"Cemitério do Esplendor" (Rak ti Khon Kaen, 2015), de Apichatpong Weerasethakul - Divulgação
"Cemitério do Esplendor" (Rak ti Khon Kaen, 2015), de Apichatpong Weerasethakul - Divulgação

“Cemitério do Esplendor”: A crise dos sonhos

O nome dele é difícil de pronunciar: Apichatpong Weerasethakul. Para simplificar, os fãs se referem a ele carinhosamente apenas como “Joe”. Nascido em Bangkok, na Tailândia, o cineasta trabalha de forma independente, longe do sistema de estúdio do país e se dá bastante à experimentação em seus filmes, também explorando o audiovisual nas formas de instalações e vídeos.

Exibido na mostra Um Certo Olhar do Festival de Cannes, “Cemitério do Esplendor” (Rak ti Khon Kaen, 2015), mais recente longa de Apichatpong, mantém as características de seus trabalhos anteriores (notavelmente “Tio Boonmee, Que Pode Recordar Suas Vidas Passadas” e “Eternamente Sua”). Apenas a partir da sinopse, o espectador pode achar que se trata de um thriller sobrenatural como vários outros que a indústria despeja no mercado todos os meses. A premissa é a de que um grupo de soldados se torna vítima de uma misteriosa doença do sono e é transferido para um hospital provisório, em uma escola abandonada. Uma enfermeira (Jenjira Pongpas) e uma sensitiva (Jarinpattra Rueangram) que cuidam dos pacientes descobrem que, na verdade, espíritos de antigos reis se apropriaram dos combatentes para que possam usá-los em uma batalha que nunca acabou.

Num filme de gênero convencional, essa trama poderia facilmente se converter em uma história fantasiosa e repleta de efeitos especiais. Mas de Apichatpong não devemos esperar isso. Em “Cemitério do Esplendor”, a magia e o misticismo evocados pelo enredo assumem formas naturais, sem qualquer tipo de artifício para representar o sobrenatural. Tudo se resolve na esfera humana, deste mundo.

Em certo momento do filme, por exemplo, as personagens principais agem como se estivessem em uma realidade paralela, visitando um palácio luxuoso. Porém, elas estão em uma floresta com ruínas depositadas sobre as folhas no solo. Inspirado pelo distanciamento brechtiano, Apichatpong chega a fazer planos de detalhe para “mostrar” objetos que são invisíveis aos nossos olhos, mas que as personagens estão enxergando.

São cenas assim que corroboram para o entendimento de que “Cemitério do Esplendor” é uma crítica à alienação. Após constatar o tédio da vida, alguém afirma na tela: “Os soldados têm sorte de estarem dormindo”. Em outro momento, alguém diz: “Devemos ter consciência dos nossos sonhos tal qual temos dos nossos pensamentos”.

O estado de dormência em que os soldados se encontram, portanto, tem significados maiores, tanto em relação ao modo como vivemos e encaramos questões do nosso dia a dia quanto no que diz respeito à forma como encaramos o próprio cinema.

Apichatpong, com seu habitual rigor formal, em que a movimentação da câmera é mínima, questiona o estatuto da imagem ao desafiar a nossa percepção.

Como o próprio cineasta já afirmou em entrevistas, nós não temos que entender tudo. E o cinema, especialmente o contemporâneo e industrial, tem uma necessidade irritante em explicar as coisas, entregar os filmes numa bandeja para o público. Os filmes de Apichatpong são filmes de resistência a essa tendência e a simples dificuldade que o espectador pode encontrar para apreciá-los não deveria ser motivo para desistir deles.  ■

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