Agente 86

por RENATO SILVEIRA

Esta nova versão de “Agente 86” tem alguns pontos em comum com outra comédia recente que satiriza filmes de espionagem. Acertou quem pensou em “Austin Powers”. Isso porque o longa não é propriamente um remake da série, mas funciona mais como uma continuação: tal como na franquia protagonizada por Mike Myers, aqui a agência C.O.N.T.R.O.L.E. parece ter ficado congelada desde a Guerra Fria. Só que ela não ficou inativa, funcionando secretamente por trás de um museu erguido justamente em sua homenagem (e o traje, o carro e até mesmo o famoso sapato-telefone usado por Don Adams no seriado dos anos 60 podem ser vistos no hall de entrada do local).



Outra relação com “Austin Powers” está em certas piadas que dão sensação de déjà vu: pense no sujeito que fica preso no banheiro e passa por uma situação inusitada, enquanto do lado de fora outras pessoas interpretam seus gritos de outra forma. Ainda que o filme não desça ao nível de uma comédia dos irmãos Wayans, este não é o único exemplo de humor escatológico no novo “Agente 86” – o que não é de se estranhar, na verdade, levando em conta que o diretor Peter Segal já trabalhou com Eddie Murphy e Adam Sandler.

Escrevo sem conhecer a série original, mas por mais que o filme preste homenagens e faça referências (como a abertura com as múltiplas portas ou a participação especial de Bernie Kopell, primeiro intérprete do vilão Siegfried, agora vivido por Terence Stamp), o humor utilizado é muito mais contemporâneo e próximo do que se conhece por “comédia de ação”. Até mesmo “Austin Powers” se concentrava mais nas gags, mesmo nas cenas mais agitadas, que aqui são grandiosas e elaboradas e geralmente envolvem os personagens em lutas em alta velocidade. E ainda que essas seqüências sejam sempre pontuadas por piadas, elas nunca terminam provocando risadas. Além disso, são filmadas de forma bastante irregular por Segal, que deixa claro sua inexperiência no gênero.

O humor que realmente vale a pena neste “Agente 86” é aquele mais ingênuo e bobo, que surge na maior parte das vezes da interação de Steve Carell com seus colegas de elenco ou mesmo com o cenário. O ator mostra que consegue ser versátil e incorpora um personagem diferente daqueles que viveu em “Todo Poderoso”, “O Virgem de 40 Anos”, “Pequena Miss Sunshine” ou na série “The Office”. Adotando um semblante de preocupação constante, como se a profissão de Maxwell Smart fosse aquilo que de mais importante ele possui, Carell acerta principalmente nas cenas em que percebe que está numa situação ridícula, mas mesmo assim tenta manter a sobriedade para ser levado a sério. Neste ponto, Segal faz bem ao valorizar as expressões faciais do comediante em closes, como na cena de dança ou no duelo particular com um canivete suíço.

Ao mesmo tempo, os personagens coadjuvantes também são engraçados. Embora os vilões da K.A.O.S. não passem de estereótipos e sejam subaproveitados – a não ser por Ken Davitian, que se sai bem em suas poucas cenas, Stamp parece não saber que está em uma comédia e o grandalhão Dalip Singh não demonstra ter talento compatível com seus músculos -, os demais membros da C.O.N.T.R.O.L.E. quase sempre são divertidos. A dupla formada por Masi Oka e Nate Torrance é engraçadinha, mas acaba sendo eclipsada por David Koechner e Terry Crews, intérpretes dos agentes que se acham mais capazes do que realmente são (o que é surpreendente, já que a Warner chegou a produzir um spin-off em DVD com os dois jovens aprendizes de Q). Alan Arkin, como o chefe que não tolera ser inferiorizado pela CIA ou pelo FBI, dá a voz da experiência e sabe o tom exato para a ironia de suas falas. Anne Hathaway veste bem o papel da parceira de Carell e só chama a atenção para si mesma por sua beleza, já que a função de sua personagem é basicamente dar ganchos para as piadas de Smart. Já Dwayne “The Rock” Johnson, apesar de se mostrar à vontade, é traído pelo próprio roteiro.

O que nos traz à dupla Tom J. Astle e Matt Ember. Eles se saem bem no principal, que é a criação das cenas de humor e dos diálogos (e vale lembrar que Mel Brooks e Buck Henry, criadores da série, prestaram consultoria). Mas a história mesmo não passa do velho enredo “vilão implanta bomba, herói tem que desarmá-la, mas um agente duplo atrapalha tudo”. E embora os roteiristas sejam bem-sucedidos de uma forma geral no deboche do governo americano, criando um presidente obviamente inspirado em George W. Bush (quem não perde a oportunidade de chacoteá-lo, não é mesmo?), interpretado por um divertido James Caan, os roteiristas deixam passar uma grande oportunidade de colocar Maxwell Smart em uma missão mais atual. É como se a K.A.O.S. também tivesse continuado na ativa e a Guerra Fria nunca tivesse acabado. Por isso a relação com “Austin Powers” é forte, já que os personagens parecem viver fora de seu tempo.

nota: 6/10 — vale o ingresso

Agente 86 (Get Smart, 2008, EUA)
direção: Peter Segal; com: Steve Carell, Anne Hathaway, Dwayne Johnson, Alan Arkin, Terence Stamp, Terry Crews, David Koechner, James Caan, Masi Oka, Nate Torrence, Ken Davitian, Dalip Singh, Patrick Warburton, Bill Murray; roteiro: Tom J. Astle, Matt Ember (baseado em personagens criados por Mel Brooks e Buck Henry); produção: Michael Ewing, Alex Gartner, Andrew Lazar, Charles Roven; fotografia: Dean Semler; montagem: Richard Pearson; música: Trevor Rabin; estúdio: Mosaic Media Group, Village Roadshow Pictures; distribuição: Warner Bros. 110 min
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