Rio

Quem teme pela imagem que o cinema brasileiro apresenta do nosso país para o mundo, através de filmes violentos e que expõem problemas como a miséria e a corrupção, terá uma bela surpresa com “Rio”.

Em seu primeiro longa-metragem com personagens diferentes dos de “A Era do Gelo”, o diretor Carlos Saldanha aproveita a oportunidade para fazer uma terna homenagem à sua terra natal, mostrando um Rio de Janeiro como uma cidade realmente maravilhosa. Felizmente, os cartões-postais nunca surgem de forma gratuita: enquanto o bondinho de Santa Tereza serve como cenário romântico, o Sambódromo funciona como passarela para uma cena de ação. O mesmo vale para o Cristo Redentor, o Pão de Açúcar, a praia de Copacabana e até mesmo as favelas, que é onde Saldanha acha espaço para denunciar o tráfico de animais silvestres. Nem tudo é poesia no Rio de Saldanha, portanto, ainda que ele não chegue a uma problematização social. E honestamente: nem deveria.



Saldanha não vive no Brasil há muito tempo e, por essa razão, o filme oferece uma visão do Brasil que vem de fora (o “contágio” de todos pelo Carnaval é prova disso, apesar de ser claramente uma brincadeira). O que não se pode tirar de vista é que, acima de tudo, “Rio” é um filme lúdico e cumpre muito bem esta função, sendo atraente para olhos de qualquer idade. No melhor estilo Pixar, Saldanha e a equipe da Blue Sky Studios investem pesado no visual do filme, deixando definitivamente para trás aquela coisa meio-termo de “A Era do Gelo” e “Robôs”. O filme é quente, colorido, com cenários bastante elaborados e detalhados. É bonito mesmo de se ver numa tela de cinema, ainda mais em 3D.

Também aprendendo uma lição com a Pixar, Saldanha e sua equipe capricham no design dos personagens, o que já era um ponto forte do diretor observado desde o primeiro filme da trilogia “A Era do Gelo”, co-dirigido por ele com Chris Wedge. Não só a arara Blu e sua parceira Jewel formam um casal cativante, como os demais personagens também são capazes de conquistar o público. A exceção talvez fique por conta do personagem dublado por Rodrigo Santoro, um especialista em aves bobo além da conta.

O que “Rio” fica devendo ao legado que a Pixar construiu ao longo das últimas duas décadas (afinal, não há como negar que o estúdio de Emeryville estabeleceu um novo padrão de qualidade em animação) é justamente na história. O filme só perde pontos por não tornar os personagens tridimensionais no quesito narrativo. Em outras palavras: é menos provável que você se emocione com a ligação entre Blu e sua dona, Linda, do que entre Andy e Woody, Sully e Boo, Carl e Russell. Aí sente-se a falta de um bom roteirista, coisa que Don Rhymer, um dos responsáveis por trazer “Vovó… Zona” às telas (por três vezes!), definitivamente não é, e nem são seus parceiros Sam Harper (“Doze é Demais”), Jeffrey Ventimilia e Joshua Sternin (ambos de “Zé Colméia“).

Merece ser destacada ainda a ótima trilha sonora de John Powell, que contou com a colaboração de Sergio Mendes e Carlinhos Brown. É uma das poucas vezes nos últimos anos em que um tema musical foi tão bem explorado. Quem acha que cinema e samba não combinam precisa ver “Rio”.

Rio (2011, EUA)
direção: Carlos Saldanha; roteiro: Don Rhymer, Joshua Sternin, Jeffrey Ventimilia, Sam Harper; fotografia: Renato Falcão; montagem: Harry Hitner; música: John Powell; Bruce Anderson, John C. Donkin; com as vozes de: Jesse Eisenberg, Anne Hathaway, Jamie Foxx, Will i Am, Leslie Mann, Rodrigo Santoro, Jemaine Clement, Hal Holbrook, Tracy Morgan, George Lopez; estúdio: Blue Sky Studios, Twentieth Century Fox Animation; distribuição: 20th Century Fox. 96 min

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