O mais antigo festival de cinema do Brasil está de volta e em grande estilo. O 58º Festival de Brasília do Cinema Brasileiro, que ocorre de 12 a 20 de setembro, será uma edição especial, pois marca os 60 anos desde a sua criação pelo crítico de cinema, professor e escritor Paulo Emílio Salles Gomes, em 1965, quando o evento era chamado de Semana do Cinema Brasileiro. Com uma programação expandida para nove dias, o festival exibirá 80 filmes, ocupando não apenas o tradicional Cine Brasília, mas também levando o cinema para as regiões de Planaltina, Gama e Ceilândia.
A noite de abertura, em 12 de setembro, terá a exibição em pré-estreia de “O Agente Secreto”, mais novo longa de Kleber Mendonça Filho, protagonizado por Wagner Moura. O filme, um suspense político ambientado durante a ditadura militar, chega ao festival após uma vitoriosa passagem pelo Festival de Cannes, onde recebeu os prêmios de Melhor Direção e Melhor Ator. O encerramento, no dia 20, fica por conta do longa brasiliense “A Natureza das Coisas Invisíveis”, de Rafaela Camelo, que também acumula prêmios em festivais internacionais.

Um retrato do Brasil nas telas
Com 1.702 filmes inscritos, a curadoria do 58º Festival de Brasília, sob direção artística de Eduardo Valente, selecionou obras que formam um panorama complexo do país. “Na Mostra Competitiva Nacional temos filmes de 14 estados diferentes da federação, cobrindo todas as cinco regiões do país. Essa amplitude de origens geográficas não foi um pressuposto curatorial, mas essa seleção reforça o objetivo do Festival de Brasília de servir de plataforma para olhares múltiplos e complementares”, destaca Valente.
Os filmes selecionados atravessam diferentes períodos históricos e abordam as contradições da formação do Brasil. A seleção também se destaca pela equidade de gênero na direção e pela presença de realizadores indígenas e negros, trazendo uma multiplicidade de pontos de vista para as telas. Os filmes da Mostra Competitiva Nacional recebem um cachê de seleção de R$ 30 mil para longas e R$ 10 mil para curtas.
A Mostra Brasília, voltada para produções do Distrito Federal, distribuirá R$ 298.473,77 em prêmios por meio do 27° Troféu Câmara Legislativa, um aumento de mais de 24% em relação ao ano anterior.

Homenagens e memória
O ciclo de homenagens deste ano tem um peso histórico. O Troféu Candango pelo Conjunto da Obra será entregue a Fernanda Montenegro, um dos maiores nomes da dramaturgia brasileira. A atriz tem uma ligação direta com a origem do festival: em 1965, ela recebeu o primeiro prêmio de Melhor Atriz pelo filme “A Falecida”. Para celebrar o momento, o festival exibirá o clássico de Leon Hirszman, além de “São Paulo S/A”, ambos da primeira edição.
Outros nomes importantes do cinema nacional também ganham reconhecimento mais do que merecido. O ator brasiliense Chico Sant’Anna receberá o Troféu da Associação Brasiliense de Cinema e Vídeo (ABCV). A cineasta Lúcia Murat será agraciada com o Prêmio Leila Diniz, e a pesquisadora Ivana Bentes receberá a Medalha Paulo Emílio Salles Gomes. O festival também prestará uma homenagem póstuma ao crítico e cineasta Jean-Claude Bernardet, com a exibição de quatro de seus curtas. Bernardet também estará na tela em “Nosferatu”, de Cristiano Burlan, que integra a mostra Caleidoscópio.

