Sucker Punch – Mundo Surreal

Não gosto de iniciar textos citando verbete de dicionário, mas no caso de “Sucker Punch – Mundo Surreal”, tenho que abrir uma exceção. Esta é a definição do Aurélio para “Kitsch”:

“Diz-se de, ou estilo, ou material artístico, literário, etc., considerado como de má qualidade, em geral de cunho sensacionalista ou imediatista, e produzido com o especial propósito de apelar para o gosto popular: ‘O Kitsch é a estética do digestivo, do ‘culinário’, do agradável-que-não-reclama-raciocínio.’ (José Guilherme Merquior, Formalismo e Tradição Moderna, pp. 13-14.)”

O filme de Zack Snyder é exatamente isso, sem tirar nem por. O que temos na tela? Um amontoado de referências à dita “cultura pop em geral”, organizadas na forma de um roteiro de videogame: as protagonistas estão presas em um manicômio e precisam encontrar quatro objetos para fugirem – um mapa, um isqueiro, uma faca e uma chave. Cada objeto está escondido em uma “fase” que elas precisam atravessar enfrentando toda sorte de inimigos: samurais gigantes, soldados-zumbis nazistas, robôs, orcs e dragões. Há tudo que qualquer nerd é capaz de reconhecer de bate-pronto e se extasiar, ainda mais quando as guerreiras são meninas bonitas e atraentes que usam roupas justas e decotadas como fardas. A trilha sonora cyberpunk dá o laço com fita dourada na embalagem, repleta de covers de hits como “Sweet Dreams (Are Made of This)”, do Eurythmics, “Search and Destroy”, do Iggy Pop, “Where Is My Mind?”, dos Pixies, com espaço ainda para Beatles, Queen e Bjork. É um “Moulin Rouge” com armas.



Tudo é feito para ser muito bonito. Os efeitos visuais são um deleite e Snyder, por mais que esteja convencido de que é impossível filmar cenas de ação sem slow-motion, é um diretor que sabe fazer bons enquadramentos, ou pelo menos tem uma boa noção gráfica das cenas que deseja realizar. A sequência em que a personagem de Emily Browning enfrenta os samurais gigantes é, junto com “Speed Racer”, dos irmãos Wachowski, uma perfeita versão filmada de um animê (embora o Snyder utilize a animação japonesa apenas como parâmetro, e não como material para adaptação). Snyder e sua equipe também sabem como trabalhar cenários e figurinos como poucos hoje em dia em Hollywood. Não sou especialista em moda ou design, mas mesmo os leigos conseguem identificar o visual distinto que o cineasta emprega em “300”, “Watchmen” e, agora, em “Sucker Punch”. Portanto, sim, é um filme belo, vistoso. O problema é que Snyder não sabe muito bem como tornar essa beleza harmoniosa.

“Sucker Punch” é um trem descontrolado. Irônico, considerando que é o primeiro filme que Snyder faz com 100% do controle da produção nas mãos e sem estar à sombra de uma fonte, seja de um filme ou de uma graphic novel. A liberdade de exagerar a que o diretor se permite chega a tal ponto que nem ele parece mais saber que história está contando. Afinal, se tudo parece ser tão divertido, se aquelas meninas são capazes de se imaginarem dançando num cabaré ou “sentando o dedo” em um jogo de tiro, elas não devem estar sofrendo tanto assim. A substância humana fica esquecida em segundo, terceiro, quarto plano. Nunca chegamos a realmente conhecer as personagens, apenas seus avatares.

E Snyder se esquece de algo básico: de onde a protagonista tira tantas ideias para se imaginar em guerras, cenários de ficção-científica e duelos fantásticos? O cineasta se preocupa em explicar a mecânica das camadas de realidade (para o caso de alguém não ter entendido), mas em nenhum momento a garota é mostrada sequer lendo uma revista em quadrinhos. Nem nerd ela é! É bem diferente de “Scott Pilgrim Contra o Mundo”, onde games e HQs fazem parte do estilo de vida do protagonista e acabam por contaminar a estética do filme. Eu só posso entender, então, que “Sucker Punh” é a fantasia do próprio Snyder, o “consumidor voraz de cultura pop”, que se imagina como uma menininha de uniforme colegial toda vez que fecha os olhos.

Não faz mal ser kitsch quando se assume isso e daí surja outra coisa, refinada em outros patamares. Quentin Tarantino, Pedro Almodóvar, Baz Luhrman e Darren Aronofsky que o digam. Mas todos sabem o resultado quando a mistura do que se come não é regrada. Para mudar de metáfora, “Sucker Punch” parece mais um baile de Carnaval do que um filme. Quer ser e ter tudo: videoclipe, animê, HQ, videogame. Cinema que é bom mesmo está em outro castelo.

Sucker Punch – Mundo Surreal (Sucker Punch, 2011, EUA/Canadá)
direção: Zack Snyder; roteiro: Zack Snyder e Steve Shibuya; fotografia: Larry Fong; montagem: William Hoy; música: Tyler Bates, Marius De Vries; produção: Deborah Snyder, Zack Snyder; com: Emily Browning, Abbie Cornish, Jena Malone, Vanessa Hudgens, Jamie Chung, Carla Gugino, Oscar Isaac, Jon Hamm, Scott Glenn, Richard Cetrone, Gerard Plunkett, Malcolm Scott, Ron Selmour, Alan C. Peterson; estúdio: Cruel & Unusual Films, Legendary Pictures, Lennox House Films, Warner Bros.; distribuição: Warner Bros. 109 min

%d blogueiros gostam disto: