Sexo Sem Compromisso

Quem já esteve em um relacionamento turbulento ou mesmo teve uma convivência mais próxima com pessoas que não tiveram muita sorte no amor já deve ter se pegado idealizando uma relação sem compromissos. Cada um na sua, apenas um encontro, um jantar, uma balada quando der vontade. Sexo casual. A personagem de Natalie Portman em “Sexo Sem Compromisso” é uma dessas pessoas. Já seu par no filme, Asthon Kutcher, faz o tipo romântico, mas topa, mesmo ressabiado, viver uma relação sem apego. Uma amizade com benefícios. Apenas transar, sem ter expectativas ou fazer cobranças. Para o casal aventureiro, parece que será fácil, mas nem eles sabem até quando irá durar. Um homem que passa por eles na rua já adianta o senso-comum: é impossível dar certo.

Este é provavelmente o maior problema do filme: ele rodeia o conceito da não-relação o tempo todo com impossibilidades. São os amigos do casal que começam um namoro tradicional, é a irmã dela que está sinceramente feliz porque vai se casar, é o pai dele que pula de galho em galho, mas que não desiste de ter uma companheira. Assim, o filme se contenta apenas em provar uma teoria. Se todos, menos os protagonistas, sabem que é difícil não se envolver, não se apaixonar numa situação como a que o par principal vive, por que fazer o filme?



É diferente do que acontec em “Passe Livre“, filme que está em cartaz simultaneamente e com o qual “Sexo Sem Compromisso” dialoga ao colocar um ponto de interrogação na durabilidade das relações afetivas. Os dois filmes destoam muito no estilo de humor, já que “Sexo Sem Compromisso” é uma comédia romântica mais típica, enquanto “Passe Livre” é um escracho só. No entanto, os personagens de ambos têm muito em comum. O que a médica de Natalie dá ao roteirista aspirante de Kutcher é também um passe-livre, que é na verdade uma permanente, já que eles não são casados, nem mesmo namoram. Eles concordam em fazer o que quiserem, sem consequências para a relação. E também como em “Passe Livre”, eles compreendem que nós, humanos, simplesmente não funcionamos assim. O ponto a favor dos irmãos Farrelly é que eles trabalham com mais de uma possibilidade, principalmente em relação às personagens femininas, que encaram frontalmente a dúvida sobre seus sentimentos, enquanto para os homens tudo parece não passar de uma descoberta tardia da puberdade.

“Sexo Sem Compromisso” não oferece uma discussão e perde pontos por isso. No entanto, há atrativos. As piadas são boas, a trilha sonora funciona (tem Phoenix!) e a direção é bem mais sólida do que se pode esperar de um diretor como Ivan Reitman, cujo último filme que pode ser considerado bom é “Os Caça-Fantasmas 2”, de 1989. E ele parece ter uma motivação pessoal para fazer o filme, já que faz uma rara ponta como o diretor da série de TV que satiriza “High School Musical”, na qual o personagem de Kutcher trabalha.

Quanto ao elenco, é verdade que poderia haver bem menos personagens coadjuvantes, mas Kutcher e Natalie estão bastante à vontade em seus papéis. É um casal que surpreendentemente dá liga na tela. Ela, então, está muito natural e bem mais solta, praticamente o oposto da performance que lhe rendeu o Oscar em “Cisne Negro“. Não que no filme de Darren Aronofsky ela esteja mal, pelo contrário. É que são atuações distantes.

“Sexo Sem Compromisso” funciona como um reverso de “Harry & Sally: Feitos um Para o Outro”, a mãe das comédias românticas. Enquanto neste, Billy Crystal e Meg Ryan têm a amizade ameaçada depois que transam, no outro Kutcher e Natalie começam transando e vêem a relação em perigo à medida que se tornam mais próximos emocionalmente. É curioso notar, inclusive, como Reitman e a roteirista Elizabeth Meriwether são conscientes do uso das convenções do gênero, o que também colabora para tornar o filme agradável. Quando o casal briga (como sempre acontece em todo filme do tipo) e a personagem de Natalie diz não saber o que fazer, vem o estalo. E dentro do reverso proposto, é ela quem tem o comportamento masculino esperado na ampla maioria das comédias românticas.

Sexo Sem Compromisso (No Strings Attached, 2011, EUA)
direção: Ivan Reitman; roteiro: Elizabeth Meriwether; fotografia: Rogier Stoffers; montagem: Dana E. Glauberman; música: John Debney; produção: Jeffrey Clifford, Joe Medjuck; com: Natalie Portman, Ashton Kutcher, Kevin Kline, Olivia Thirlby, Greta Gerwig, Lake Bell, Ludacris, Jake M. Johnson, Mindy Kaling, Cary Elwes, Ben Lawson; estúdio: Cold Spring Pictures, Handsomecharlie Films, Katalyst Films, The Montecito Picture Company, Spyglass Entertainment, Paramount Pictures; distribuição: Paramount Pictures. 108 min

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