da fazenda e ele tava recebendo um grupo, e eu tava observando ele contar a história da fazenda e ele falou, muito animado, pro grupo: “olha, aqui é a sensazala doméstica que fica bem embaixo da sala de estar, e é bom porque no frio os corpos ajudavam a aquecer a sala de estar.” Isso foi em 2019. Em 2019 ainda estava se usando o discurso de que é bom aglomerar corpos de pessoas escravizadas embaixo da sua casa pra te proteger do frio. E eu acho que esse episódio é um símbolo de como a sociedade brasileira e a branquitude veem os trabalhadores domésticos. As trabalhadoras domésticas davam literalmente alimento pro filho dos seus patrões. Ali na época da escravidão, a gente chamava de ama de leite. Essas mulheres literalmente abriam mão de amamentar seus filhos pra amamentar o filho de outra pessoa. Então, não é exagero falar que as trabalhadoras domésticas são o sustento dessa sociedade. São a licença da sociedade brasileira. Porque pra muita gente conseguir sair, fazer sua vida e resolver seus problemas e realizar seus sonhos, tem alguma mulher dentro de casa cuidando dos filhos dessa pessoa, cuidando da casa dessa pessoa.

Aproveitando que você trouxe esse tema, eu não pude não pensar em “Que Horas Ela Volta”, tanto pelo tema quanto pela imagem da foto, que eu acredito que sejam você e sua mãe numa piscina. É uma imagem que está no cartaz do filme inclusive, né? A escolha dessa imagem é uma coincidência ou é proposital pra evocar o “Que Horas Ela Volta”?
Não, não foi proposital, é uma coincidência. Eu acho que tem um elemento água que está presente no filme e está presente no cartaz. Porque o cartaz, o que a gente fez foi um trabalho: aquela é uma fotografia que tem várias pessoas ao redor e a gente fez um trabalho de trazer o mar pra piscina. Então virou uma “piscina mar”. Ela começa como piscina e termina como mar. E eu acho que tem um elemento água no filme que eu sempre busquei trabalhar e eu não tava encontrando como. Até que eu cheguei nesse episódio, que foi minha primeira ida à praia, e foi com os patrões da minha mãe. E e a minha mãe ama muito o mar. A gente só foi começar a ir ao mar juntas na minha fase adulta, quando eu comecei a ter condições de levar ela pra viajar. Então, a água, assim como é pra Val, aquela conquista da piscina, “entrei na piscina filha!”, a piscina semi vazia, pra mim também é uma conquista. Porque eu acho que a água também tem um símbolo de lazer, de descanso. E às vezes o descanso é uma coisa proibida para as trabalhadoras domésticas. E eu acho que está rolando uma conversa muito interessante sobre descanso de uma forma geral, né? Que as pessoas estão se sentindo culpadas na hora de descansar. E é tão cruel isso acontecer, né? Acho que a água, a água do mar, a água doce, ela tem esse simbolismo pra mim, que é o descanso, o lazer, a celebração. Aquele momento, aquela imagem do cartaz, eu tô com a minha mãe no retiro da Igreja da Assembleia de Deus, que é a igreja que a gente ia. A gente está no retiro da igreja, então, aquele momento era de muita celebração. Eu sou de São Paulo, e São Paulo não tem mar e eu não tinha acesso à piscina. São Paulo não tem rio limpo. Então, acho que se fosse um filme de alguém de Salvador, ia ser outra história, né? O problema ia ser outro. O meu problema era ir pra praia! (risos)
E a sua mãe já tinha assistido ao filme antes ou na primeira exibição, no Festival de Brasília, foi a primeira vez que ela viu também?
Foi a primeira vez.
E o que ela falou pra você? Se você puder compartilhar, é claro.
A gente ainda não se aprofundou, mas a primeira reação dela foi me procurar, ainda quando os créditos estavam aparecendo, pra me abraçar. E eu fiquei… Eu pensei, “acho que é um bom sinal, né?” Fiquei feliz, porque no final eu fiz um trabalho de honrar a história ela, de não usá-la só como uma forma de eu terminar o filme. Mas dar a ela o crédito, dizer “chegamos até aqui juntas”.
É muito lindo isso. E só pra a gente dar um fecho na nossa entrevista: a situação social e econômica das domésticas mudou muito desde a PEC de 2013. Mas, hoje, o que você percebe que ainda precisa melhorar?
Eu acho que uma questão que é um pouco o que a gente falou lá no começo, que é a responsabilidade individual. A PEC das Domésticas tem 10 anos só. É uma PEC que transformou bastante a vida das trabalhadoras domésticas, porque passou a ser mais caro ter uma trabalhadora doméstica morando em casa e e trabalhando pra você de uma forma integral. Então essas mulheres passaram a ser diaristas. E hoje em dia tem até aplicativo que você consegue contratar a faxina. Então, pra mim o primeiro pensamento a curto prazo é a responsabilidade individual, é as pessoas entenderem que a casa delas são empresas para essas mulheres. Porque é ali que elas passam o dia dedicando a mão de obra delas e é dali que elas esperam tirar uma remuneração. E eu acho que falar sobre dinheiro é uma coisa indispensável. O que a gente tá falando é: teve um processo de escravização no Brasil, algumas famílias ganharam muito com esse projeto e outras milhares de famílias perderam muito. Essa igualdade nunca vai acontecer. O que dá pra fazer agora é usar o dinheiro pra conseguir com que outras pessoas, outros profissionais consigam acessar a dignidade. E dignidade é diferente pra cada um, pra cada uma das pessoas, né? Dignidade pode ser morar bem, dignidade pode ser viajar uma vez por mês, dignidade pode ser fazer um curso pra mudar de profissão. Então, eu acho que dar para as trabalhadoras domésticas o poder de opção é muito importante. E elas têm poder de opção a partir do dinheiro também.


Editor-chefe e criador do Cinematório. Jornalista profissional, mestre em Cinema pela Escola de Belas Artes da UFMG e crítico filiado à Abraccine e à Fipresci. Também integra a equipe de Jornalismo da Rádio Inconfidência, onde apresenta semanalmente o programa Cinefonia. Votante internacional do Globo de Ouro.

