Intrigas de Estado

Existe um romantismo que envolve a profissão jornalística do começo ao fim em “Intrigas do Estado”. Há a trama política, sobre a cartelização do setor de segurança nacional americano, mas no fundo ela é só um McGuffin para a real intenção do filme: resgatar a figura do bom e velho repórter que é capaz de arriscar a própria pele por uma boa matéria.

Russell Crowe interpreta esse repórter, Cal McAffrey, e capricha na composição do personagem, um sujeito largado com a aparência (detalhe para a magnífica pança exibida pelo ator) e com o espaço de trabalho (que se configura numa das várias piadas internas direcionadas ao espectador que conhece de perto uma redação de jornal). Por outro lado, McAffrey é extremamente metódico naquilo que realmente importa.



Agindo como um detetive e chegando ao limite da linha ética da profissão, já que a matéria inclui um escândalo que envolve um amigo (o congressista vivido por Ben Affleck), McAffrey é o exemplo perfeito da prática do jornalismo investigativo, vertente que hoje em dia pouco se vê sair do conceito, por inúmeros motivos. Dois deles estão evidenciados na tela: a crise do setor editorial, com a queda drástica na circulação de publicações tradicionais (o que leva aos berros nada elegantes da editora-chefe vivida por Helen Mirren), e o avanço do jornalismo online – ou, mais exatamente, o “jornalismo bloguista”, que já se espalha no Brasil.

O texto de “Intrigas de Estado” é baseado na minissérie de TV inglesa “State of Play” (mesmo título original do longa), de Paul Abbott. Não a assisti, portanto não sei dizer se ocorre o mesmo problema da versão para cinema, onde o resgate do velho jornalismo acaba por ignorar a evolução da profissão apenas em prol de um desfecho amarrado e um tanto moralista. Eu me atenho a esse comentário para não entregar spoilers, mas acrescento apenas que a falha envolve justamente a publicação da reportagem em que McAffrey trabalha. Ora, se a jovem Della Frye (Rachel McAdams) é uma jornalista habituada ao ciberespaço, não seria o caso de a relação entre ela e McAffrey ser uma via de mão dupla, ao invés de ele bancar o professor? Vai ver o próprio Washington Post (rebatizado no filme como Washington Globe) ajudou a bancar o filme, tendo em vista a sequência dos créditos finais, embalada pela otimista canção do Creedence “Long As I Can See The Light” – que, a princípio, serve como tema para os ideais do protagonista.

Mas afora essa incoerência, que pode condenar o filme a um registro datado (junto com o fato de que o enredo se configura claramente na era Bush), “Intrigas do Estado” funciona bem enquanto thriller, muito em função da colaboração de três roteiristas gabaritados: Tony Gilroy (especialista em tramas intricadas no mundo corporativo, como em “Conduta de Risco” e “Duplicidade”, atualmente em cartaz), Billy Ray (que já trabalhou com os temas da ética na imprensa em “O Preço de uma Verdade” e da investigação na esfera governamental em “Quebra de Confiança”) e Matthew Michael Carnahan (que abordou os bastidores da política externa da Casa Branca antes em “O Reino” e “Leões e Cordeiros”). Só não dá para saber exatamente de quem partiram os diálogos rimados e estilizados que brotam em vários momentos – em um retrospecto, eu diria que são de Gilroy.

Kevin Macdonald (do ótimo “Desafio Vertical” e do supervalorizado “O Último Rei da Escócia”) faz um trabalho sólido na direção, que não chega a ser burocrático, mas que também não se destaca pelo estilo. É uma câmera de thriller, digamos, com todos os excessos e tiques do gênero. O cineasta encontra espaço para fazer uma cena de ação num estacionamento, digna de um filme da franquia “Bourne”, e carrega na caracterização dos principais suspeitos da trama, deixando poucas dúvidas sobre quem é o malvado da história. São aspectos que não comprometem o conjunto, mas, da mesma forma, não engrandecem o trabalho de Macdonald – que ainda busca, na imagem do obelisco de Washington, simbolizar a integridade que o filme defende.

nota: 7/10 — vale o ingresso

Intrigas de Estado (State of Play, 2009, EUA/Reino Unido/França)
direção: Kevin Macdonald; roteiro: Billy Ray, Matthew Michael Carnahan, Tony Gilroy (baseado na minissérie escrita por Paul Abbott); fotografia: Rodrigo Prieto; montagem: Justine Wright; música: Alex Heffes; produção: Tim Bevan, Eric Fellner, Andrew Hauptman; com: Russell Crowe, Ben Affleck, Rachel McAdams, Helen Mirren, Robin Wright Penn, Jason Bateman, Jeff Daniels, Michael Berresse, Harry Lennix, Viola Davis; estúdio: Andell Entertainment, Bevan-Fellner, Relativity Media, Studio Canal, Universal Pictures, Working Title Films; distribuição: Universal Pictures. 127 min
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