"Wicked: Parte 2" (Wicked for Good, 2025) - Giles Keyte/Universal Pictures
Giles Keyte/Universal Pictures

“Wicked: Parte 2” | Duas jornadas, o dobro da magia: Ariana Grande, Cynthia Erivo e Jon M. Chu falam ao Cinematório

O universo de Oz retorna aos cinemas com “Wicked: Parte 2” (Wicked For Good, no título original), continuação direta do primeiro filme dirigido por Jon M. Chu e lançado nos cinemas em 2024. A superprodução aprofunda a jornada emocional de Glinda e Elphaba, revisita traumas da infância e expande o alcance simbólico do musical.

Durante coletiva de imprensa virtual para a divulgação do novo longa, as atrizes Ariana Grande e Cynthia Erivo, e o diretor Jon M. Chu, responderam às perguntas do cinematório e analisaram a evolução das protagonistas e os desafios de contar uma história dividida em dois filmes, mas unificada por uma mesma pulsação dramática.

"Wicked: Parte 2" (Wicked for Good, 2025) - Giles Keyte/Universal Pictures
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Ariana Grande: “Glinda está sob o feitiço da validação externa”

Para Ariana Grande, a transformação de Glinda é central para compreender a alma de “Wicked: Parte 2”. A atriz e cantora vê a personagem do primeiro filme como alguém moldado pela necessidade de ser querida — um reflexo direto das expectativas sociais e familiares.

“Glinda vive sob um tipo de feitiço, a busca incessante pela validação dos outros. Ela criou uma fachada da qual tem muito orgulho, e que todo mundo adora”, diz Ariana. “No segundo filme, essa luz ainda existe, mas está distorcida. A bolha de privilégio começa a se romper, e ela finalmente precisa olhar para além de si mesma.”

A atriz destaca ainda um elemento que considera essencial: a inclusão da versão jovem de Glinda no novo filme. Segundo ela, o público consegue compreender com mais precisão como as crenças impostas durante a infância moldaram sua personalidade — e como essas feridas dialogam com as de Elphaba.

“Acho fascinante perceber que ambas foram levadas a acreditar que não eram suficientes. Quando elas se encontram, não é aversão. É reconhecimento. Como olhar para um espelho estranho”, afirma. Para Ariana, essa conexão explica por que a amizade entre as duas é tão fundamental para a saga: “É por isso que elas precisam uma da outra.”

"Wicked: Parte 2" (Wicked for Good, 2025) - Giles Keyte/Universal Pictures
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Cynthia Erivo: “Elphaba não está mais ascendendo — agora ela cai, aterrissa, enfrenta”

Enquanto Glinda aprende a desmontar sua imagem pública, Elphaba encara o peso das escolhas feitas no primeiro filme. Cynthia Erivo enxerga a personagem em duas fases profundamente distintas: uma jovem defensiva, que ri de si antes que o mundo faça, e uma mulher madura, cuja força passa também pela vulnerabilidade.

“No começo, ela não conhece o próprio poder. É uma garota solitária, pouco amada, que tenta ser a melhor filha e irmã possível”, explica Cynthia. “No segundo filme, ela já sabe quem é. E isso traz outra solidão, consequência direta das decisões que tomou.”

A atriz destaca que agora vemos Elphaba amar, desejar, sofrer perdas e lidar com um luto visceral. E revisita uma das cenas mais famosas do musical para reinterpretá-la:

“Muita gente vê [a canção] ‘No Good Deed’ como força, mas eu vejo como rendição. Ela perdeu tanto que não tem mais energia para lutar contra o que dizem dela. Então decide aceitar o papel que lhe impõem. É profundamente triste.”

Cynthia também aponta um paralelo visual entre os dois filmes: no primeiro, a trajetória de Elphaba é sempre ascendente, com montanhas, escadas, o voo de “Defying Gravity”. No segundo, o movimento é o oposto.

“Ela chega voando, mas depois aterrissa. Desce ao porão, ao subterrâneo, ao mundo dos animais. A Elphaba jovem ainda existe ali, mas agora ela é uma mulher com dores reais.”

"Wicked: Parte 2" (Wicked for Good, 2025) - Giles Keyte/Universal Pictures
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Jon M. Chu: “A história não termina — ela desafia o espectador”

Responsável por dividir “Wicked” em duas partes, o diretor Jon M. Chu fala sobre o desafio de filmar os longas consecutivamente e, ainda assim, garantir que cada um tenha sua identidade. O diretor enxerga tudo como “uma experiência cinematográfica de um ano”.

“Revisitar o primeiro filme antes do lançamento do segundo era essencial. O público precisa absorver as camadas, deixar decantar. O segundo filme desconstrói muita coisa”, afirma.

Para Chu, a estrutura narrativa nasce de uma pergunta sobre coragem e consequência: o que acontece quando alguém enfrenta o poder e se torna, aos olhos do próprio povo, o vilão da história?

