A Loja Mágica de Brinquedos

Há uma boa intenção por trás de “A Loja Mágica de Brinquedos”, mas ela é atropelada pela própria inocência do roteirista Zach Helm que, em sua estréia na direção, parece ter se preocupado apenas em brincar num set de filmagem. Sim, é uma desculpa válida dizer que ele segue o espírito da história que conta, mas você também precisa (tentar) ser uma criança para aceitá-la sem reservas.

Apesar de pequenas falhas na condução da narrativa, especialmente no ato final, que é resolvido às pressas, Helm ainda merece aplausos por novamente enaltecer sentimentos que nós, espectadores adultos, parecemos ter guardado em uma caixa no fundo do guarda-roupa para não atrapalhar a correria do dia-a-dia. Se o foco de Helm em “Mais Estranho que a Ficção” foi a rotina de trabalho como responsável pelo estado blasé do cidadão da metrópole, aqui o seu fio condutor são os moldes que a sociedade exige que usemos para nos adequarmos ao papel de adulto.



Helm utiliza a fantasia para criticar os padrões de vida do cínico homem urbano. Através da figura do Sr. Magorium (numa ótima atuação do ótimo Dustin Hoffman), ele nos chama a atenção para a perda da surpresa que vem da inocência, da capacidade de nos admirarmos com o mundo. Mas o que o filme quer é, de certa forma, uma utopia, já que, por mais que seja louvável se permitir a “voltar a ser criança”, sabemos que a reação imediata ao vermos alguém dançando em cima de um plástico de bolinhas numa praça seria achar aquilo tudo ridículo.

Aí entra a personagem de Natalie Portman, que representa essa condição de dizer “Eu acredito!” e não bater palmas para salvar a fada Sininho. É onde muitos de nós vivemos hoje: nesse intervalo entre uma coisa e outra, sem nos entregarmos totalmente a uma crença (e no que diz respeito ao cinema, é o que impede muita gente de gostar de filmes como “Stardust – O Mistério da Estrela”, ou, num exemplo ainda melhor, o injustiçado “A Dama na Água”).

Não é que a vida tenha que ser um “faz de conta” – uma noção em que Helm estrapola, ainda mais por estar narrando um conto de fadas –, mas a mensagem de “A Loja Mágica de Brinquedos” é clara. Se você sentir vontade de brincar, sozinho que seja, mesmo sem ninguém olhar, faça esse favor a si mesmo. Há certos momentos em que não levar a vida a sério cura qualquer dor de cabeça.

nota: 6/10 — vale o ingresso

A Loja Mágica de Brinquedos (Mr. Magorium’s Wonder Emporium, 2007, Estados Unidos)
direção: Zach Helm; com: Dustin Hoffman, Natalie Portman, Zach Mills, Jason Bateman, Ted Ludzik; roteiro: Zach Helm; produção: James Garavente, Richard N. Gladstein; fotografia: Roman Osin; montagem: Sabrina Plisco, Steven Weisberg; música: Alexandre Desplat, Aaron Zigman; estúdio: Mandate Pictures, Walden Media; distribuição: Imagem Filmes. 93 min
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