Nina Medeiros em "A Sombra do Pai" (2018) - Foto: Pandora Filmes/Divulgação
Nina Medeiros em "A Sombra do Pai" (2018) - Foto: Pandora Filmes/Divulgação

“A Sombra do Pai”: O além-túmulo, além das convenções

Em seu primeiro longa-metragem, “O Animal Cordial”, a cineasta Gabriela Amaral Almeida fez uma releitura do gênero slasher, que é uma vertente do cinema de horror em que a trama é guiada por assassinatos em série. Já em seu segundo longa, “A Sombra do Pai”, a diretora narra um drama que incorpora assombrações e monstros, mas sem fazer com que o seu trabalho seja facilmente classificado como um filme de terror. Na necessidade de uma definição, poderíamos dizer que se trata de um “drama sobrenatural psicológico”.

O fato de os dois filmes serem diferentes não implica em um ser melhor ou pior que o outro. São criaturas distintas uma da outra e que se sustentam em seus próprios méritos. Versatilidade, aliás, já observada nos curtas da diretora, entre eles “Náufragos”, “Uma Primavera”, “A Mão que Afaga” e “Estátua!”, nos quais encontramos não necessariamente uma presença ou um tom sobrenatural, mas uma sensação de estranhamento e imprevisibilidade constante e suficiente para fazer despertar algum tipo de medo.

Voltando aos longas, o mais importante de pontuar é que tanto “O Animal Cordial” quanto “A Sombra do Pai” são iguais na forma como Gabriela se coloca em cada frame. Temos aqui uma autêntica autora. Alguém que inegavelmente domina não apenas o assunto, mas todos os seus códigos. Daí que, quando ela se lança a fazer um filme sobre uma criança que perdeu a mãe precocemente (e inexplicavelmente, ao menos para o público), sendo forçada a se virar sozinha para cuidar da casa e do pai viúvo, nós nos vemos diante de um filme de camadas que se entremeiam.

Uma cena pode lembrar mais claramente um terror de fantasmas, enquanto outra pode remeter a um filme de zumbis. Mas a liga desses elementos ao drama da garota Dalva (papel da estreante e impressionante Nina Medeiros) é orgânica de tal modo que você nunca se sente inteiramente em um filme de horror. Os elementos do gênero surgem pelas frestas (ou feridas?) abertas no drama principal, tal qual ervas daninhas rompem um chão cimentado. E o orgânico aqui é fundamental, pois está na essência da protagonista, que começa o filme em um primeiro plano já emblemático, em que ela retira a terra que cobre o rosto de uma boneca “sepultada” no quintal de sua casa. Temos o lúdico e o lúgubre reunidos em uma mesma imagem, que desvela uma dúvida: Dalva brincava de enterrar um bebê? Ou era justamente o contrário: ela queria, na verdade, desenterrar a boneca e trazê-la “de volta à vida”, possivelmente num reflexo do que gostaria que acontecesse com sua mãe?

É a tia de Dalva (vivida pela sempre ótima Luciana Paes, premiada no Festival de Brasília) quem nos dá a primeira informação de que a sobrinha possui um certo dom mediúnico. O filme, porém, não entrará em questões específicas do espiritismo ou de qualquer religião. O que Gabriela faz é construir o longa a partir de referências da cultura brasileira e de sua própria vivência (da nossa vivência), como as simpatias com santos para “amarrar” um relacionamento amoroso (quem nunca ouviu um parente ou conhecido falar dessas coisas?). Tem ainda a festa junina e todo o imaginário folclórico que ela suscita, algo que o cinema de horror brasileiro já captou em outras ocasiões (para citar um filme recente que também tem uma boa cena situada durante esse festejo popular: “As Boas Maneiras”, de Juliana Rojas e Marco Dutra).

