Brincando de seduzir

Existem vários filmes sobre a chegada da vida adulta e todas as responsabilidades e dúvidas que vêm com ela. “Pecados Íntimos”, de Todd Field (“Entre Quatro Paredes”), é o mais próximo do que seria uma continuação para esses filmes. É como se seus personagens principais já tivessem passado por aquela fase: agora, eles são adultos, eles assumiram responsabilidades (grandes, diga-se de passagem: são pais de família). Mas as dúvidas continuam – ou melhor, elas evoluíram. Se antes a pergunta era “Serei feliz desse jeito?”, agora é “Sou feliz vivendo assim?” Mas o tema do filme não é o arrependimento, sentimento que pertence mais à juventude, quando se tem mais liberdade para arriscar e errar. Em “Pecados Íntimos” trata-se mais de se ter convicção, palavra-chave para quem atinge a maturidade.

As “criancinhas” do título original (e do livro de Tom Perrotta, como lançado no Brasil) na verdade são os personagens adultos, que por vezes parecem presos numa Terra do Nunca, como se quisessem viver para sempre uma adolescência que o tempo consumiu. Há uma ótima metáfora para isso no fascínio que um grupo de skatistas exerce sobre Brad (Patrick Wilson), um pai que cuida do filho de cinco anos enquanto a esposa coloca dinheiro em casa. Essa “síndrome de Peter Pan” ganha um grau ainda mais profundo e trágico em Ronnie (Jackie Earle Haley, indicado ao Oscar), vítima de acusações de pedofilia e perversão por toda a vizinhança. No seu caso, trata-se realmente de um distúrbio psicológico, mas ele também pode ser visto como uma criança que ficou adulta apenas externamente, já que sua sociopatia exerce sobre ele uma atração pela infância/adolescência, embora, claro, de uma forma totalmente diferente daquela sentida por Brad.



A história de Ronnie e a de Brad e Sarah (Kate Winslet, também nomeada pela Academia) são conduzidas com equilíbrio por Field, sem que uma sobreponha a outra – algo comum em filmes com tramas paralelas. Embora suas resoluções sejam independentes, elas estão ligadas por meio de seus personagens secundários, que são ramificações dos dois eixos narrativos e se desenvolvem em suas próprias subtramas (como o frustrado ex-policial de Noah Emmerich, ou a esposa “chefe da casa” vivida por Jennifer Connelly, talvez a única adulta de fato do filme).

O único incômodo que senti ao ver “Pecados Íntimos” foi a narração em off, que várias vezes surge para descrever os sentimentos e emoções dos personagens. Talvez, esse artifício facilite o filme para uma audiência maior (o que me lembra o caso de “O Grande Golpe”, em que o mestre Stanley Kubrick foi forçado pelo estúdio a acrescentar um voice-over para não deixar o público confuso com a narrativa não-linear). Particularmente, prefiro, por exemplo, a cena em que Sarah se olha no espelho e, enquanto se admira, percebemos por sua expressão que, naquele momento, ela está se sentindo dez anos mais jovem. Sua filha, então, bate na porta do banheiro e, imediatamente, a feição de Sarah muda e ela volta à realidade. Uma cena simples, com dois cortes e sem narração, que diz muito mais que qualquer frase. A descrição pode (e deve) funcionar melhor na literatura. No cinema, a inferência é mais prazerosa.

Pecado Íntimos (Little Children, 2006, EUA), dir.: Todd Field – em cartaz nos cinemas.

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