"Bugonia" (2025), de Yorgos Lanthimos - Foto: Universal Pictures/Divulgação
Universal Pictures/Divulgação

“Bugonia”: Um tango (surtado) a três

Em vários momentos durante o interrogatório da CEO Michelle Fuller (Emma Stone) pelos seus sequestradores Teddy Gatz (Jesse Plemons) e Don (Aidan Delbis) em “Bugonia”, o cineasta Yorgos Lanthimos filma o rosto de sua atriz principal em enquadramentos idênticos aos icônicos closes de Maria Falconetti n’A Paixão de Joana D’Arc” de Carl Dreyer. Aproveitando-se da cabeça raspada da personagem por seus algozes, o diretor grego captura a performance de Stone, especialmente seus olhos, em toda a sua expressividade e tenacidade, nas mínimas nuances de suas feições ímpares – quase como uma pintura casando de forma única elementos do cubismo e do expressionismo.

Dizer que, para Lanthimos, encontrar Emma Stone foi como um pintor que descobre a tinta perfeita para sua técnica seria, no entanto, injusto – porque daria a entender que a atriz é um objeto inanimado sem voz ou agência no processo criativo dos dois. Mais adequado, talvez, seria comparar a um bailarino que acha a sua parceira ideal, alguém que não só compreende, mas antevê seus movimentos, complementando e melhorando seus gestos e expressões, formando quase um corpo único. Em “Bugonia”, a dupla ainda (re)encontra em Plemons, com quem já haviam trabalhado em “Tipos de Gentileza”, a terceira perna desse corpo monstruoso, estranho e violento dançando os movimentos de uma coreografia perturbadora e provocadora.

Os três formam os vértices do triângulo bizarro que faz o longa funcionar e o eleva acima das pretensões de um roteiro que nem sempre consegue sustentar todas as suas ideias. A trama gira em torno de dois jovens, Teddy e Don, que sequestram a CEO de uma megacorporação farmacêutica, Michelle, porque Teddy acredita que ela é uma extraterrestre enviada à Terra para exterminar a humanidade. A família dos dois ainda tem um histórico com a empresa dela, mas “Bugonia” é daqueles filmes que, quanto menos você souber antes de assistir, melhor.

"Bugonia" (2025), de Yorgos Lanthimos - Foto: Universal Pictures/Divulgação
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A partir do sequestro, que ocorre logo no início e que Lanthimos filma em grandes planos gerais como uma sequência de um cartoon da Looney Tunes, o longa se estrutura em torno do embate de ideias entre Teddy e Michelle. Ele é um sujeito às margens da sociedade, engolido por teorias da conspiração e pelos vórtices mais surtados da internet para tentar compreender as violências e injustiças de que sua família foi vítima. Ela é uma máquina cínica e fria do capitalismo, com um discurso articulado e uma elegância soberba que mascaram a barbárie do sistema que representa.

Adaptando o longa sul-coreano “Salve o Planeta Verde!”, de 2003, o roteirista Will Tracy reprisa nos diálogos entre os dois protagonistas os mesmos vícios e a mesma falta de sutileza de seus trabalhos anteriores – o mediano “O Menu” e a péssima minissérie “O Regime”. Essas falhas, no entanto, são mitigadas pelas ótimas atuações de Stone, Plemons e do estreante Delbis e pelo rico vocabulário cinematográfico de Lanthimos. O diretor grego recorre a seus parceiros usuais – especialmente às grandes angulares do diretor de fotografia Robbie Ryan, explorando ao máximo as distâncias e diferenças de dimensão e perspectiva entre os personagens num número limitado de locações; e à trilha de Jerskin Fendrix, o tempo em todo em atrito com o tom do roteiro, obrigando o/a espectador/a a questionar a estranheza do que se passa na tela – e a referências que, além do citado “Joana D’Arc”, incluem ficção científica e documentários ambientais. O resultado supera o caráter verborrágico e discursivo do material escrito por Tracy, transformando suas ideias nem sempre bem exploradas em momentos cinematográficos, imagens e sons, únicos.

O roteiro de “Bugonia” se torna mais interessante no terço final, quando faz algumas (violentas) curvas à esquerda que nem todo mundo vai comprar, mas que Lanthimos e seu elenco fazem funcionar abraçando sem medo o teatro do absurdo que ele propõe. É quando o estilo “bizarro” e surreal do cineasta vem a calhar, potencializado pelo tom farsesco das performances de Stone e Plemons, conseguindo executar o comentário pretendido pelo filme sobre o sentimento de fim do mundo que nos atravessa hoje: diante da morte de inocentes, do cinismo dos obscenamente ricos e do colapso ambiental, qual a única solução possível? Alguns dirão que é um trabalho em que o cineasta grego e sua musa-cocriadora se repetem com resultados um pouco inferiores, mas é também a prova do quanto o diálogo artístico dos dois pode elevar um material apenas mediano.

Nota:

Onde ver "Bugonia" no streaming: