Não Por Acaso

Existem duas coisas que o ser humano não consegue controlar: a emoção e a passagem do tempo.

A emoção você pode até tentar disfarçar, conter um riso ou uma lágrima para que os outros não vejam, mas, no seu íntimo, você sabe exatamente o peso daquilo que sente. É impossível se desviar do sentimento que surge de bate-pronto quando vemos uma pessoa que marcou muito a nossa vida, ou quando perdemos essa pessoa. Da mesma forma, um elogio ou uma crítica recebidos provocam uma reação imediata, mesmo que logo depois você perceba que aquelas palavras deveriam ou poderiam ser interpretadas de outra forma.



Controlar isso é tão inviável quanto tentar dominar os ponteiros do relógio. Você pode conseguir se organizar em torno do tempo, mas não pode impedi-lo de transcorrer. E se a emoção está junto, tudo fica ainda mais difícil. Quem nunca teve a sensação de que o tempo parece passar mais rápido quando se está feliz? Já nos momentos de ansiedade, acontece o contrário, e os minutos parecem durar o dobro.

As duas histórias contadas em “Não Por Acaso” se desenvolvem exatamente em torno dessas noções. Os personagens principais são dois homens obcecados por controle. De um lado temos Ênio (Leonardo Medeiros), um sujeito de meia-idade, engenheiro de trânsito, que trabalha administrando o caótico tráfego das ruas de São Paulo. De frente para um painel de monitores que mostra imagens de inúmeros pontos da cidade, ele se sente um deus no controle dos semáforos. Já Pedro (Rodrigo Santoro) é um jovem de 30 anos que assumiu a marcenaria do pai e dedica seu tempo à construção de mesas de sinuca e à prática de jogadas tão minuciosamente planejadas, que ele mais parece um estudioso de física.

Estes dois homens vivem ilhados, absortos em seus ofícios, tentando se manter alheios aos seus próprios sentimentos. Eles pensam que os têm sob controle, mas basta um trágico acidente afetar a vida de ambos para que eles percebam que é impossível domesticar a emoção. O tempo passa, e eles também se dão conta de que não podem ficar parados num dia marcado no calendário.

O filme foi escrito por Eugenio Puppo, Fabiana Werneck Barcinski e Philippe Barcinski, que também assina a direção. Barcinski estréia no comando de um longa-metragem após uma bem sucedida carreira como curta-metragista (são dele os premiados “Palíndromo” e “A Janela Aberta”). Talvez isso explique o porquê de as histórias de Ênio e Pedro correrem em vias tão distintas, quase como se fossem independentes, principalmente aquela protagonizada por Santoro que parece mais adequada a um curta do que a um longa.

A forma como o roteiro é estruturado, contando as duas histórias paralelamente, mas sem estarem intrínsecamente ligadas, é o seu principal problema, pois o longa parece não ter unidade. Sim, as narrativas colidem em um ponto crucial, mas é justamente aí que a conexão soa forçada. É perfeitamente possível enxergar a história de Ênio como um filme-solo, e, particularmente, eu preferia passar mais tempo acompanhando o personagem de Medeiros (um excelente ator) ser desenvolvido a vê-lo dividindo a tela com o de Santoro (bem melhor nesse tipo de papel do que em suas aventuras internacionais), já que este deixa de ser interessante como no início após o acidente que transtorna sua vida.

Vale dizer que Ênio e Pedro não se encontram em um momento sequer ao longo da projeção, apesar de suas vidas estarem ligadas por um mesmo acontecimento. Acho que entendo o que Barcinski e seus colegas quiseram fazer: tal como a cidade, cujas ruas podem se cruzar em algum momento, mas cada uma leva a um lugar diferente, o filme quer nos dizer que as nossas vidas também são assim: em algum momento elas podem se cruzar, mas cada um de nós tomará um rumo diferente. Só não considero a idéia tão bem realizada porque a história de Santoro não é tão forte como a de Medeiros (cujo desfecho achei particularmente tocante). Não acontece aqui o mesmo que em filmes como “Magnólia”, “Short Cuts” ou “A Última Noite”, onde os enredos se entremeiam, mas há um equilíbrio maior na força daquilo que cada um representa.

