“Wicked: Parte 2”: Afinal, um filme, mesmo sendo uma sequência, precisa se bastar?

"Wicked: Parte 2" (Wicked for Good, 2025) - Giles Keyte/Universal Pictures
Giles Keyte/Universal Pictures

crítica wicked parte 2

Há quem defenda que a segunda parte de um longa deve funcionar como uma obra completa, sem depender totalmente do primeiro filme. Mas também existem aqueles que acreditam que uma continuação precisa cumprir o que o termo propõe: dar seguimento direto ao título de origem. Pois bem, eu me identifico mais com o primeiro time; já o diretor de “Wicked: Parte 2”, Jon M. Chu, optou por seguir o caminho oposto.

E não que essa escolha seja um grande problema, porém, aqui houve um excesso de sequência: a obra de 2025 acabou se tornando um material que foca incessantemente em dar respostas e amarrar as pontas deixadas em “Wicked”. Isso pode ser interessante para quem assistiu ao filme anterior e é fã da obra, mas a personalidade do longa atual ficou em segundo plano, e esse é um erro que quase custou caro para esta produção tão aguardada.

O que impede que isso aconteça é a forma como o roteiro mergulha no que move as personagens: seus conflitos, afetos e fragilidades, e transforma tudo isso no grande eixo da trama. É essa camada humana que cria relação com o público e faz com que essa história ganhe vida de verdade.

Em “Wicked: Parte 2”, as protagonistas estão lidando com as consequências das ações e decisões que tomaram no filme anterior. Enquanto Elphaba (Cynthia Erivo) segue demonizada como a Bruxa Má do Oeste, exilando-se em uma floresta e fugindo da perseguição que se iniciou contra ela, Glinda (Ariana Grande) vive o glamour de ser o símbolo da bondade de Oz, morando no palácio da Cidade das Esmeraldas e desfrutando do amor e admiração da população.

O início do filme dita o ritmo central da trama, mostrando de maneira lúdica e envolvente os lados opostos que serão apresentados. Ao se deparar com a vida que Glinda está levando, é possível se apaixonar por toda a sua doçura, beleza e leveza. Tudo à sua volta remete à alegria e bondade, ao contrário do que acontece com Elphaba. O lado da bruxa é caracterizado por um verde vibrante, mas que carrega consigo peso e solidão.

Ao mesmo tempo em que o ato inicial mostra a cidade reverenciando uma líder amorosa e bondosa, a abertura expõe a realidade dura de sua amiga, que, apesar de lutar pelos animais e pelas pessoas discriminadas, é odiada pela população e perseguida diariamente pelos guardas do Mágico (interpretado por Jeff Goldblum). Os contrastes são apresentados de forma eficaz, mérito da direção de arte que traduz para a tela o significado do verde e do rosa, usados para evidenciar a diferença entre as protagonistas.

De um lado, uma mulher adorada, sem poderes, mas cheia de carisma e leveza; do outro, aquela que é vista como “a ruim”, poderosa e comprometida em ajudar quem precisa, porém rejeitada por quase todos e presa a uma realidade mais densa e sombria.

Mas o roteiro escrito por Gregory Naguirem, Dana Fox e Winnie Holzman consegue, ainda que por pouco tempo, sair da trama centrada apenas nas duas protagonistas. Um dos pontos mais fortes do enredo é a história de Nessa (Marissa Bode), irmã mais nova de Elphaba. É impactante ver como a jovem se relaciona com Boq (Ethan Slater), mantendo-o preso e reagindo com dureza a qualquer sinal de que ele não corresponda ao seu amor.

Todas as cenas entre os dois são potentes, e a sequência que mostra o egoísmo da caçula, resultando na transformação de Boq no Homem de Lata, é especialmente bem dirigida. Desde a emoção transmitida ao mostrar Elphaba usando seus poderes para realizar o desejo da irmã, até o medo estampado no rosto de Nessa ao ver, pela primeira vez, o amado naquela forma assustadora.

A trama de Nessa é envolvente do começo ao fim. Até mesmo sua morte ganha um peso expressivo, criando uma ligação direta com o clássico “O Mágico de Oz”, de 1939, no qual Dorothy vê os pés de uma pessoa atingida por uma casa, sem saber quem era aquela mulher.

Há ainda outro conjunto de cenas bastante marcantes no filme, que reúne momentos de destaque e realmente fortalece a história. Tirando o fato de que o primeiro reencontro entre Elphaba e Glinda carece de emoção (ainda que faça sentido para indicar que as duas já vêm se encontrando há algum tempo), toda a sequência do casamento traz elementos cruciais para o restante da trama.

