O Hospedeiro

O subgênero “filme de monstro” tem em “Godzilla” seu representante mais famoso. O lagarto gigante japonês foi criado como crítica à ameaça atômica, mas sua popularidade acabou o fazendo se perder em uma infinidade de filmes onde, basicamente, ele só enfrentava outros monstros do mesmo tamanho (incluindo aí o genial “Godzilla: Final Wars”, que se torna praticamente uma auto-paródia da série).

Em “O Hospedeiro”, o cineasta coreano Bong Joon-ho (“Memórias de um Assassino”) retoma o tema-base de “Gojira”: o surgimento de uma criatura ameaçadora devido à falta de responsabilidade do homem para com seu meio-ambiente. Aqui, o descaso acontece com o despejo de material tóxico em um grande rio de Seoul. Os anos passam e das águas surge esse anfíbio grotesco, que parece ter saído de um cruzamento de uma iguana com um T-Rex.

Mas “O Hospedeiro” não é simplesmente uma renovação do “filme de monstro” com efeitos visuais digitais em incríveis cenas de destruição. A grande sacada do longa é que seu tema, a irresponsabilidade humana, também se ramifica em subtramas que logo se revelam bem mais interessantes do que acompanhar o bichão devastando a cidade.

Começa com o personagem do pai, um sujeito largado, que não cuida direito da filha (ele chega a oferecer cerveja para a garota, que protesta, por ser menor de idade) e tão pouco se preocupa em servir bem aos clientes de sua lanchonete. Depois, há o pouco caso com a população feito pelo governo e pela imprensa ao inventar motivos para causar pânico através dos noticiários. Por fim, vem a alfinetada com arpão dada nos EUA e sua mais que condenável política intervencionista.

Quem espera por muitas cenas de ação poderá se decepcionar com “O Hospedeiro”, pois a maior parte do longa é voltada para o drama, principalmente o do pai, que se desespera quando vê a filha ser raptada pelo monstro, logo depois de perceber que largou a mão da menina. Mas Bong Joon-ho não desaponta quando filma os ataques da criatura. Ele não só cria cenas envolventes e caprichadas, com um cuidado especial na composição dos quadros e na escolha dos ângulos, como também tem plena consciência do tipo de filme que está fazendo, assim, consegue brincar com as convenções do gênero, sempre procurando surpreender o espectador.

Joon-ho também amarra muito bem as pontas do roteiro (junto com seus dois colegas, os estreantes Baek Chul-hyun e Ha Won-jun): algo que você viu lá atrás terá serventia mais adiante na história. Note, por exemplo, a atenção em dar indícios de que a família Park inevitavelmente será a responsável pela caçada ao cruel animal: o javali na parede, a venda de lulas (pesca), a irmã que pratica arco e flecha.

“O Hospedeiro” chega ao Brasil com atraso de quase um ano, mas num momento oportuno, entre as estréias dos dois principais arrasa-quarteirões da temporada. Não se sabe ainda quanto a “Piratas do Caribe”, mas a “Homem-Aranha 3” Joon-ho já dá uma grande lição: manter o foco nos personagens é de fato o melhor a fazer, não importa quantos dólares e efeitos especiais estejam à sua disposição.

nota: 8/10 — vale o ingresso

O Hospedeiro (Gwoemul, 2006, Coréia do Sul), dir.: Bong Joon-ho – em cartaz nos cinemas.

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