"Pecadores" (Sinners, 2025), de Ryan Coogler - Warner Bros./Divulgação
"Pecadores" (Sinners, 2025), de Ryan Coogler - Warner Bros./Divulgação

Oscar 2026: uma análise dos indicados à edição mais imprevisível dos últimos anos

A Academia de Cinema de Hollywood anunciou na última quinta-feira os indicados ao Oscar 2026. Para a alegria geral da nação (ou maior parte dela, com certeza), “O Agente Secreto” recebeu quatro indicações: Melhor Filme, Melhor Filme Internacional, Melhor Elenco e Melhor Ator, para Wagner Moura. Outro brasileiro que concorre é Adolpho Veloso, indicado a Melhor Fotografia pelo filme “Sonhos de Trem”. É uma produção norte-americana, mas estamos felizes do mesmo jeito.

“Pecadores” lidera a corrida pelas estatuetas com 16 indicações, um recorde na história do Oscar. Ele superou três filmes que detinham até então a maior marca, com 14 nomeações: “A Malvada” (1950), “Titanic” (1997) e “La La Land” (2016). Os demais filmes com múltiplas indicações neste ano são “Uma Batalha Após a Outra” (13), “Valor Sentimental”, “Marty Supreme” e “Frankenstein” (9 cada), e “Hamnet” (8). Junto com “O Agente Secreto”, os filmes “F1”, “Bugonia” e “Sonhos de Trem” também conseguiram quatro indicações.

Misturando drama racial, ação e terror, “Pecadores”, dirigido por Ryan Coogler e duplamente protagonizado por Michael B. Jordan, está reposicionado na corrida pelo Oscar e agora é uma ameaça real ao até então franco favoritismo de “Uma Batalha Após a Outra”, drama de ação de Paul Thomas Anderson, estrelado por Leonardo DiCaprio. Outro que tem força para provocar uma reviravolta na disputa pelo Oscar de Melhor Filme é o drama de época “Hamnet – A Vida Antes de Hamlet”, de Chlóe Zhao (única mulher indicada a Melhor Direção neste ano e apenas a segunda na história a conseguir duas indicações nesta categoria, junto com Jane Campion). O longa surpreendeu ao vencer o Globo de Ouro e vem sendo considerado adversário de peso nesta reta final da temporada de premiações.

"Hamnet: A Vida Antes de Hamlet" (Hamnet, 2025), de Chloé Zhao - Foto: Focus Features
“Hamnet: A Vida Antes de Hamlet” (Hamnet, 2025), de Chloé Zhao – Foto: Focus Features

Não se pode descartar ainda o drama familiar “Valor Sentimental”, de Joachim Trier, que recuperou o fôlego na corrida com suas nove indicações, a maioria delas nas categorias principais — diretor, roteirista, elenco, montador, todo mundo indicado. A torcida para “O Agente Secreto” ganhar como Melhor Filme vale até o final, é claro, mas a maior chance do longa brasileiro é na categoria Melhor Filme Internacional, tendo justamente o norueguês “Valor Sentimental” como seu principal adversário.

O Brasil também marca presença na categoria Melhor Elenco, onde o favoritismo está com “Uma Batalha Após a Outra” e “Pecadores”. A gente fica muito feliz de ver “O Agente Secreto” ser reconhecido logo na primeira edição desta estatueta (salve, Tania Maria!), mas o filme brasileiro é a zebra entre os cinco indicados aqui, apesar de ter ocupado o lugar de “Valor Sentimental” (e, é preciso dizer, há uma certa incoerência nisso, visto que todo o elenco principal conseguiu indicações individuais).

Já na categoria Melhor Ator, as chances são bem melhores. Wagner Moura é um ator conhecido em Hollywood pelos filmes e séries que já estrelou. Além disso, a vitória dele no Globo de Ouro e em outras premiações com certeza pesam a seu favor. Tal como Fernanda Torres no ano passado com “Ainda Estou Aqui”, o baiano subir ao palco para receber o Oscar está longe de ser algo inimaginável. Mas temos que ter em mente que a concorrência é forte. Além de Leonardo DiCaprio, estão indicados Ethan Hawke, por “Blue Moon”, Michael B. Jordan, por “Pecadores”, e Timothée Chalamet, por “Marty Supreme”.

"Marty Supreme" (2025), de Josh Safdie - Foto: Ascot Elite Entertainment/Divulgação
“Marty Supreme” (2025), de Josh Safdie – Foto: Ascot Elite Entertainment/Divulgação

 

Chalamet é o principal adversário de Wagner. Esta é a terceira indicação dele ao Oscar de Melhor Ator, tendo apenas 30 anos de idade. Com isso, o novaiorquino se tornou o ator mais jovem na história do Oscar a conseguir esse feito (concorreu antes por “Um Completo Desconhecido” e “Me Chame Pelo Seu Nome”). Ele, que também concorre como produtor na categoria Melhor Filme (é também o mais jovem da história neste quesito), está realmente muito bom em “Marty Supreme”, mas o histórico do Oscar não lhe é favorável, já que a estatueta de Melhor Ator costuma ir para atores mais velhos (ao contrário de Melhor Atriz, que tem a tradição de premiar atrizes mais jovens, fato que prejudicou Fernandinha na disputa contra Mikey “Anora” Madison). Além de Wagner Moura, que está com 49 anos, a idade também dá vantagem a DiCaprio, com 51, e Hawke, com 55. E obviamente, com toda a festa em torno de “Pecadores”, Michael B. Jordan, com 38 anos, não é carta fora do baralho.

