O que "Crepúsculo" trouxe de bom?

Nunca li um livro da saga “Crepúsculo”. Até tentei. Não consegui passar da trigésima página. Achei chato. Mas isso não me dá o direito de escrever minha opinião sobre o livro como uma obra completa. Da mesma forma, os filmes. O dirigido por Catherine Hardwicke não me interessou. Também tentei ver quando passou na televisão, mas estava achando tudo tão bobo que preferi assistir a um seriado qualquer. Mas, novamente, não tenho a menor pretensão de escrever bem ou mal sobre um filme que não vi inteiro.
Minha postura, acho, é rara. Todo mundo fala mal de “Crepúsculo” e suas sequências sem sequer terem assistido ou lido as obras. Já sabem que o filme é ruim e não precisam comprovar. Talvez por todo oba-oba criado em torno dos livros de Stephanie Meyer ou pelo comportamento virtual de boa parte de seus fãs (não podem ouvir uma crítica negativa a Robert Pattinson e companhia que atacam os detratores como se suas vidas dependessem disto) ou até pelos vários comentários negativos feitos por gente que já leu ou viu o filme, criou-se uma antipatia geral em relação aos vampiros teens.
Não posso tecer opiniões – já que não li ou assisti – mas também não posso ser hipócrita. Não acho que “Crepúsculo” deve ser um exemplo de boa literatura ou bom cinema. Posso ser surpreendido, apesar de achar difícil. Mas tenho equilíbrio o suficiente para perceber os benefícios que o fenômeno da franquia trouxe para o mercado de entretenimento para adolescentes.
Estão sempre à procura de explicações dos fenômenos. Qualquer ingrediente de uma receita pode ser visto como essencial para seu sucesso. E, na indústria cultural, esse ingredientes serão explorados separadamente para ver se darão certo sozinhos. Alguns deles são duvidosos, mas, se procurar, pode existir alguma coisa bacana na mistura do fenômeno.
Por isso, a família Brontë agradece a Stephanie Meyer. Não sei em que circunstância o clássico “O Morro dos Ventos Uivantes” é citado na saga “Crepúsculo”. Sei que é. E isso foi o suficiente para a obra de Emily Brontë ser notada de novo. E, na onda, “Jane Eyre”, da Irmã Charlotte Brontë, também entrou na lista de prioridades cinematográficas, assim como uma cinebiografia das autoras. E, pelo menos, as adaptações dos dois romances serão contadas para os jovens. O que significa que talvez, pela primeira vez, uma turma de adolescentes terá contato com clássicos da literatura.
Por um minuto, podem parecer projetos desinteressantes. Mas quando ficamos sabendo dos cineastas por trás deles, a situação muda um pouco de figura. A nova versão cinematográfica de “O Morro dos Ventos Uivantes” será dirigida por Andrea Arnold, cineasta revelada em Cannes e realizadora do ótimo “Marcas da Vida” e do elogiado “Fish Tank”. Já “Jane Eyre” é um projeto de Cary Fukunaga, diretor de “Sim Nombre”, um dos filmes mais elogiados do ano passado, ganhador de diversos prêmios de produção estrangeira, mas que, por algum motivo não chegou por aqui. São projetos que até podem ter sido pensados há mais tempo. Mas o fator “Crepúsculo” ajudou no sinal verde.
Outro ingrediente da saga vampiresca é o romance. Com o fenômeno, produtores concluíram que os adolescentes de hoje estão à procura de bons romances. E este foi o ponto de partida para o início da produção de um “Romeu e Julieta” para jovens, para o público dos fãs dos vampiros. Pode parecer um projeto oportunista, mas quem está por trás dele é Julian Fellowes, roteirista de projetos interessantes como “Assassinato em Gosford Park” e “A Jovem Rainha Vitória”.
São filmes com potencial que, se não fosse pelo sucesso de “Crepúsculo”, talvez não saíriam do papel. Por isso, se você não suporta Bella Swan e companhia, pense nisso. Tudo sempre tem um lado bom.
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