INDIE 2010: Caterpillar

“Caterpillar” é um filme que incomoda nas imagens. Mas sua narrativa está longe de chamar tanta atenção. Incomoda por mostrar algo que evitamos ver, pois nós, humanos, não temos muito estômago para deficiências físicas. O filme segue uma mulher cujo marido volta da guerra. Ele retorna sem os braços, as pernas, com uma queimadura na cabeça, surdo e mudo. É tratado como um herói e passa a ser visto como o “Deus da Guerra”. A esposa, que parece não suportar a situação, é pressionada a ficar sempre ao seu lado, tanto por seu papel como mulher na sociedade japonesa da época quanto pelo fato do jovem ser o novo herói da comunidade.

É interessante ver em “Caterpillar” a diferença entre a vida pública e vida privada do casal. Fora de casa, o guerreiro é admirado e a mulher, apesar de pressionada, é vista como um exemplo para toda as outras esposas da guerra. Dentro de casa ele só transa, come, dorme e faz as necessidades físicas. Talvez porque o sexo seja a única forma de se comunicar ou, também, porque sem os membros sai do “estado humano” e entre em um “estado animal”. Afinal, a tradução de “Caterpillar” é “larva”, a larva que se transforma em uma borboleta. No caso do jovem, o caminho foi inverso.



As cenas de sexo – que são muitas – incomodam. Não só pela condição física do marido, mas por a esposa satisfazê-lo sem a menor vontade. Logo descobrimos que este Deus da Guerra não é um indivíduo exemplar. E, acima de tudo, não é um caterpillar. Afinal tem consciência, tem sentimentos.

Mas a grande importância do filme é a esposa. O processo pelo qual ela passa durante todo o longa, de devoção ao marido, mesmo que de forma obrigatória, à humilhação ao homem que um dia abusou dela e que hoje não pode fazer mais nada, apesar de interessante é, às vezes, um pouco forçada e um pouco “já vi isso antes” demais. Em uma estante do lar do casal, estão dispostas as medalhas que ele recebeu e uma notícia de jornal emoldurada que enaltece os feitos do ex-soldado. É claro que terá uma cena na qual a esposa, ao explodir, destrói e quebra todas essas lembranças de que seu marido é, agora, um herói, um “Deus da Guerra”. Aliás, dá para entender porque a atriz ganhou o prêmio no Festival de Berlim. Ela expressa todos os tipos de sentimentos imagináveis durante a 1 hora e 25 minutos de filme. Sabe quando alguém quer mostrar como os sentimentos são contraditórios e, em uma cena, a personagem troca de um para o outro como se estivesse trocando de sapato? Então.

Há ainda, no longa, uma crítica sobre como a sociedade em guerra forma seus membros. Apesar de pertinente e atual, é tratada de forma óbvia. Aliás, este é um problema constante em “Caterpillar”. Apesar do começo promissor, a falta de personalidade da narrativa compromete o restante do filme.

Caterpillar (2010, Japão)
direção: Koji Wakamatsu; roteiro: Hisako Kurosawa, Deru Deguchi; fotografia: Tomohiko Tsuji, Yoshihisa Toda; montagem: Shuichi Kakesu; música: Sally Kubota, Yumi Okada; com: Shinobu Terajima, Shima Ohnish, Ken Yoshizawa, Keigo Kasuya, Emi Masuda. 85 min

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