Homem-Aranha 3

O primeiro “Homem-Aranha” mostrou Peter Parker lidando com a responsabilidade de possuir super-poderes. Na continuação, o protagonista se viu enfrentando um dilema emocional: como conciliar suas obrigações de super-herói com seus sentimentos humanos? Assim, para o terceiro filme da franquia, era de se esperar que o foco narrativo fosse novamente um drama pessoal do personagem. Agora, Peter tem questionamentos morais pela frente.

Quando o longa começa, sabemos que o Homem-Aranha conquistou o respeito dos cidadãos de Nova York e se tornou um popstar. Até mesmo o Clarim Diário, o jornal que sempre atacou o herói pintando-o como vilão, parece ter se rendido à sua imagem. Paralelamente, o namoro de Peter e Mary Jane vai de vento em popa, podendo logo se transformar em casamento. Diferente dos filmes anteriores, este começa com um Peter Parker cheio de si, auto-confiante, algo observado já no tradicional voice-over de Tobey Maguire que abre cada longa. Mas não demora e vemos que o sucesso do Aranha lhe subiu à cabeça, tornando-o orgulhoso e egoísta. Isto obviamente afeta seu relacionamento com Mary Jane, que se sente ainda mais afastada com a entrada de um novo interesse amoroso na vida do namorado: a angelical Gwen Stacy. Não bastasse essa confusão de sentimentos, e a possibilidade de perder o emprego para o fotógrafo concorrente Eddie Brock, Peter ainda ganha mais dois problemões: depois de ver sua “dívida” com Harry se transformar em confronto direto, ele descobre que o verdadeiro assassino de seu tio Ben está à solta – notícia que desperta novamente o desejo de vingança que ele já havia experimentado no primeiro filme.



A premissa para a nova aventura é muito boa: a forma encontrada para mostrar esse embate interno do protagonista é um simbionte alienígena que, sem maiores explicações (e não eram necessárias mesmo), chega à Terra a bordo de um meteorito e se afeiçoa a Peter. Graças ao seu frágil estado emocional, ele acaba se tornando um hospedeiro ideal para a criatura, que em troca lhe fornece força e agilidade extremas. O orgulho, o egoísmo e a vingança alimentam o “lado negro” de Peter, e tudo aquilo que ele celebrava no início do filme acaba ruindo.

Até certo ponto, o roteiro – co-escrito pelo veterano Alvin Sargent (que fez um trabalho brilhante em “Homem-Aranha 2”) ao lado do diretor Sam Raimi e seu irmão Ivan Raimi – desenvolve muito bem o argumento, encontrando na metáfora do simbionte seu momento mais inteligente. Porém, dois problemas impedem que a história tenha a mesma fluidez dos filmes anteriores. E, curiosamente, são dois problemas envolvendo mudanças de personalidade.

O primeiro está relacionado a Harry, que perde a memória após um violento duelo com Peter e esquece tudo o que aconteceu desde a morte do pai. Assim, ele não se lembra mais que Peter é o Homem-Aranha e volta a ser seu amigo. A atitude de Peter frente ao ocorrido (ele chega a esboçar uma expressão de alívio ao perceber que a enfermidade de Harry lhe beneficia) seria mais um interessante aspecto a ser explorado na (des)construção do personagem. Mas, ao invés disso, a presença de Harry no filme se torna uma distração. Ele vira um sujeito dócil, bobo até, diferente do rapaz amargurado que conhecemos dos filmes anteriores (cheguei a pensar que talvez ele estivesse fingindo tudo aquilo e planejando um ataque-surpresa). Harry é deixado em segundo plano e a perda de memória parece ser uma desculpa para tirá-lo da história quando ele não mais interessa, somente para recuperá-la mais tarde quando o roteiro volta a precisar dele.

Peter também sofre uma mudança de personalidade. Ao se deixar possuir pelo poder negativo do simbionte, ele se torna agressivo, impaciente, despreza aqueles que o amam. Mas parece que Sam Raimi não ficou satisfeito ou não confiou na interpretação de Tobey Maguire para demonstrar essa nova versão de Peter. Com pouquíssima sutileza, ele faz o protagonista mudar não apenas o figurino (além do uniforme, suas roupas passam a ser predominantemente pretas), mas também o penteado. Assim, a franja caída na testa se torna o sinal óbvio de que aquele é o Peter malvado. Além de adotar o visual “emo”, Maguire ainda externa uma vontade, contida até então, de ser John Travolta, já que arrisca passos de discoteca nas ruas e ainda protagoniza um ridículo número de dança com Bryce Dallas Howard.

Essas duas falhas, somadas a outras inconsistências menores (o drama particular de Mary Jane é mal resolvido e o mordomo de Harry acaba se revelando o grande vilão do filme), fazem “Homem-Aranha 3” ser inferior a seus predecessores. Mas isso não quer dizer que o filme é ruim. Pelo contrário, é bom e tem ótimos momentos, que poderiam ser mais valorizados se a história fosse mais enxuta. Sam Raimi cria cenas de ação absolutamente arrebatadoras, com destaque para a briga aérea entre Peter e Harry e o confronto final do Aranha com Venom e o Homem-Areia. Aliás, a fortuna investida nos efeitos visuais foi muito bem aproveitada. Somente a cena da origem do Homem-Areia já deveria valer a indicação ao Oscar que o filme certamente irá conquistar. E apesar de Venom não ter ficado tão bem desenhado quanto nos quadrinhos (ele perde um pouco do “charme” ao ter suas características monstruosas acentuadas), sua caracterização é competente o bastante. Além disso, os toques de humor são garantia certa de risadas, em especial nas cenas de J. Jonah Jameson e do maître interpretado por Bruce Campbell.

Parece que os realizadores do filme foram acometidos pelo mesmo mal que Peter Parker: o excesso de confiança devido ao sucesso da franquia fez com que eles fossem auto-indulgentes e tomassem algumas liberdades que se traduziram em decisões erradas. Ainda que sejam erros perdoáveis e que não comprometam o fechamento do arco dramático iniciado em 2002, eles tiram um pouco do brilho desta que vem sendo a melhor série baseada em quadrinhos, ao lado de X-Men. Só espero que demore uns bons cinco anos até voltarem a fazer o inevitável quarto filme, pois os sinais de desgaste já estão evidentes.

nota: 7/10 — vale o ingresso

Homem-Aranha 3 (Spider-Man 3, 2007, EUA), dir.: Sam Raimi – em cartaz nos cinemas

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