Kung Fu Panda

por RENATO SILVEIRA

“Kung Fu Panda” carrega uma semelhança inegável com “Shrek”: o protagonista é um bicho desajeitado e obeso que, de repente, é eleito para salvar o dia. A diferença na fórmula fácil, que rendeu milhões de dólares a DreamWorks, é que a mais recente animação do estúdio pende mais para o lado do gênero ação do que para a comédia. O humor está presente, mas em menor escala: os momentos cômicos ficam a cargo do personagem principal na maior parte do tempo e sente-se, também, a ausência das incontáveis citações a outras produções.



O tipo de intertextualidade que se encontra aqui é mais elegante. Nesse sentido, os diretores estreantes em longa, Mark Osborne e John Stevenson, conseguem se sair melhor quando deixam de lado os diálogos e se concentram nas cenas de ação (a mais eficaz envolve o urso Po e o mestre Shifu disputando um bolinho). Além disso, a dupla se sai bem nas opções visuais como um todo, claramente buscando inspiração no cinema chinês, especificamente nos filmes wuxia (isto é, aqueles que misturam fantasia e artes marciais) produzidos não apenas em décadas passadas, mas também nos últimos anos. Eis o parâmetro para o espectador casual, que só conheceu esse subgênero por meio de “O Tigre e o Dragão”, “Herói” e “O Clã das Adagas Voadoras”.

O público vai identificar facilmente planos característicos desse tipo de filme, como aqueles que mostram os personagens cruzando o céu em um quase vôo, ou quando é construída uma atmosfera mais espiritual, com direito a um balé de centenas de pétalas dançando pela tela. Os diretores também incorporam bem a estética das cenas de luta, com movimentos de câmera rápidos, os chamados chicotes, e pequenos zooms nos rostos dos personagens. Felizmente, nessas seqüências, eles não abusam dos cortes e priorizam o enquadramento para que a coreografia do duelo possa ser apreciada tranqüilamente.

O maior problema de “Kung Fu Panda” é que o filme demora muito a chegar no treinamento de Po e sua conversão no guerreiro que (não) esperam que ele seja. Isso só acontece na segunda metade da história, sendo que a primeira consiste basicamente das tentativas frustradas do personagem em ser aceito pelos demais lutadores do templo. Poderia ser uma questão de desenvolvimento do personagem, mas a verdade é que acaba soando como uma desculpa dos roteiristas para fazer piadas, que perdem a graça devido à repetição.

Aliás, nenhum dos bichos coadjuvantes chega a ter uma participação convincente na trama. Eles acabam relegados a uma função equivalente a dos personagens secundários da floresta de Shrek, como o Pinóquio ou os Três Porquinhos. Não há um Burro ou uma Princesa Fiona aqui. O mais frustrante é que os personagens de “Kung Fu Panda” são bacanas, cada um representando uma modalidade do kung fu (tigre, louva-Deus, macaco etc.). E se pensarmos no elenco estelar que foi contratado para dublá-los, é ainda mais inacreditável que esses personagens tenham sido tão subaproveitados (Jackie Chan, por exemplo, tem duas ou três falas, e nenhuma é marcante). A impressão é que uma eventual batalha conjunta com todos eles ficou guardada para uma continuação (se não me engano, há planos para uma série de TV).

Apesar de não conseguir conferir a DreamWorks o mesmo prestígio que a Pixar ou a Aardman conquistaram ao longo dos anos, “Kung Fu Panda” certamente é superior aos esforços anteriores do estúdio pós-“Shrek 2” (até agora, talvez o seu melhor filme). Se a história não ajuda muito, ao menos é um longa muito bonito de se ver, com um design de produção belíssimo, e que faz jus ao uso da tela larga.

nota: 6/10 — vale o ingresso

Kung Fu Panda (2008, EUA)
direção: Mark Osborne e John Stevenson; com vozes de: Jack Black, Dustin Hoffman, Angelina Jolie, Ian McShane, Jackie Chan, Jackie Chan, Lucy Liu, David Cross, Randall Duk Kim, James Hong, Dan Fogler, Michael Clarke Duncan; roteiro: Jonathan Aibel, Glenn Berger; produção: Melissa Cobb; fotografia: Yong Duk Jhun; montagem: Clare De Chenu; música: John Powell, Hans Zimmer; estúdio: DreamWorks Animation, Pacific Data Images; distribuição: Paramount Pictures. 92 min
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