Dessas referências, nós somos levados, mais uma vez e organicamente, ao imaginário do cinema de horror, com os mortos-vivos citados nos filmes vistos por Dalva na televisão (“A Noite dos Mortos-Vivos”, de George A. Romero, “Cemitério Maldito”, de Mary Lambert), entre outros seres do além. Por exemplo, quando a menina sofre bullying e repete inúmeras vezes “tomara que morra” para o colega que a importunou, podemos pensar nela como uma criança satânica ou uma pequena bruxa, mas tipificar essa personagem está longe de ser tão simples quanto pensa sua melhor amiga, que deseja ter também o “poder” de Dalva para se livrar do irmão caçula que lhe “roubou” a atenção da mãe (uma cena, aliás, da mais pura humorbidez, se me permitem o neologismo). Nessa iconicidade do horror em “A Sombra do Pai” também se inclui uma interessante variação ou combinação das histórias de fantasma com o conto da Mulher-Árvore (que me lembrou ainda o excelente curta “Um Ramo”, de, novamente, Juliana Rojas e Marco Dutra, contemporâneos de Gabriela – a cineasta inclusive é corroteirista de “Quando Eu Era Vivo”, dirigido por Dutra).

O horror está em “A Sombra do Pai”, mas o foco do filme está em usar as convenções do gênero na construção de personagens, tanto no que vemos quanto no que fica oculto aos olhos. E Dalva é muito expressiva com o olhar, através do qual compactuamos com o peso que recai sobre sua tão jovem alma (e os planos, em sua maioria, são filmados por Gabriela e a diretora de fotografia Bárbara Álvarez à altura dos olhos da menina, já que a narrativa se dá por seu ponto de vista). Ela se vê forçada a assumir responsabilidades que não deveriam ser suas naquela idade, sendo privada de ter uma infância, além de ter que lidar com um dom sobre o qual ainda não tem completa noção. O pai (vivido por Julio Machado) é uma figura igualmente complexa. Em Jorge identificamos o arquétipo do pai ausente e do homem machista, mas não é um personagem simplesmente opaco, um monstro em si mesmo. Gabriela, ao lado de Julio, constrói esse homem para criticar a masculinidade tóxica, mas faz isso enxergando através dele.

É aqui, em “A Sombra do Pai”, onde o horror surge mais agudo na atmosfera psicológica: a fragilidade masculina é aterrorizante. O pai se amedronta diante da dor que não consegue esconder, mas também teme um certo consentimento de que ele foi criado sob a falsa égide da máxima de que “homem não chora”. E um homem admitir que sente tristeza, dor e medo no contexto de uma sociedade patriarcal é uma transgressão passível de punição (tal qual o sexo nas regras clássicas de um slasher). Quando Jorge é abraçado repentinamente pelo colega de obra, desesperado diante da demissão recentemente comunicada, a necessidade do afeto assusta os dois homens. Um susto muito maior do que aquele provocado pela possível presença de um espírito em casa quando Dalva organiza uma “brincadeira” do copo (outra ótima referência da cultura popular encaixada narrativamente no filme, de novo harmonizando o lúdico e o lúgubre).

Quem é, então, a sombra do pai? Ou seriam sombras? Ou deveríamos ler o título juntando o artigo ao substantivo como uma única palavra: “assombra”? É tudo isso. A obrigação de cuidar sozinho de Dalva, a falta da esposa falecida que cuidava de tudo, a irmã que ele sente que o “abandonou” para viver a própria vida: tudo é sombra e tudo assombra esse pai que se deixa transformar em um monstro e crê ser vítima das circunstâncias. Crença tão forte quanto a de Dalva em seu dom de fazer contato com os mortos e de manipular o destino dos vivos. A crença de uma criança em fazer a mãe renascer enquanto vê o pai sucumbir. Temas muito mais complexos do que elementos de qualquer gênero cinematográfico conseguiriam definir.

A marca autoral de Gabriela está na habilidade da cineasta de escancarar sua paixão pelo cinema de horror além do clichê e do óbvio, ressignificando e reorganizando, nas histórias que conta, códigos do gênero (explicitamente ou em alegorias temáticas) e da linguagem (e aqui devemos saudar a feliz parceria de Gabriela com Karen Akerman na montagem e Gabriela Cunha no som, ambas também premiadas no Festival de Brasília por “A Sombra do Pai”). É um cinema arrojado e alinhado com o melhor que tem sido produzido no horror atualmente, dentro e fora do país. ■

Nota:

» Confira a nossa entrevista com Gabriela Amaral Almeida sobre “O Animal Cordial” e os curtas dirigidos por ela, no podcast Cinematório Café

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