Mesmo que as histórias não se interponham além do acidente, há elementos que ecoam entre uma e outra, o que revela uma sutileza notável por parte dos roteiristas. Por exemplo, em uma cena narrada em voice-over, Ênio faz uma analogia da malha rodoviária da cidade com um sistema de encanamentos de um prédio; mais tarde, no apartamento de Lúcia (Letícia Sabatella), com quem Pedro inicia um romance, ocorre um problema justamente no encanamento do quarto. Em outra cena, Ênio toma café com sua filha Bia (Rita Batata) na primeira vez em que a encontra em seu apartamento; um pouco depois, vemos Pedro e Lúcia também tomando café em um encontro. Mais uma: Bia pede a Ênio duas horas de seu tempo; o mesmo faz Pedro com Lúcia.

Se há outro mérito no roteiro de “Não Por Acaso” é que ele é um filme enxuto, que não perde tempo voltando em pontos já abordados. A apresentação do personagem de Medeiros dá conta de que ele é fascinado por controlar o trânsito, e isso basta. A seqüência é executada com tamanha eficiência por Barcinski (e repare na sutileza da atuação de Medeiros, que dá um discreto sorriso com o canto da boca ao notar que controlou uma situação no trânsito) que não é preciso ficar martelando na cabeça do espectador a todo o momento: “Olha, ele é obcecado por controlar o fluxo dos carros!” O mesmo vale para Santoro em suas primeiras cenas, quando ele narra os movimentos de suas jogadas na mesa de sinuca. Outro exemplo da economia no texto está nos diálogos predominantemente curtos. Tome a cena em que Bia e Ênio estão no topo de um prédio e a garota diz: “Achei que eu ia te ver no enterro da mamãe.” Ele responde: “É que eu não sou bom de enterros.” E ela devolve: “E quem é?” Pronto. Essas três frases estabelecem a conexão entre pai e filha, além de representarem o desabafo da menina.

Já que falei em Bia, sua intérprete, a cativante Rita Batata, é um dos destaques do filme junto com a bela e sedutora Branca Messina, que vive Teresa, namorada de Pedro (pena ela não ter mais tempo de tela): duas novatas que brilham no elenco de apoio, formado em sua maioria por mulheres, entre elas as veteranas Graziela Moretto (figurinha certa nas produções da O2 Filmes) e Cássia Kiss (que em uma breve cena contracena pela segunda vez com Santoro, com quem já havia trabalhado em “Bicho de Sete Cabeças”).

Aliás, gosto do fato de Barcinski se arriscar a colocar Santoro e Letícia Sabatella na tela somente depois de cerca de 30 minutos de filme, mostrando que ele não se importa com o status de estrela dos atores (algo que ficou por conta apenas do marketing da Fox, que na divulgação colocou Santoro como protagonista – ou alguém viu Medeiros mostrar a cara por aí para promover o filme da mesma forma?).

“Não Por Acaso” é muito bem realizado tecnicamente e conta ainda com uma ótima trilha sonora, tanto na parte instrumental, composta por Ed Cortês (“Cidade de Deus”, “Abril Despedaçado”), quanto nas faixas cantadas, que ajudam a construir o clima e entram em momentos precisos na narrativa.

Plasticamente, pode parecer um filme frio, já que usa muito as cores verde, azul e cinza, além do fato de seus personagens principais serem tão meticulosos que se tornam quase que seres mecânicos. Mas não se deixe enganar pelas aparências, pois as histórias têm um calor humano muito peculiar. E são histórias universais, que dão um passo adiante em direção a um cinema brasileiro de indústria feito de forma séria, sem papagaiadas televisivas ou aquela velha obrigatoriedade de se ter um engajamento social na trama.

nota: 8/10 — vale o ingresso

Não Por Acaso (2007, Brasil), dir.: Philippe Barcinski – em cartaz nos cinemas
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