O confronto da Bruxa Má com o Mágico apresenta um diálogo provocante, com o personagem afirmando que o povo de Oz, além de precisar, deseja ter uma imagem poderosa, enigmática e grandiosa na qual possam acreditar. Este fato coloca a protagonista num papel de começar a entender a realidade política que existe por trás de toda a fantasia da cidade.

E durante esse diálogo, Glinda transita na conversa demonstrando estar preocupada com sua amiga e que deseja mostrar que é necessário acabar com toda resistência entre os dois. No entanto, fica evidente que, naquele momento, ela está pensando apenas em si mesma. É claro que sua maior motivação é resolver todo o conflito rapidamente para poder se casar com seu amado e viver o tão desejado conto de fadas. E é aí que o contraste entre as personagens volta a se destacar de maneira brilhante.

De um lado, a personagem vivida por Ariana se casa enquanto todos os convidados vibram com sua felicidade e beleza. Do outro, a jovem verde descobre um porão escuro, onde diversos animais estão aprisionados pela maldade do Mágico, que mais uma vez tentou enganá-la.

Mas, na mesma proporção em que essa sequência começa de forma cativante, ela termina de maneira desastrosa. O CGI dos animais fugindo do palácio e os efeitos especiais que compõem o visual do castelo são tão pobres que comprometem a imersão do público naquele momento. No entanto, o maior problema não está apenas na estética da cena, mas também no desenvolvimento das histórias dos personagens.

A descoberta de Glinda sobre o amor de Fiyero (Jonathan Bailey) por Elphaba é totalmente sem brilho e só não é pior que a atitude do próprio príncipe, que decide abandonar a mulher com quem estava prestes a se casar minutos antes, sem lhe dar sequer uma explicação mínima.

E tudo bem — o que vem depois é a cena do amor entre o casal que já vinha sendo construído desde o primeiro filme. Porém, tudo acontece rápido demais. De repente, os dois já estão em seu “ninho de amor”, sem qualquer diálogo que dê conta do que acabou de acontecer. É tudo apressado, raso, feito apenas para cumprir a função de mover o enredo.

E isso pesa diretamente na falta de identificação com o príncipe. Como criar simpatia por um personagem que abandona, do nada, a mulher com quem se relacionava há tanto tempo? E mais: como ter apreço por alguém que, lá na frente, é capaz de apontar uma arma para essa mesma moça, ainda que para proteger a atual amada? Houve muita pressa e pouco cuidado.

E essa falta de zelo continua na forma como a narrativa conduz o conflito entre as protagonistas. A briga motivada por um triângulo amoroso até diverte, mas é extremamente superficial. Desde o fim de “Wicked”, as duas estão em lados opostos por razões profundas, complexas e importantes para cada uma, e reduzi-las a um embate por causa de um homem enfraquece tudo o que a história vinha construindo. É uma solução simples para um conflito que merecia muito mais.

E, novamente, tudo ocorre rápido demais. As viradas de Glinda e Elphaba acontecem por meio de canções — brilhantemente interpretadas pelas atrizes, deve-se ressaltar —, mas sem cenas ou diálogos que mostram real sustentação a essas mudanças. O público é conduzido a aceitar que a jovem doce voltou a ser adorável e que a Bruxa Má finalmente está se rendendo à escuridão, mas nada disso convence de imediato.

Mas, em contraponto, é nesse contexto que surge um dos grandes acertos de “Wicked: Parte 2”: a química poderosa entre as duas protagonistas.

Ariana e Cynthia entregam a melhor cena do musical, conduzida por uma canção emocionante e carregada de significado para as duas personagens, que, naquele momento, compreendem que precisam colocar fim à guerra que existe entre elas e que, infelizmente, é necessário que haja uma bruxa má para que uma boa exista. Que o contraste é essencial: o mal precisa existir para que o bem seja reconhecido.

E, no final do longa, tudo parece finalmente se ajustar, quase como um passe de mágica. As controvérsias que cercam as duas protagonistas convergem para essa necessidade do oposto, trabalhada desde o início do filme, e as pontas, enfim, começam a se alinhar.

Apesar ser apressado e com pouca personalidade própria, “Wicked: Parte 2” está longe de ser esquecível, porque carrega, do início ao fim, aquilo que o cinema tem de mais poderoso: a emoção que move suas personagens. O longa revela o que impulsiona cada uma delas, no que acreditam, onde estão suas fragilidades e onde encontram força. É uma história que se sustenta na vulnerabilidade, e é justamente isso que aproxima o público.

Se a produção não conquista pela técnica, ela ao menos alcança algo maior: a capacidade de fazer o espectador sentir. E, no fim das contas, é isso que mantém uma história viva depois que as luzes da sala se acendem. ■

Nota:

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