“É fácil viver dentro da bolha. Difícil é lidar com as consequências das escolhas, especialmente quando sua própria casa passa a querer você morto”, diz.

Ele explica que o final do primeiro filme precisava ser emocionalmente satisfatório mesmo sem um confronto direto com o Mágico. Por isso, a equipe reconfigurou “Defying Gravity” como um momento de libertação interior, e não de vitória externa, reforçado pela presença da Elphaba criança.

“No segundo filme, o desafio é mostrar como Glinda chega ao momento de escolha e como Elphaba enfrenta o peso das próprias decisões”, completa.

Chu encerra com a provocação que acredita estar no centro de “Wicked: Parte 2”:

“O destino delas não é tragédia — é possibilidade. Não damos respostas no final. Damos um desafio: você conhece a verdade. Você tem o poder. Quem você vai ser?”

"Wicked: Parte 2" (Wicked for Good, 2025) - Giles Keyte/Universal Pictures
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Confira a íntegra das respostas de Ariana Grande, Cynthia Erivo e Jon M. Chu:

Cinematório: Ariana, você diria que a Glinda de “Wicked For Good” é diferente da Glinda do primeiro filme? Como você definiria cada uma delas?

Ariana Grande: Eu diria que a Glinda do primeiro filme está muito sob um tipo de feitiço, a necessidade daquela validação externa. Ela tem essa fachada da qual se orgulha muito: é querida, é amada, tem esse exterior alegre e brilhante. E, no segundo filme, isso ainda existe, mas foi distorcido, transformado em algo devastador, sabe? A luz dela não está sendo usada para o bem. Ao longo do primeiro filme, até o final, e depois do início até o fim do segundo, você vê essa bolha de privilégio sendo corroída, pouco a pouco. Ela é constantemente convidada a olhar para além de si mesma.

Acho que o primeiro momento em que ela realmente consegue fazer isso é no baile do Ozdust, no primeiro filme. A Elphaba dá a ela aquele convite, e ela aceita. Mas já havia uma bondade silenciosa ali dentro antes disso — tanto que, naquele momento de dar o chapéu para a Elphaba, no fundo ela sabe que aquilo não é a coisa certa. Há um plano na cena em que dou o chapéu para ela que o Jon… eu fiquei muito grata por ele ter colocado, porque conversamos sobre isso. Eu queria que estivesse ali para que o público soubesse que existe uma pessoa com uma consciência mais elevada dentro dela. Ela só está sob esse feitiço das projeções dos pais, da sociedade, seja do que for. E é lindo vê-la finalmente se reconectar com aquela Glinda jovem.

A Glinda jovem, que agora aparece em um cameo neste filme. Também sou muito grata ao Jon por ter incluído isso, porque acho que ela merece esse contexto — as crenças impostas a ela, que a moldaram como ela é no primeiro filme. Eles não acreditavam nela. E acho que é um trauma de infância parecido com o da Elphaba. É interessante, porque quando você pensa bem, as duas foram levadas a acreditar, de maneiras diferentes, que não eram suficientes. E talvez seja isso que elas reconhecem uma na outra quando se encontram pela primeira vez. Não é aversão — é interesse, é curiosidade, é tipo: “oh, estou olhando para um espelho estranho?”. Elas sentem uma pressão enorme, mas que se manifesta de formas completamente diferentes. E acho que, no fim, é por isso que elas precisam uma da outra.

 

Cinematório: Cynthia, você diria que a Elphaba de “Wicked For Good” é diferente da Elphaba do primeiro filme? Como você definiria cada uma delas?

Cynthia Erivo: Ah, sim, elas são muito, muito diferentes. A Elphaba do primeiro filme está apenas começando a descobrir quem ela é. Acho que ela entra… muito defensiva, assumindo que ninguém vai aceitá-la. Então levanta as defesas imediatamente, pronta para fazer a piada sobre si mesma antes que alguém faça. Ela é uma garota que não foi amada. Uma garota que passou grande parte da vida sozinha. Mas que tenta ser a melhor filha e irmã possível. Ela ainda precisa aprender a controlar o poder que tem — nem sabe realmente que tipo de poder possui, tanto mágico quanto interno. Não faz ideia. Já a Elphaba da segunda parte sabe.

Ela é uma mulher que entende quem é, o que deve fazer, qual é o seu lugar no mundo. Agora adulta, ela experimenta a solidão meio que por consequência das escolhas que fez no filme anterior. E, na segunda metade, vemos uma exploração da vulnerabilidade dela… da sensualidade dela… do amor, do que acontece quando ela precisa sofrer, quando perde alguém. No primeiro filme ela já tem dor, mas é algo muito antigo — é outro tipo de memória. Aqui a dor é imediata, visceral.

