Quando realizou "A Pele de Vênus", Roman Polanski já se aproximava dos 80 anos de idade, sendo 60 deles dedicados à carreira cinematográfica. Nada mais natural, portanto, que o longa fosse usado por ele para uma espécie de autorreflexão sobre a sétima arte.

A PELE DE VÊNUS: De Polanski, para Polanski, sobre Polanski

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Quando realizou “A Pele de Vênus”, Roman Polanski já se aproximava dos 80 anos de idade, sendo 60 deles dedicados à carreira cinematográfica. Nada mais natural, portanto, que o longa fosse usado por ele para uma espécie de autorreflexão sobre a sétima arte.

Em entrevistas à época da exibição do filme em Cannes, no ano passado, o próprio Polanski afirmou que o longa é uma comédia e fala da vaidade dos diretores na escolha do elenco de seus filmes, quando utilizam uma dinâmica sadomasoquista para controlar os atores. Para retratar esse aspecto, o cineasta teve uma grande sacada: utilizou como fonte de inspiração uma peça da Broadway sobre o tema, fazendo assim uma transmutação metalinguística. A peça, que por sua vez é inspirada no clássico livro do escritor austríaco Leopold von Sacher-Masoch, agora é reencenada na tela de cinema, ganhando assim uma camada extra.



Mas não para aí: os dois únicos atores em cena são reflexos imediatos do próprio Polanski. Mathieu Amalric interpreta o diretor de teatro e carrega uma semelhança gritante com a fisionomia de Polanski. E a atriz que tenta convencê-lo de que é a escolha ideal para protagonizar a peça é vivida por Emanuelle Seigner, que é esposa de Polanski na vida real e já trabalhou com ele em diversos filmes (a última parceria ocorreu em 1999, com “O Último Portal”).

Desta forma, “A Pele de Vênus” também se sai como um filme sobre as obsessões de Polanski e o modo de enxergar o outro, especialmente a mulher (o ser “mulher”, não apenas sua esposa). As relações de dominância, poder e sexo são discutidas na tela em um nível filosófico e psicológico muitos degraus acima do que um filme como “Cinquenta Tons de Cinza” pretende alcançar, e sem que o sadomasoquismo seja o tema central do filme. É apenas uma representação do objetivo principal do diretor.

Há uma clara inversão de papéis no decorrer do longa, que torna o diretor vivido por Amalric refém de sua própria visão. A constante troca de realidades que os personagens vivem é um dos pontos altos e também nos faz lembrar do “Jogo de Cena” (2007), de Eduardo Coutinho. Os dois atores se saem muito bem vivendo personagens dentro de personagens, enganando o público e a si mesmos, e Seigner está particularmente fantástica, interpretando todas essas facetas com intensidade, além de ainda deter uma beleza deslumbrante.

“A Pele de Vênus” lembra ainda “Deus da Carnificina” (2011), filme anterior do Polanski, por também ser situado em um só cenário na maior parte do tempo e envolver personagens confinados em uma calorosa discussão (por sinal, também a partir de um texto teatral). E remete a “Faca na Água”, primeiro longa do Polanski, que se passa num barco e tem apenas três atores. Há ainda outros elementos menores que o olhar mais curioso e atento pode relacionar a outros filmes do cineasta e concluir que ele fez mesmo um compêndio de sua obra. É claro que a gente espera que o diretor não encerre a carreira agora e ainda nos brinde com mais filmes, mas se este eventualmente for o último, é o fechamento perfeito. ■

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