Fido – O Mascote

Zumbis. Quem não gosta deles? Provavelmente, todos aqueles que não são fãs de George Romero. Mas quem assistir a “Fido – O Mascote” poderá ter uma nova percepção sobre essas adoráveis criaturas decrépitas.

Dirigido por Andrew Currie, cineasta canadense que está em seu terceiro longa (embora nenhum de seus trabalhos anteriores tenha chegado ao Brasil), “Fido” funciona como uma comédia de humor negro que diverte em seus aspectos mais doentios. Tome como exemplo a escola onde o protagonista, um garoto de 12 anos chamado Timmy (K’Sun Ray), estuda: as crianças têm aulas de tiro para se auto-protegerem dos mortos-vivos e, enquanto praticam, cantarolam: “No cérebro, e não no peito. Um tiro na cabeça é mais certeiro.”



Logo no início, somos introduzidos à razão de as crianças precisarem dessas aulas, o que já quebra a primeira regra dos filmes de zumbis: justificar o surgimento deles. Uma poeira cósmica radioativa atingiu a Terra nos anos 60 (não por coincidência, a década em que surgiu o seminal “A Noite dos Mortos-Vivos”) e fez com que todas as pessoas mortas se transformassem nos infames devoradores de carne humana. É o que leva o pequeno Timmy a perguntar em uma aula: “As pessoas que foram enterradas fundo demais antes disso não poderiam estar no cemitério agora, tentando sair?”

A preocupação de Timmy com aqueles que seriam os vilões do filme revela a natureza do personagem, que nas cenas seguintes vê sua mãe (Carrie-Anne Moss) colocar um zumbi dentro de casa, simplesmente porque sua família era a única da rua que ainda não possuía um. Afinal, graças à empresa Zomcon (“Zombie Control”), criadora de um colar que domestica os mortos-vivos, inibindo seu desejo canibalesco, todo mundo agora pode ter seu zumbi de estimação para cuidar dos afazeres domésticos e outros tipos de serviço (que o diga o vizinho necrófilo de Timmy).

É daí que surge Fido, vivido por Billy Connolly no que talvez seja a melhor interpretação de zumbi da história do cinema. Inicialmente rejeitado, tal como Timmy na escola, Fido logo se afeiçoa pelo garoto e sua mãe, que tentam convencer o pai (Dylan Baker) a deixá-los ficar com ele. Pedido que se torna cada vez mais difícil de ser atendido, ainda mais quando, um dia, o colar de Fido sofre uma pane (por que não sofreria?) e ele acaba atacando uma senhora que vive na vizinhança. O caos logo se espalha.

Currie, que assina o roteiro junto com o também novato Robert Chomiak, comete alguns pecadilhos (o comentário sobre a manipulação da imprensa soa gratuito e uma montagem um pouco mais caprichada poderia melhorar o efeito cômico de algumas cenas). Contudo, o cineasta triunfa não apenas com seu senso de humor politicamente incorreto (vemos crianças matando, e sendo executadas!), mas também por saber criar toda uma mitologia por trás da história. A Zomcon, por exemplo, oferece diversos serviços além do colar inibidor, como o funeral com caixão para a cabeça (decepada para evitar a reanimação do morto) e, meu preferido, o monitor cardíaco para idosos, apresentado na forma de um genial comercial de TV.

Boa surpresa dentre os lançamentos deste ano (é uma sorte não ter ido direto para DVD no Brasil), “Fido – O Mascote”, a exemplo de “Todo Mundo Quase Morto”, homenageia o horror ao mesmo tempo em que cativa a platéia pelo riso. O impensável foi feito: um filme de zumbis para toda a família.

nota: 7/10 — vale o ingresso

Fido – O Mascote (Fido, 2007, Canadá), dir.: Andrew Currie – em cartaz nos cinemas
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