Programação Diversificada
Além das mostras competitivas, o público que acompanhar o 58º Festival de Brasília terá acesso a uma programação paralela robusta. A Caleidoscópio exibirá filmes que desafiam os gêneros cinematográficos, enquanto a Festival dos Festivais reunirá documentários premiados em outros eventos de 2025. Duas novas mostras, Coletivas Identidades e História(s) do Cinema Brasileiro, abordarão temas sociais e revisitarão a trajetória do cinema nacional.
E o festival não se resume às exibições. A sétima edição do Ambiente de Mercado promoverá rodadas de negócios e pitchings, e a Conferência Nacional do Audiovisual retomará debates sobre políticas públicas para o setor. Já na área de convivência do Cine Brasília, atrações musicais encerrarão cada noite do festival com diferentes ritmos e sons.
Crescimento e novas parcerias
O 58º Festival de Brasília reflete um esforço de fortalecimento do evento. Segundo o secretário de Cultura e Economia Criativa, Claudio Abrantes, a gestão do festival se beneficia de um contrato de maior duração. “A partir de uma inovação jurídica, conseguimos fazer um contrato mais extenso, de três anos, que nos dá uma possibilidade maior de planejamento e de captação. Como consequência, neste segundo ano da parceria, conseguimos devolver ao festival sua posição de protagonismo”, afirma o secretário.
Essa visão de longo prazo permitiu ampliar a programação, incluindo um longa a mais tanto na Mostra Competitiva Nacional quanto na Mostra Brasília. A diretora-geral do evento, Sara Rocha, complementa: “O festival cresce e amplia a programação de filmes, Ambiente de Mercado, Conferência do Audiovisual, além de espalhar mais o festival pelo DF”.
Entre as novidades está uma parceria com a TV Globo de Brasília, que lançará uma chamada pública para selecionar e exibir filmes brasileiros em sua grade, com pagamento de cachê. Além disso, foi anunciado um concurso de projetos para a criação do Anexo do Cine Brasília.

Todos os horários e locais das sessões de filmes e atividades podem ser consultados no site festcinebrasilia.com.br
Confira a seguir a relação completa dos filmes em competição no festival:
Mostra Competitiva Nacional – Longas
“Morte e Vida Madalena”, de Guto Parente (CE)
“Xingu à Margem”, de Wallace Nogueira e Arlete Juruna (BA)
“Quatro Meninas”, de Karen Suzane (RJ)
“Corpo da Paz”, de Torquato Joel (PB)
“Aqui Não Entra Luz”, de Karol Maia (MG)
“Assalto à Brasileira”, de José Eduardo Belmonte (SP)
“Futuro Futuro”, de Davi Pretto (RS)
Mostra Competitiva Nacional – Curtas
“Logos”, de Britney (RS)
“Safo”, de Rosana Urbes (SP)
“Dança dos Vagalumes”, de Maikon Nery (PR)
“Faísca”, de Bárbara Matias Kariri (AC)
“Laudelina e a Felicidade Guerreira”, de Milena Manfredini (RJ)
“Boi de Salto”, de Tássia Araújo (PI)
“Couraça”, de Susan Kalik e Daniel Arcades (BA)
“A Pele do Ouro”, de Marcela Ulhoa e Yare Perdomo (RR)
“Cantô Meu Alvará”, de Marcelo Lin (MG)
“Ajude Os Menor”, de Janderson Felipe e Lucas Litrento (AL)
“Replika”, de Piratá Waurá e Heloisa Passos (MT)
“Fogo Abismo”, de Roni Sousa (DF)
Mostra Brasília – Longas
“Vozes e Vãos”, de Edileuza Penha de Souza & Edymara Diniz
“Mil Luas”, de Carina Bini
“Maré Viva Maré Morta”, de Claudia Daibert
“A Última Noite da Rádio”, de Augusto Borges
“Menino Quem Foi Seu Mestre?”, de Rafael Ribeiro Gontijo e Sandra Bernardes
Mostra Brasília – Curtas
“Notas Sobre a Identidade”, de Marisa Arraes
“Dizer Algo Sobre Estar Aqui”, de Vaga-mundo: poéticas nômades
“O Bicho Que Eu Tinha Medo”, de Jhonatan Luiz
“A Brasiliense”, de Gabmeta
“O Fazedor de Mirantes”, de Betânia Victor e Lucas Franzoni
“Rainha”, de Raul de Lima
“Terra”, de Leo Bello
“Dois Turnos”, de Pedro Leitão
“Três”, de Lila Foster
“O Cheiro do Seu Cabelo”, de Clara Maria Matos
“Rocha: Substantivo Feminino”, de Larissa Corino e Patrícia Meschick

Editor-chefe e criador do Cinematório. Jornalista profissional, mestre em Cinema pela Escola de Belas Artes da UFMG e crítico filiado à Abraccine e à Fipresci. Também integra a equipe de Jornalismo da Rádio Inconfidência, onde apresenta semanalmente o programa Cinefonia. Votante internacional do Globo de Ouro.

