Mais do que shows gratuitos da Madonna e Lady Gaga transformando a praia de Copacabana num arco-íris de energia, o Rio de Janeiro é uma das cidades – se não a cidade – mais gay-friendly do mundo porque reúne em plenitude os quatro combustíveis essenciais a uma certa homossexualidade contemporânea: beleza, diversão, sexo e drogas. “Ruas da Glória”, o segundo longa do cineasta Felipe Sholl (“Fala Comigo”) na direção, foca nos dois últimos itens dessa lista. No filme, o Rio é uma droga que consome e destrói, uma fonte de prazer ilimitado que se torna um vício e uma obsessão fora de controle – uma resposta perfeita e perigosa à pulsão paradoxal de vida e morte que marca a existência de tantos homens gays.
A cidade é encarnada na trama pelo personagem de Adriano (Alejandro Claveaux), o garoto de programa uruguaio por quem o recifense recém-chegado Gabriel (Caio Macedo) desenvolve uma paixão obsessiva e autodestrutiva. Os dois se conhecem e, depois de alguns dias – ou melhor, noites – regados a muito sexo e drogas, Adriano desaparece sem deixar rastros. Consumido por um desejo tão idealizado quanto irresistível, Gabriel mergulha – e se afoga – numa busca obcecada pelo amante latino.
O primeiro plano de “Ruas da Glória” é um travelling pela orla da zona sul do Rio, passando pelo Aterro do Flamengo e a Marina da Glória, reproduzindo o cenário e a tradicional experiência de chegada de tantos turistas e forasteiros à capital fluminense. Logo na sequência, porém, Sholl insere imagens de pontos de cruising, pegação e prostituição da região centro-sul da cidade. O longa se anuncia, assim, como esse guia não do Corcovado, Pão de Açúcar ou Jardim Botânico para turistas convencionais, mas do lado B do Rio: a experiência queer do paraíso de devassidão que atrai tantos gays à cidade durante 365 dias do ano.
Não por acaso, o filme se passa quase todo à noite, evitando a imagem-cartão postal da praia ensolarada. Gabriel é assombrado pela perda recente da avó, para quem acende uma vela: ela é a luz, e Adriano, por outro lado, é a escuridão na qual ele vai mergulhar durante o filme. O garoto de programa é uma representação do Rio de Janeiro: bonito, mas extremamente ordinário – a paisagem mais linda do mundo comandada pela milícia mais violenta do país. É a infame “cavalgada do dragão” dos usuários de heroína – ou, em bom pajubá, é o famoso “amor de pica: quando pega, fica”.
Essa obsessão ganha contornos mais interessantes quando Gabriel se muda para o apartamento de Adriano e, a certa altura, passa a usar seu perfume e suas roupas. Sholl ensaia nessas sequências uma espécie de “Um Corpo que Cai” queer, com o protagonista perdido entre o desejo de ter ou ser seu objeto de atração – e, na sua ausência, talvez transformar-se nele, seduzindo e excitando-se com o próprio reflexo no espelho. É uma pena, portanto, que logo em seguida o longa se perca em meio às soluções mais óbvias e novelescas do melodrama, tornando-se uma série de cenas de gritaria entre doidões fritos de cocaína.

“Ruas da Glória” é marcado por esse potencial não completamente explorado, comprometido por algumas escolhas fáceis – especialmente com relação ao seu protagonista, o ponto mais fraco do filme. Gabriel, o anjo inocente de cachinhos dourados e olhos azuis, nunca convence como professor de literatura – uma profissão cuja única justificativa parece ser algumas referências literárias absolutamente desnecessárias, como a cheirada de pó na capa de “O Retrato de Dorian Gray”. Sua personalidade um tanto insossa e desinteressante também não explica sua adoção pela comunidade mais queer do filme, liderada por Mônica (Diva Menner), a dona do inferninho onde boa parte da trama se desenvolve.
Enquanto isso, Adriano – esse garoto de programa que é meio uma esfinge, uma idealização e um realizador de pequenos vídeos diarísticos erótico-afetivos – é sintomático de como o roteiro não se aprofunda na questão do trabalho do sexo e suas complexidades, mantendo o/a espectador/a na superfície do desconhecimento do protagonista. Verdadeiro personagem queer do filme, com suas identidades em transição, o uruguaio é preterido em favor de um garoto privilegiado vivendo uma espécie de experiência de “nostalgie de la boue”: um riquinho branco – o longa sugere que Gabriel é um milionário que recusa a fortuna do pai – dando um rolê no inferninho do Baixo Rio.
“Ruas da Glória” é mais um longa da recente produção queer brasileira, depois de “Ato Noturno”, que se esforça para queerizar e importar o thriller erótico para o cinema nacional. Os dois esbarram, contudo, numa certa constatação de como ele se trata de um gênero essencialmente estadunidense, marcado pelo puritanismo e pela associação do erotismo e da sexualidade à culpa e à morte. No Brasil, por outro lado, o sexo foi o principal ingrediente de um dos movimentos mais bem sucedidos da filmografia local, a pornochanchada, na qual ele estava muito mais associado ao deboche, à subversão e à insolência e desobediência dos corpos diante de um regime conservador e autoritário.
Tanto o filme de Sholl quant0 o de Filipe Matzembacher e Marcio Reolon estão longe de ser um fracasso, mas se debatem com essas dissonâncias culturais e como elas podem ser usadas para dizer algo que reflita a experiência de corpos e sujeitos queer brasileiros. Diante desses desafios e deficiências, “Ruas da Glória” funciona como o retrato do Rio de Janeiro como um sonho erótico e um pesadelo lisérgico, mas na sua reflexão sobre a pulsão de morte que assola existências queer contemporâneas e na possibilidade de dizer algo mais nuançado ou provocador sobre o trabalho do sexo, ainda deixa um bocado a desejar. ■

Crítico de cinema desde 2004, filiado à Abraccine e à Fipresci. Jornalista e mestre em Cinema pela Universidade da Beira Interior, em Portugal, onde atualmente cursa o doutorado em Media Artes com pesquisa sobre cinema queer contemporâneo, financiada pela Fundação para a Ciência e a Tecnologia (FCT). É votante internacional do Globo de Ouro e já integrou o júri da crítica em festivais dentro e fora do país.