Esta edição do Oscar é sem dúvida nenhuma uma das mais abertas e imprevisíveis dos últimos anos. Outra prova disso é a categoria Melhor Atriz. Jessie Buckley é vista como favorita por “Hamnet”, mas as chances de Rose Byrne, por “Se Eu Tivesse Pernas, Eu Te Chutaria” (premiada no Globo de Ouro), e Renate Reinsve, por “Valor Sentimental”, devem ser levadas em consideração. Emma Stone, por “Bugonia”, e Kate Hudson, por “Song Sung Blue”, correm por fora.

Entre os atores coadjuvantes, Stellan Skarsgård, por “Valor Sentimental” parece ser o único com favoritismo consolidado e sua categoria não deve trazer surpresas. Já entre as atrizes coadjuvantes, Amy Madigan confirmou as apostas e foi indicada por “A Hora do Mal”, tendo boa chance de ganhar, mas a bola da vez é Teyana Taylor por “Uma Batalha Após a Outra”. Elle Fanning pode fazer valer a regra da idade, assim como sua colega de elenco Inga Ibsdotter Lilleaas, que tem encantado as plateias por “Valor Sentimental”. Wunmi Mosaku, de “Pecadores”, não aparece como forte candidata a princípio, mas tenhamos sempre em mente que “Pecadores” está mais em alta do que nunca.

"Valor Sentimental" (Sentimental Value, 2025), de Joachim Trier - Foto: Frenetic Films/Divulgação
“Valor Sentimental” (Sentimental Value, 2025), de Joachim Trier – Foto: Frenetic Films/Divulgação

Todas essas previsões são do calor do momento, vale dizer. A premiação pode consagrar “Uma Batalha Após a Outra” no final das contas, mas a vitória não parece mais tão certa quanto um mês atrás. Os prêmios dos sindicatos (SAG, DGA, PGA…) darão uma ideia mais certeira do que pode acontecer na noite do Oscar, no dia 15 de março. De todo modo, há categorias que parecem já estar definidas, como as estatuetas de Melhor Animação e Melhor Canção Original ficarem com “Guerreiras do KPop”, ou Melhor Documentário ir para “A Vizinha Perfeita” (cuja diretora, a indiana Geeta Gandbhir, também foi indicada a Melhor Documentário em Curta-Metragem, com “O Diabo Não Tem Descanso”). É aguardar e torcer — muito — pelos nossos.

O clube dos esnobados

Quem foi barrado na festa do Oscar sempre é assunto no day after das indicações. Na categoria Melhor Atriz, as duas maiores ausências entre as cotadas são Chase Infiniti, por “Uma Batalha Após a Outra”, e Jennifer Lawrence, por “Morra, Amor”. Eva Victor, de “Sorry, Baby”, também faz falta, embora estivesse mais cotada para indicação a Melhor Roteiro Original, o que também não se concretizou.

A dupla de “Wicked: Parte 2”, Cinthya Erivo e Ariana Grande, também ficou de fora — e o próprio filme foi totalmente ignorado nas demais categorias, incluindo a de Melhor Canção Original, onde tinha fortes chances. Foi uma esnobada surpreendente, já que o primeiro filme recebeu 10 indicações no ano passado. Desta vez, no entanto, até “Jurrasic Park: O Recomeço” conseguiu uma nomeação a Melhores Efeitos Visuais.

Entre os homens, Paul Mescal ficou de fora da categoria Melhor Ator Coajuvante por seu Shakespeare em “Hamnet”. Entre os protagonistas, Joel Edgerton, por “Sonhos de Trem”, Jesse Plemons, por “Bugonia”, Dwayne Johnson, por “Coração de Lutador”, George Clooney, por “Jay Kelly”, e Oscar Isaac, por “Frankenstein”, foram superados por Ethan Hawke, já que as outras quatro vagas estavam praticamente asseguradas.

"Train Dreams" (2025), de Clint Bentley - Divulgação
“Train Dreams” (2025), de Clint Bentley – Divulgação

Na categoria Melhor Direção, Joachim Trier foi indicado por “Valor Sentimental” e Josh Safdie por “Marty Supreme”, em vagas que eram disputadas nas apostas por Guillermo del Toro, por “Frankenstein”, Jafar Panahi, por “Foi Apenas um Acidente”, e Kleber Mendonça Filho, por “O Agente Secreto”.

E não foi só “Wicked: Parte 2” que ficou totalmente fora do Oscar 2026. Filmes como “Hedda”, “A Única Saída”, “Springsteen: Salve-me do Desconhecido”, “Jay Kelly”, “O Testamento de Ann Lee”, “O Beijo da Mulher Aranha”, “The Mastermind” e “Amores Materialistas” também ficaram de mãos abanando, após figurarem como apostas em diversas categorias nos últimos meses. Também não vimos um filme de super-herói sequer conseguir  uma indicação, nem mesmo “Superman” em Melhores Efeitos Visuais. Mais um sintoma da fadiga do gênero.

Outro que poderia estar entre os indicados é “Extermínio: A Evolução”, já que o cinema de horror está em alta nesta edição do Oscar (“Pecadores”, “Frankenstein”, “A Hora do Mal” e até “A Meia-Irmã Feia” concorrem). Mas quem sabe Ralph Fiennes não conquista uma indicação no ano que vem com o seu Dr. Kelson em “Extermínio: O Templo dos Ossos”? É difícil, visto que o filme foi lançado agora e teria que atravessar um ano inteiro para ser lembrado. Mas que seria merecido, seria. ■