Peculiar subgênero do cinema policial, o filme de assalto é instigante por alguns motivos: a adrenalina da execução do plano perfeito, a exposição de brechas morais e sociais, a configuração de uma metáfora sobre o sistema. É nesse terreno que José Eduardo Belmonte dirige “Assalto à Brasileira”, combinando o heist movie com a comédia policial para levar à tela um episódio real: o roubo a uma agência do Banestado, em Londrina, no Paraná, em 1987. Assim, o longa revisita o fato histórico com espírito de sátira para fazer uma leitura da situação socio-econômica do país de quase quatro décadas atrás. Ao mesmo tempo, porém, é também um filme sobre o Brasil recente.
Vencedor de três prêmios no 58º Festival de Brasília — Melhor Filme pelo Júri Popular, Melhor Ator (Murilo Benício) e Melhor Ator Coadjuvante (Christian Malheiros) —, “Assalto à Brasileira” confirma a vocação de Belmonte para dialogar com o público sem abrir mão de uma postura crítica. O diretor, que já havia explorado o cruzamento entre violência e cotidiano em “Alemão” e “Carcereiros”, retorna agora ao humor como ferramenta de observação social. Seu filme é também uma crônica sobre um país que não raramente transforma tragédias em espetáculo e crimes em fábulas.
Baseado no livro de Domingos Pellegrini, o roteiro escrito por L.G. Bayão gira em torno do plano elaborado por sete jovens homens para render clientes e funcionários do banco e levar todo o dinheiro sem machucar ninguém. Belmonte poderia seguir o caminho do thriller tenso e claustrofóbico, mas prefere o tom farsesco. A atmosfera lembra o charme de “Onze Homens e um Segredo”, enquanto o cerco policial evoca “Um Dia de Cão”, de Sidney Lumet. Bayão e Belmonte acrecentam a esta combinação estrangeira a tradição cômica local de filmes como “O Homem do Ano” e “O Auto da Compadecida”, nos quais a esperteza é uma ferramenta de sobrevivência para os protagonistas.

Mas “Assalto à Brasileira” não é apenas sobre os ladrões de banco. No centro da narrativa está Paulo, vivido por Murilo Benício (por sinal, protagonista de “O Homem do Ano”). Jornalista desempregado, ele representa o brasileiro espremido pela crise: um homem comum que, ao se ver refém, descobre uma oportunidade. Sua transformação de vítima do assalto em negociador e, depois, em herói popular, é o arco que ancora a narrativa do filme. Benício domina esse jogo de contrastes, alternando leveza e introspecção, humor e melancolia. Ao empatizar com os ladrões, ele passa a representar o cidadão invisível no sistema que só é ouvido quando o caos o coloca no centro da notícia.
Os assaltantes são liderados por Moreno (Christian Malheiros) e Barba (Robson Nunes), dupla que sintetiza o espírito do grupo. Vindos das periferias, eles são anti-heróis que oscilam entre o ridículo e o heroico, o desespero e a malemolência. Malheiros interpreta seu personagem com uma humanidade tocante: o olhar dividido entre a bravata e o medo revela o peso de quem age por necessidade. Já Nunes injeta carisma e humor nas atitudes que toma para se impor. E na convivência improvável entre reféns e assaltantes, o filme encontra seu ponto de equilíbrio: a agência bancária vira um microcosmo do país, onde todos negociam, trapaceiam e improvisam para seguir em frente.
Belmonte dirige “Assalto à Brasileira” com agilidade, mas sem pressa. Sua câmera, conduzida com a direção de fotografia de Leslie Montero, acompanha a ação com bom ritmo, sem perder de vista os gestos pequenos que humanizam os personagens. E ao lado de Bernardo Pimenta, ele busca na montagem reforçar esse objetivo, sendo auxiliado ainda pela trilha sonora que traz clássicos do Ira! e dos Titãs (inclusive com direito à presença de Paulo Miklos no elenco). As músicas, mais do que simples ambientação, são também um comentário sonoro sobre a época — uma era de inflação galopante, esperanças democráticas e frustrações coletivas. Nos acordes do rock nacional oitentista, o filme encontra tanto a rebeldia quanto o cansaço de uma geração.

“Assalto à Brasileira” retrata um país acostumado a rir de sua própria ruína. Assim, os personagens dentro da agência se tornam também espelho do público que torce por eles do lado de fora: gente comum que negocia, se adapta e sobrevive. O humor, nesse contexto, é mais que um recurso narrativo: é um gesto político. Belmonte entende que a comédia brasileira é eficaz quando nasce da dor, quando o riso expõe a ferida em vez de encobri-la. Por isso, o filme provoca um tipo de gargalhada desconfortável, pois sabemos que há algo de profundamente familiar naquele caos.
Ao combinar leveza e desencanto, “Assalto à Brasileira” também se insere no debate sobre o papel do cinema popular brasileiro: como falar com o grande público sem diluir o olhar crítico? Belmonte responde com estilo e convicção, apostando na inteligência do espectador e fazendo o humor roubar a cena, com o perdão do trocadilho. Afinal, o Brasil é este país onde rir costuma ser uma das formas mais lúcidas de protesto. ■

ASSALTO À BRASILEIRA (2025, Brasil) Direção: José Eduardo Belmonte; Roteiro: L.G. Bayão (baseado no livro de Domingos Pellegrini); Produção: Ricardo Costianovsky, Tomás Darcyl, Clara Ramos, Marcelo Braga; Fotografia: Leslie Montero; Montagem: Bernardo Pimenta; Música: Diogo Poças; Com: Murilo Benício, Christian Malheiros, Paulo Miklos, Robson Nunes, Matheus Macena, Fernanda de Freitas, Debora Duboc, Hugo Possolo; Estúdio: +Galeria, Santa Rita Filmes, Telefilms; Distribuição: Galeria; Duração: 1h 39min.

Editor-chefe e criador do Cinematório. Jornalista profissional, mestre em Cinema pela Escola de Belas Artes da UFMG e crítico filiado à Abraccine e à Fipresci. Também integra a equipe de Jornalismo da Rádio Inconfidência, onde apresenta semanalmente o programa Cinefonia. Votante internacional do Globo de Ouro.

