Baixio das Bestas

Aviso: o texto a seguir contém descrições de cenas importantes do filme.

Em certo momento de “Baixio das Bestas”, o personagem de Matheus Nachtergaele pergunta a seus amigos dentro da sala de projeção de uma sala de cinema desativada: “Sabe o que é o melhor do cinema?” Antes que alguém deste ou daquele lado da tela responda, ele traga o baseado que segura entre os dedos, olha para a câmera e dispara: “É que no cinema tu pode fazer o que tu quer.”



A frase parece um prenúncio do que o diretor Cláudio Assis está prestes a nos mostrar. Até ali, o cineasta pernambucano já havia oferecido ao público um banquete bastante indigesto de cenas, desde a exposição da nudez de uma menina de 13 anos a um grupo de caminhoneiros, até a uma orgia em um bordel que culmina com um homem pisoteando o rosto de uma prostituta após forçá-la a fazer sexo anal. Tudo isso, no entanto, não é páreo para o que vemos após a asserção de Nachtergaele – que, na verdade, deixa de ser o delinqüente Everardo naquele momento e incorpora o próprio Cláudio Assis (e mais tarde o diretor ainda faz nova ponta, desta vez fisicamente, à la Hitchcock, como já havíamos visto em “Amarelo Manga”).

Primeiro, temos uma curra violentíssima, em que a prostituta vivida por Dira Paes é estuprada com um porrete por Everardo e mais dois rapazes. Pouco depois, vem o estupro da adolescente Auxiliadora (a estreante Mariah Teixeira) pelo personagem de Caio Blat, Cícero, que estuda em Recife e vadia no vilarejo onde mora com a mãe. Assis não joga essas duas cenas repentinamente na cara da platéia. Ele vai preparando o terreno desde o início do filme, testando, a cada seqüência, a tolerância do espectador frente a toda aquela violência, especialmente no caso da menina.

Logo em uma das primeiras cenas, vemos Auxiliadora sendo desnudada por seu avô em frente a um bando de homens. Seu corpo está coberto pela sombra, assim, mesmo que a cena seja desconfortável, não vemos mais do que a silhuteta de seus seios ainda em desenvolvimento. Mais tarde, porém, Assis nos coloca diante de um seminu frontal da garota em plena luz do dia. Nesta cena, Auxiliadora está se banhando em um rio, o que dá margem para se argumentar que não há exploração alguma ali: é apenas o retrato de uma menina se limpando, como faz todos os dias. OK. Minutos depois, voltamos ao local onde a garota é exposta nua aos caminhoneiros, mas, desta vez, a câmera está bem próxima dela e um foco de luz ilumina claramente seus seios, que são tocados sem pudor pelos homens que ali estão. Incômodo? Muito. E fica ainda pior quando Auxiliadora é raptada por Cícero e estuprada sem piedade.

Nesta cena, Assis deixa a câmera fixa, e a única iluminação no local provém dos faróis da caminhonete do sujeito. O espectador que não quer testemunhar o que ocorre na tela tem que virar o rosto para o lado, pois Assis não lhe permite olhar para outro lugar. A menina, até então virgem, é agredida, despida e violentada, sendo, por fim, jogada ao chão de terra após o ato. Se você não se sentiu bem vendo Monica Bellucci numa situação parecida em “Irreverssível”, prepare-se para algo ainda mais terrível.

Tanto a cena do estupro quanto a da curra são repulsivas, e estou certo de que foram feitas para assim serem. “Baixio das Bestas” não é um filme que veio para agradar. Seu propósito é incomodar e deixar qualquer um perplexo diante da ruindade daquele povo. É praticamente um grito niilista, já que nem mesmo o único anjo naquele verdadeiro baixio das bestas (ao contrário de “Amarelo Manga”, aqui Assis interpreta o título literalmente na tela) é poupado de um destino trágico.

De qualquer forma, este é também um filme poético. Há uma idéia geral de que a poesia é romântica, bela… Mas poesia não precisa ser sempre assim. Assis é um poeta da imagem, sem sombra de dúvidas. Seu filme é feito de verso livre e representa a visão emocional e conceitual desse cineasta sobre a podridão da alma humana. Se a arte é uma expressão da subjetividade, aqui ela se encontra em seu estado pleno. A arte não precisa agradar para ser arte, tampouco precisa ser bela, ainda que a fotografia de Walter Carvalho trate de fazer isso, o que de certa forma representa uma incoerência estética.

É neste ponto quero levantar um questionamento em relação ao que Assis escolhe mostrar e o que escolhe não mostrar. O que ele quer ao testar a tolerância do espectador, indo cada vez mais além no que diz respeito à forma como a menina é explorada? Ao mostrá-la sendo alisada por homens mais velhos e posteriormente sendo estuprada, ele não estaria também se convertendo em um explorador, não da criança (já que a atriz é maior de idade), mas da imagem dela?

Foi o que me pareceu, já que há formas e formas de se provocar ou polemizar um assunto. Pode ser de uma forma explícita ou uma forma sugerida. Me admira quem ataca “Batismo de Sangue” pela falta de sutileza e ao mesmo tempo aplaude “Baixio das Bestas” pelo tapa na cara. Para mim, por serem tão fortes, as duas cenas supracitadas perderam o sentido dentro do filme, tornaram-se uma distração. Eu comecei a me perguntar: “Por que estou vendo isso?” Tive a impressão de estar assistindo a uma pessoa se embebedando: cena a cena, uma dose a mais é virada na garganta e os exageros ficam cada vez maiores. Torna-se mesmo um “filme convulsivo”, então. E não é à toa a chuva na última cena: mais do que o sentido tão óbvio da limpeza, ela me pareceu vir como um banho gelado para curar a cachaça.

Pode ter sido exatamente este o objetivo de Assis: chocar mais, mais e mais. Mas ele extrapola e acaba entrando em contradição em sua própria proposta. Afinal, na hora de mostrar Dira Paes sendo currada, ele opta por virar a câmera para uma tela em branco e filma apenas as sombras dos rapazes efetuando o ato. Por que ele escolhe não mostrar isso, mas escolhe mostrar o estupro de Auxiliadora? Dá a entender que ele considera a violação de uma criança algo menos chocante do que uma prostituta ser penetrada por um pedaço de pau.

A questão da beleza cinematográfica que o diretor alcança junto com Walter Carvalho volta aqui: é esteticamente contraditório querer fazer um filme brutal como este e ao mesmo tempo torná-lo belo. Ao filmar as sombras, Assis mostra que está perfeitamente ciente do que está fazendo. Pelos movimentos de câmera e enquadramentos utilizados ao longo da projeção, fica claro que as cenas foram todas planejadas. Vejam bem: o diretor baseou o filme em histórias reais. Ele está fazendo uma crítica e uma denúncia de coisas que acontecem de verdade no interior de Pernambuco, e não é nos anos 60, 70. É hoje. Ninguém tem que bater palmas para este filme porque ele foi bem filmado, coreografado, fotografado e o escambau. A forma não deveria se sobressair ao tema, não neste caso.

Pode ser que uma outra leitura amenize as opções do diretor, encontrando um propósito aceitável para elas. Por hora, Assis, embora um artista inegavelmente contundente, não conseguiu deixar totalmente claro, pelo menos para mim, o nexo daquilo que seu filme tem a dizer. Mas, como ele bem sabe, este é um risco que se corre quando se faz o que se quer no cinema.

nota: 6/10 — veja sem pressa

Baixio das Bestas (2007, Brasil), dir.: Cláudio Assis – em cartaz nos cinemas
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