As Crônicas de Spiderwick

Existem ocasiões em que manter a simplicidade vale mais do que usar a criatividade para inventar algo complexo. Desta onda recente de filmes infantis que contam histórias dentro de uma atmosfera fantasiosa, temos alguns exemplos que acabam se tornando complicados, ao invés de complexos, na tentativa de empurrar para o público uma mitologia qualquer, cheia de criaturas, raças, elementos mágicos e regras. Em duas palavras: são chatos.

Mas se por um lado temos “As Crônicas de Nárnia”, “Eragon” e “Os Seis Signos da Luz”, por outro temos filmes que mantém o foco na narrativa e não distraem o espectador com um detalhismo desnecessário. No ano passado, tivemos o ótimo “Ponte Para Terabítia”, que na verdade tem apenas um pé no gênero. Já “As Crônicas de Spiderwick” é 100% o que se chama de aventura infantil, e se aproxima de filmes que nós, adultos, adorávamos (e ainda adoramos alguns deles), como “Labirinto – A Magia do Tempo”, “Os Goonies”, “Willow – Na Terra da Magia”, “História Sem Fim”.



Não há muita cerimônia para entrar na história baseada na série de livros homônima: três irmãos se mudam com a mãe para a casa do avô. Dois deles são gêmeos (ambos vividos por Freddie Highmore): um é mais “certinho”, o outro mais rebelde (clichê? Sim, sem dúvidas). O segundo é o protagonista e aquele que encontra um livro secreto do avô, que passou a vida pesquisando seres de uma dimensão paralela que só se mostram para os humanos quando querem. Essas criaturas precisam do livro para se libertarem e o garoto precisa proteger sua descoberta para, assim, manter sua família segura.

Como o menino enxerga os bichos? Através de uma pedra com um orifício no meio. E como ele destrói seus inimigos? Jogando molho de tomate neles. Da mesma forma, um goblin guardião do livro precisa beber mel para se acalmar e, de um mini-ogro, voltar a ser um pigmeu rosado de feições bondosas. Não tem mistério, é tudo simples – assim como você não se pergunta por que alimentar Gremlins depois da meia-noite é perigoso, nem por que não pode deixá-los se molharem. Você apenas diz supercallifragilisticexpialidocious e a magia está feita.

O filme tem problemas, é claro. A trama, no fundo, não preza pela originalidade, apesar de se resolver bem no conflito filho vs. pai ausente – um tema genuinamente spielbergiano, e não por acaso, já que colaboradores do cineasta, como os produtores Frank Marshall e Kathleen Kennedy e o montador Michael Kahn estão na equipe. Por outro lado, diferente de Spielberg, a direção de Mark Waters, apesar de se segurar, não possui muita personalidade. Por isso, provavelmente “As Crônicas de Spiderwick” não será lembrado daqui a 20 anos, mas, pelo tempo que dura, é garantia de ao menos uma diversão inocente, bem mais sincera do que outros títulos do gênero que tentam ser mais espertos que seu público.

nota: 6/10 — vale o ingresso

As Crônicas de Spiderwick (The Spiderwick Chronicles, 2008, EUA)
direção: Mark Waters; com: Freddie Highmore, Sarah Bolger, Nick Nolte, Mary-Louise Parker, Joan Plowright, David Strathairn, Seth Rogen (voz), Martin Short (voz); roteiro: Karey Kirkpatrick, David Berenbaum, John Sayles (baseado no livro de Tony DiTerlizzi e Holly Black); produção: Larry J. Franco, Ellen Goldsmith-Vein, Albie Hecht, Karey Kirkpatrick, Julia Pistor, Ellen Goldmith Vein; fotografia: Caleb Deschanel; montagem: Michael Kahn; música: James Horner; estúdio: The Kennedy/Marshall Company, Nickelodeon Movies; distribuição: Paramount Pictures. 97 min
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