Ligeiramente Grávidos

Judd Apatow está no caminho de se tornar um John Hughes para adultos. Assim como “O Virgem de 40 Anos”, seu filme de estréia na direção, “Ligeiramente Grávidos” é uma comédia sobre sexo e as (in)conseqüências dele, recheada de diálogos sujos e piadas infames em uma história simples, contada de uma maneira muito engraçada. Esses são ingredientes suficientes para fazer um hit de bilheteria, como de fato este e “O Virgem…” foram. O que diferencia os filmes de Apatow daqueles protagonizados e produzidos por Adam Sandler, outro rei do box office, está no bom gosto do primeiro.

Ao contrário de Sandler, Apatow sabe qual é o limite exato entre o politicamente incorreto e a escárnio. Superficialmente, Ben Stone (o personagem de Seth Rogen em “Ligeiramente Grávidos”) e seus amigos parecem ter saído de uma comédia de Sandler: não passam de garotões sem muita ambição na vida, que se divertem puxando o dedo um do outro. Mas aqui eles não se tornam caras grosseiros que ofendem a platéia sempre que abrem a boca. Eles são engraçados porque é Apatow quem está zombando deles.



Outro ponto crucial em que o multifuncional cineasta se sai melhor é na maneira como ele faz seus protagonistas passarem por uma mudança de comportamento sem soar moralista. Se você vir o Ben da seqüência de abertura e, logo depois, o dos créditos finais, a diferença será notória. Mas, graças ao cuidado de Apatow no desenvolvimento do personagem e ao imenso carisma de Rogen, nota-se durante o filme que ele continua sendo um sujeito divertido e fanfarrão o tempo todo. O que o transforma é o fato de ele ganhar algo notável e raro em comédias desse tipo: respeito próprio. Muito diferente do que acontece com Sandler no recente “Eu os Declaro Marido… Larry!”, por exemplo, Ben deixa de ser uma caricatura e se torna um personagem palpável – e este talvez seja o maior mérito do cinema de Apatow.

O filme não escapa de ter seus pontos baixos, e estes começam pouco após a metade do segundo ato, depois que Ben e Alison Scott (Katherine Heigl) já se conheceram, ela descobriu que engravidou após uma noite eufórica, eles tentam se aproximar para “fazer isso dar certo” e as brigas começam. O problema não está na história deles, mas na subtrama que envolve uma crise no casamento da irmã de Alison (Leslie Mann) com o personagem de Paul Rudd, Pete, que se revela tão fútil e egoísta quanto Ben. O roteiro perde muito tempo com esse segundo casal, o que alonga a duração do filme para além do ideal. É visível que Apatow não consegue lidar com as duas histórias ao mesmo tempo, pois acaba por enfraquecer ambas ao tirar o foco de Alison e Ben. Aliás, nesse momento o filme parece se contentar em ser uma série de esquetes, já que a montagem não cria uma ligação plenamente lógica entre as piadas.

No elenco, além de Rogen, um comediante nato, Heigl se sai muito bem no único papel que não nos oferece motivos óbvios para rir (exceto pelo fato de ela só transar de sutiã, algo realmente muito esquisito – mas isto é Hollywood). Entre os coadjuvantes, Jonah Hill e Jay Baruchel são os amigos mais divertidos de Ben, enquanto Rudd novamente mostra seu bom timing cômico. Ainda temos as duas garotinhas, cuja ingenuidade é cativante e bem aproveitada pelo roteiro e pelo papai Apatow, no mais novo exemplo de nepotismo cinematográfico (Leslie Mann é sua esposa).

Ainda que tenha problemas, “Ligeiramente Grávidos” flui em um ritmo contínuo e sua conclusão surge de maneira natural (numa típica comédia enlatada, Ben leria os livros de bebês em uma rápida montagem no ato final). Não é o filme mais engraçado do ano, mas, certamente, é um filme muito engraçado. E isso já basta.

nota: 7/10 — vale o ingresso

Ligeiramente Grávidos (Knocked Up, 2007, EUA), dir.: Judd Apatow – em cartaz nos cinemas
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