Budapeste

Sempre que uma obra literária é adaptada para o cinema, surge a discussão: qual é o melhor, o livro ou o filme? As vitórias da literatura nesse duelo são mais freqüentes, e com “Budapeste” não é diferente. Aliás, o filme dirigido por Walter Carvalho é um perfeito exemplo de como essa transposição do papel para a tela precisa ser inteligente, e não servir como mera ilustração do texto original.

No livro, Chico Buarque trabalha em cima da metalinguagem ao colocar seu protagonista, José Costa, um ghost-writer (escritor-fantasma, aquele que escreve livros, mas concede a autoria a quem o paga), sendo assombrado por seu próprio trabalho, perdido em um labirinto de palavras que se repetem em sílabas dissonantes de uma língua estrangeira, pela qual ele se apaixona. Essa relação, no entanto, se transforma num espelho amaldiçoado, que gera uma realidade não tão alternativa e ilude Costa (interpretado por um Leonardo Medeiros no piloto-automático, embora sua atuação seja consistente).



É uma história conceitual muito interessante e que funciona perfeitamente em seu habitat natural – a linguagem escrita. E como você filma palavras? É a questão que Walter Carvalho não sabe responder.

Ele, que é renomado pela fotografia de inúmeros filmes brasileiros, surpreende por apresentar um trabalho pobre justamente naquilo que deveria ser de seu domínio: a exploração da linguagem cinematográfica. Junto com seu filho, Lula Carvalho, que assume a direção de fotografia e o trabalho de câmera, Walter realiza um filme quadrado, pouco inventivo e arrastado, que começa a crescer somente no último ato, quando personagens e realidades se embaralham. Mas aí já é tarde demais e o plano final soa mais como uma brincadeira presunçosa do que como um ponto de emenda narrativo.

A intenção é nobre por respeitar o texto de Chico Buarque – ele, aliás, dá sua chancela ao filme fazendo uma breve participação especial. Mas “Budapeste” é o caso claro onde os realizadores deveriam ter ido além do livro. O que impediria, por exemplo, que o personagem principal fosse transformado de escritor em cineasta? Dessa forma, a metalinguagem funcionaria a favor da imagem (essência do cinema, tal qual a palavra na literatura) e o jogo de espelhos proposto pela história certamente seria mais produtivo e intrigante. É uma liberdade que beneficiaria a adaptação, sem com isso desrespeitar o conceito.

nota: 4/10 — veja sem pressa

Budapeste (2009, Brasil/Hungria/Portugal)
direção: Walter Carvalho; roteiro: Rita Buzzar (baseado no livro de Chico Buarque de Hollanda); fotografia: Lula Carvalho; montagem: Pablo Ribeiro; música: Leo Gandelman; produção: Rita Buzzar; com: Leonardo Medeiros, Giovanna Antonelli, Gabriela Hãmori, Paola Oliveira, Débora Nascimento, Antonie Kamerling, András Bállint, Djoko Rossich, Nicolau Breyer, Ivo Canellas; estúdio: Nexus Cinema, Eurofilm Stúdió, Stopline Films; distribuição: Imagem Filmes. 113 min
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