O cineasta alemão Christian Petzold está de volta às telas brasileiras com o lançamento de “Mirrors No. 3”. Exibido na Quinzena dos Realizadores do Festival de Cannes, o longa-metragem marca a quarta colaboração entre o diretor e a atriz Paula Beer, parceria que já rendeu títulos como “Em Trânsito”, “Undine” e “Afire”.
A trama acompanha Laura, uma jovem estudante e pianista interpretada por Beer que sobrevive a um grave acidente de carro no qual perde o namorado. Profundamente abalada, ela é acolhida por Betty (Barbara Auer), uma mulher que testemunhou a tragédia e a leva para sua casa. No novo ambiente, Laura experimenta uma sensação temporária de pertencimento, mas a convivência com a família traz à tona um delicado equilíbrio entre culpa, luto e antigas feridas.
Luto, música e pintura
Assim como em obras anteriores do diretor, a exemplo de “Wolfsburg” e “Fantasmas”, o filme aborda o tema do trauma e da perda de um filho. No entanto, a construção narrativa se apoia em uma forte dimensão sensorial e simbólica. O próprio título faz referência à peça para piano “Miroirs No. 3”, de Maurice Ravel, interpretada na trilha pela pianista Adriana von Franqué.
A relação com a água e com a música foi um dos pilares da produção. “Em um filme sobre alguém na fronteira do suicídio que aprende a ver e sentir o mundo novamente, eu não queria uma trilha sonora convencional”, disse o diretor em entrevista ao site Screen Slate. Ele explicou que a composição de Ravel traz a energia e a brutalidade da água. “O cinema é sobre sobrevivência e nada mais”, disse o diretor ao comparar os filmes a naufrágios em que os sobreviventes tentam construir uma jangada.
Para o papel, Paula Beer passou por seis semanas de preparação de piano. Petzold revelou que a ideia de escalá-la como estudante da instrumento surgiu após ouvi-la praticando durante as gravações de “Undine”.

Influências das artes e contos de Fadas
Outra referência marcante no início da narrativa é a pintura “A Ilha dos Mortos”, de Arnold Böcklin. A cena em que Laura avista um homem em uma prancha de stand-up paddle evoca a figura do barqueiro que conduz os mortos. Na entrevista ao Screen Slate, Petzold contou que usou a imagem para simbolizar o estado da protagonista, que entra na história encarando a própria mortalidade.
O longa também ganha um tom de fábula. Elementos do figurino — como as camisetas com estampas infantis, a exemplo do queijo Babybel, herdadas da filha falecida de Betty — carregam peso simbólico sobre a recusa em crescer e o controle materno. Segundo Petzold, a atmosfera de tragédia busca inspiração direta na tradição dos contos dos Irmãos Grimm, nos quais a dor da perda precisa ser encarada para que os vivos e os mortos encontrem paz.
A grade de horários e as salas de exibição de “Mirrors No. 3” podem ser consultadas na programação dos cinemas da sua cidade. O lançamento é da distribuidora Imovision.

