The Rolling Stones: Shine a Light

Quem viu “No Direction Home: Bob Dylan” e soube que Martin Scorsese estava planejando um documentário sobre os Rolling Stones deve ter imaginado que maravilha de filme não sairia dessa combinação: um estudo aprofundado sobre as vidas e carreiras de Mick Jagger, Keith Richards, Charlie Watts e Ronnie Wood, feito por um diretor que já usou muitas das músicas do grupo em muitos de seus filmes. Mas não espere por isso realmente quando estiver diante de “Shine a Light” – um filme-concerto, muito mais próximo do que Scorsese fez em “The Last Waltz – O Último Concerto de Rock” (rockumentary seminal na forma como se projeta um show para ser filmado) do que de seus outros documentários, como “No Direction Home” ou sua série sobre o blues.

“Shine a Light” é sobre a música, como o próprio cineasta já havia antecipado em entrevistas. “Eles têm sido filmados há 40 anos. O que mais o público quer saber sobre os Stones, exceto a música e a performance? Isso é algo que eu achei inspirador”, Scorsese observou. E de fato é o que ele procurou. Na tela, temos um show completo (filmado no Beacon Theater em Nova York, como parte da turnê A Bigger Band, em 2006) e a linearidade é a da set-list – que, aliás, se converte também em um artifício narrativo logo no início, quando Scorsese cria um conflito bem-humorado antes da música começar.



Das ligações para os agentes, passando pela visita de Bill Clinton aos bastidores, chegando aos instantes que precedem o início do show, o cineasta tenta obter a lista de canções com antecedência para planejar as filmagens, mas sem sucesso. Ele tem ao menos quatro possíveis listas e Mick Jagger ainda piora a situação: filmando a si mesmo, ele ri: “Vou dar a lista ao Marty uma hora antes!” E durante toda essa introdução – quando ainda vemos Keith Richards propor ao diretor colocar uma câmera no buraco frontal da bateria – temos esse clima de semi-suspense, que, não tenha dúvidas, faz parte da brilhante mise-en-scène de Scorsese. Mesmo que cheguemos a pensar que o diretor pode não conseguir filmar aquele show como deseja, tudo fica claro quando os inconfundíveis acordes de “Jumpin’ Jack Flash” tomam conta das caixas de som e estamos lá, num show dos Rolling Stones.

Scorsese faz dos Stones gigantes. As câmeras acompanham os músicos por todos os cantos do palco e ainda fecham em primeiros-planos e planos de detalhe de tal forma que você sente não apenas como se estivesse no teatro e na platéia, mas em cima do palco. Se o filme é sobre a performance, é difícil imaginar algo mais próximo disso. A aplicação de Ronnie Wood, a serenidade com que Charlie Watts dá energia a cada batida, a leveza quase irônica com que Keith Richards trata sua guitarra e a liberdade com que Mick Jagger se movimenta no palco, praticamente um demônio solto que a câmera tenta capturar.

Essa vivacidade dos Stones acaba se tornando um dos “subplots”, digamos, que surgem nos breves intervalos entre duas ou três músicas, quando Scorsese insere trechos de entrevistas antigas feitas por diversas emissoras de TV com os membros do grupo. E a melhor resposta para pergunta que não cala os repórteres, “Até quando vocês se vêem tocando dessa forma?”, é a própria existência do filme.

Essas cenas de entrevistas também sintetizam o que Scorsese havia dito: por que se incomodar, ou incomodar os Stones, com perguntas? Eles não querem falar, querem tocar. Então, que toquem, e toquem muito alto e muito bem. E quer companhia melhor para ver um show dos Stones do que Scorsese? É como estar ao lado de um fã da banda – e Scorsese é, aliás, um fã do rock – que nos mostra para onde olhar, no que prestar atenção. Nisso, a set-list novamente tem um papel importante, pois não contém apenas hits. Eles estão lá, claro: “Simpathy for the devil”, “Brown Sugar”, “(I Can’t Get No) Satisfaction”, “Start Me Up”, “Shattered”. Mas a maior parte é composta por músicas não tão conhecidas do grande público, o que acaba sendo uma escolha inteligente, já que faz com que a atenção do espectador se volte justamente para o propósito do filme: a performance.

“Shine a Light” pode não revelar muito sobre os Stones, sua história e seus mitos, nem ser inventivo e relevante como “Gimme Shelter” – o célebre documentário dos irmãos Maysles, que usaram o cinema direto para criar um retrato espontâneo sobre um episódio infeliz na carreira da banda (Albert Maysles, aliás, é o operador nas cenas de câmera na mão de “Shine a Light”, um luxo que só mesmo Scorsese e os Stones podem obter). Ainda assim, é um filme que não perde ritmo (há como?) e envolve o espectador. A sensação muitas vezes é a de estar em um show, não em uma sala de cinema.

nota: 8/10 — veja no cinema e compre o DVD

The Rolling Stones: Shine a Light (Shine a Light, 2008, EUA)
direção: Martin Scorsese; com: Mick Jagger, Keith Richards, Charlie Watts, Ron Wood, Jack White, Buddy Guy, Christina Aguilera, Bill Clinton; produção: Steve Bing, Michael Cohl, Victoria Pearman, Zane Weiner; fotografia: Robert Richardson; montagem: David Tedeschi; estúdio: Concert Promotions International, Shangri-La Entertainment; distribuição: Imagem Filmes. 122 min
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