Querô e Cidade dos Homens

“Querô”, o primeiro e premiado longa-metragem de Carlos Cortez, é um bom filme: a direção é segura e bem executada, os atores, em especial o protagonista, estão ótimos, o roteiro adaptado do livro de Plínio Marcos tem uma boa estrutura e evita constrangimentos nos diálogos, a fotografia e a montagem são muito bem feitas etc. Mas falta alguma coisa que o torne diferente de outros filmes que abordam o mesmo tema.

Em sua denúncia, a história do garoto abandonado pela mãe e que luta nas ruas de Santos para sobreviver por conta própria funciona perfeitamente, em especial na primeira metade, quando Querô se inicia como assaltante e passa pelo “inferno que é a Febem”, como um dos rapazes diz. É dentro da instituição que o longa possui seus melhores momentos, mostrando os maus-tratos sofridos pelos menores e a mentira que eles são forçados a contar para quem está do lado de fora, como se lá dentro corresse tudo bem. Esse bloco, aliás, é quase uma refilmagem de “Pixote – A Lei do Mais Fraco”, o memorável filme de Hector Babenco, feito em 1981. Triste ver que pouco mudou de lá para cá.



Cortez (que também assina o roteiro, em colaboração com Bráulio Mantovani e Luiz Bolognesi) adota a câmera na mão na maior parte do tempo, o que sempre dá um tom de urgência às cenas que a utilizam. Embora os flashbacks caiam no lugar-comum da imagem tremida e estilizada, há um momento em que Cortez mostra notável sutileza na direção: quando Querô é currado pelos colegas de quarto, não há nada explicito; um simples apagar e acender de luz resolve a cena.

Mas, sem dúvidas, o grande destaque está no elenco, com o estreante Maxwell Nascimento no papel principal. O jovem ator nos faz acreditar em todos os momentos que ele é um menino de rua e que está amargurado até a alma por tudo aquilo que sofreu e a que foi submetido em tão pouco tempo de vida. Assim como os rebentos do Nós do Cinema, Maxwell tem uma carreira promissora pela frente, e sua preparação, feita por Luiz Mario Vicente, também merece palmas.

Talvez o que falte a “Querô” para se tornar um filme distinto não esteja nele próprio, mas no espectador, acostumado a ver na mídia a barbárie em que nossa população de classe baixa vive. Esse estado de guerra civil em que as principais metrópoles do país se encontram parece causar cada vez menos espanto no público que vê o conflito de cadeira cativa em frente à TV, nos noticiários, ou numa sala de cinema, em produções como esta.

Essa banalização da imagem da violência é um problema grave, que ainda precisa ser tratado no cinema nacional para não nos deixar menos alertas do que cinco anos atrás, quando “Cidade de Deus” iniciou essa enxurrada de filmes de favela e o debate sobre a cosmética da violência – o que nos traz imediatamente a “Cidade dos Homens”, o filho mais autêntico do longa de Fernando Meirelles.

Quem acompanhou a série na TV conhece a estética que verá no cinema em “Cidade dos Homens”. A fotografia de Adriano Goldman é bastante saturada, como se quisesse nos situar o tempo todo no calor da trama e do Rio de Janeiro (planos que mostram o sol queimando, o chão quente, a gordura fervendo também ajudam). A agilidade e a precisão na montagem de Daniel Rezende a assemelham muito à de “Cidade de Deus” (também montado por ele). E a direção de Paulo Morelli nem de longe faz o filme parecer um produto televisivo. Aliás, este é um caráter que a série já possuía, portanto, concluí-la na telona não se torna apenas mais uma jogada de marketing da Globo Filmes. Soa mais como um desfecho natural.

“Desfecho”, na verdade, não é uma palavra que corresponde ao que acontece aqui. No geral, a história dá, sim, uma sensação de fechamento para essa fase da vida de Acerola e Laranjinha. Os garotos (vividos pelos sempre carismáticos, espontâneos e talentosos Douglas Silva e Darlan Cunha) aprenderam muito desde que apareceram pela primeira vez no curta “Palace II” – e, no novo filme, é feito um uso proveitoso e inteligente, em flashbacks, de cenas de suas aventuras passadas. Como a história dos meninos sempre manteve os dois pés na realidade, tratando com sensibilidade seus dramas do dia-a-dia, é mais do que natural que o fim do longa não seja propriamente um fim – caso contrário, Morelli e a co-roteirista Elena Soarez teriam sido ingênuos e incoerentes com tudo aquilo que vinham criando.

O que “Querô” e “Cidade dos Homens” têm em comum? A direção é bem executada – OK. Os atores principais vieram da favela e passaram por uma fantástica preparação de elenco – OK. Ambos fazem denúncia social – OK. Ambos mostram a vida dura dos meninos nas ruas – OK. É nessa temática que encontramos mais congruências com outros títulos nacionais lançados desde “Cidade de Deus”: em “Quase Dois Irmãos”, “Proibido Proibir”, “Uma Onda no Ar”, “Antônia”, “De Passagem”, todos filmes que se passam (ou têm uma parte que se passa) em regiões urbanas pobres, a forma como a miséria e a violência são mostradas é muito semelhante (exceto pela identidade visual, já que parecem existir os pobres da O2 Filmes e os outros).

O grande problema desses filmes não é nem o estereótipo em que alguns caem ou a tal da cosmética que várias pessoas condenam. Temos aí uma média de dois filmes de favela por ano e a impressão que se tem é que a “novidade” acabou. Está se tornando um hábito para o público ver adolescentes andando com fuzis e metralhadoras nos morros do Rio e ver gente sendo morta a esmo (e, no caso de “Cidade dos Homens”, quase como num filme de ação, o que é ainda mais problemático). Estamos sempre vendo que a classe baixa sofre, e sofre muito. Somos sempre lembrados de que somos, na verdade, privilegiados, pelo simples fato de estarmos aqui discutindo cinema. Somos sempre deixados com um sentimento de tristeza no rolar dos créditos desses filmes, para quando sairmos na rua sentirmos o peso da responsabilidade social sobre nossos ombros.

É o “sempre” que precisa mudar. Está na hora de alguém fazer um filme que não seja a denúncia pela denúncia, mas que denuncie a denúncia, que problematize a linguagem que nosso cinema tem utilizado para retratar a brutalidade da pobreza. Precisamos urgentemente de outro filme como “Ônibus 174”, que, dentre todos sobre esse tema, é o único que ainda hoje não perdeu seu impacto, justamente, por ser diferente tanto na abordagem quanto na forma.

Não estou dizendo que “Cidade dos Homens” e “Querô” são filmes descartáveis. São importantes e devem ser vistos. O que incomoda é essa noção de que eles são apenas “os filmes de favela do ano”, e não obras distintas do nosso cinema e relevantes para nossa sociedade.

Querô (Brasil, 2007), dir.: Carlos Cortez – nota: 7/10 — vale o ingresso

Cidade dos Homens (Brasil, 2007), dir.: Paulo Morelli – nota: 7/10 — vale o ingresso
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