Eu disse para alguém que, à primeira vista, quando você vê “No Good Deed”, parece que ela está forte, poderosa, na defensiva. Mas, na verdade, acho que é alguém que se rendeu. Que está em seu ponto mais fraco. Ela perdeu muito. Carrega muita dor, muita perda. E não tem mais energia para lutar contra o que dizem sobre ela. Então, em vez de lutar, ela… se rende. Diz: “Vou ser exatamente o que vocês dizem que eu sou. Vou ser aquilo que vocês afirmam que eu sou, porque não tenho mais nada que eu possa fazer.” É tipo: tudo bem, chega, que assim seja. Todo mundo acredita que ela é má — então é isso que ela será: wicked.

E acho que é um momento de dor e tristeza profundas para ela, de uma maneira que o primeiro filme não explora. No final do primeiro, ela está em um lugar triunfante, encontrou um senso de identidade. Mas quando a reencontramos aqui, embora ela ainda tenha esse senso de identidade, ele começa a se desfazer um pouco. Porque ela teve que aprender a amar, a deixar o amor entrar — e, ao deixar entrar, corre o risco de perder. E ela perde.

Eu disse para alguém que há um arco interessante pelo qual ela passa. No primeiro filme, ela está sempre ascendendo: na primeira música ela chega ao topo da montanha e precisa descer; depois ela voa… ela também está subindo a colina em “I’m Not That Girl”, e mais tarde sobe escadas, e então voa em “Defying Gravity”. Já aqui, ela aparece voando e pousa. Depois precisa descer até o porão. Depois ir abaixo da terra, onde estão os animais. É tudo ascensão, e agora… aterrissagem, descida.

Então, sim, elas são muito diferentes. A Elphaba jovem ainda faz parte da Elphaba adulta que vemos no segundo filme, mas… esta Elphaba tem experiência de vida. Ela cresceu. É uma mulher, não uma garota.

 

Cinematório: Jon, qual é o principal desafio de filmar dois longas consecutivos e ainda assim fazer com que cada um deles seja um filme independente, mesmo que contem uma única história?

Jon M. Chu: Essa é uma resposta longa, mas vou tentar resumir. Primeiro, eu precisava saber o que estávamos dizendo em ambos os filmes. Vejo tudo como uma experiência cinematográfica de um ano. Você recebe o início da história e depois o fim dela — com um ano entre eles. E precisávamos criar espaço para esse ano, para que você pudesse rever o primeiro filme, absorver as camadas, deixar decantar. Assim, o segundo filme poderia, de certa forma, quebrar aquela visão e mostrar que é muito mais difícil sustentar as decisões que você toma na vida. Especialmente quando são decisões corajosas, quando você enfrenta o poder, quando precisa lidar com as consequências. Dentro de uma bolha é fácil — as coisas permanecem iguais, talvez aumentem. Mas quando você se expõe, a solidão aumenta. Obstáculos surgem.

Talvez você passe a duvidar de si mesmo, talvez duvide do que está defendendo. O que acontece quando sua própria casa… literalmente quer você morto e acredita que você é o vilão da história? Como isso te afeta? Para mim, esse era o ponto número um, a espinha dorsal dos dois filmes.

Depois, olhando para cada filme separadamente: “Defying Gravity” encerra o primeiro. Então como isso pode ser emocionalmente satisfatório? Se o filme é sobre o Mágico, a Elphaba nem luta contra ele nesse primeiro. Então isso não seria um final tradicional. O que é, então? “Defying Gravity” é sobre a Elphaba se assumir, se elevar, abandonar as expectativas alheias e se libertar disso. Ok, essa é a estrutura emocional. Então, contra quem ela está lutando no final? Contra si mesma. Contra sua autoimagem. É ela se libertando para aceitar seu próprio poder. Então, quando ela diz “It’s me”, não pode simplesmente voar como no musical.

No musical ela já entende quem é. Aqui, não. Quando ela sai pela janela, não sabe pelo que está lutando — ela cai. E ao cair, vê sua versão jovem. E aí percebe: “é por mim”. E quando segura a vassoura e diz “It’s me”, ela realmente quer dizer isso. Mas, para esse momento funcionar, precisávamos colocar a Elphaba criança no início do filme. Precisávamos vê-la em Shiz sonhando, desejando essas coisas, imaginando o que poderia ser.

E o mesmo vale para o segundo filme. Agora tudo está exposto. A Glinda ainda não escolheu. Como ela chega lá? Precisamos conhecer suas feridas de infância e o que ela precisa curar. E precisamos entender o quão difícil é para a Elphaba. E seguimos a partir disso. O que significa quando essas duas pessoas precisam se separar, mas o impacto que tiveram uma na outra permanece? O lugar para onde estão indo não é um desastre — é uma possibilidade.

Não damos uma resposta no final do segundo filme — damos um desafio. Você sabe a verdade. Você tem o livro, você tem o poder. Agora: quem você vai ser?

Para mim, é isso que os dois filmes representam — e foi assim que estruturamos essa experiência cinematográfica de um ano.

O repórter participou da entrevista coletiva a convite da Universal Pictures.

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