Mesmo bem distante do radar da maior parte da mídia brasileira, a Alemanha vive um momento decisivo. A coletiva de imprensa com o Júri Internacional — um dos mais irrelevantes da longa história do festival, diga-se de passagem — não esperava que a apresentação, sempre regada a autoelogios e vaidades pueris (expressão de orgulho de grande parte da solícita imprensa alemã), se tornasse o “Berlinale-Gate” ou, como um colega denominou: “Causa Berlinale”. Para explicar onde tudo se iniciou, vamos olhar para a política.
Desde 2025, a Alemanha optou por um governo conservador de direita e por dar marcha à ré em questões do futuro que batem à porta no presente.
O Ministro da Cultura é um exemplo da temperatura política do atual governo. Wolfram Weimer é ex-jornalista, dono da Weimer Media e enrolado em vários escândalos de “conflito de interesses” por tirar proveito do seu cargo ao lidar com interesses da economia privada. Ao ser noticiado que ele seria o Ministro da Cultura e Mídia, uma petição na internet recolheu 70.000 assinaturas para evitar o pior — mas o pior foi inevitável.
Dramaturgia dos Fatos
Weimer se denomina muito conservador e não esconde que o fomento da cultura deverá ser alinhado com o propósito dos projetos. O nome disso é censura e exibe um precedente preocupante, para dizer o mínimo. Após os 12 anos de nacional-socialismo (1933-1942) a cultura na Alemanha foi descentralizada. Cada região administrativa (ao todo, 16) decide sobre projetos, fomento e orçamento independente da influência federal. A exceção tange a projetos culturais que têm visibilidade além das fronteiras alemãs, que é o caso da Berlinale. Ou seja: como patrocinador-mor do festival, a situação do governo tornou-se problemática, o qie eu denominaria de embaralhado político.

Paradoxo
Há dois anos, foi o próprio Wim Wenders quem elogiou a “nota política” da Berlinale . A “amnésia”, somente dois anos depois, não pode ser separada do atual clima político na Alemanha. Se antes da primeira coletiva de imprensa a Berlinale já sofria de uma crise de identidade, tentando encontrar um caminho entre o passado e o futuro, essa crise agora é política e com reverberação mundial, chegando até Hollywood.
A pergunta do jornalista Tilo Jung arrancou a fachada de um festival que, desde a desastrosa gestão de Carlo Chatrian (2020-2024), vem descendo a ladeira na banguela. Com a nova diretora, Tricia Tuttle, a esperança de novos tempos era grande, porém, em 2025, ela esfarelou.
Ninho de Marimbondos
A declaração de Wenders de que cineastas devem se manter “fora da política” tem vários desdobramentos, todos de alta gravidade. Wenders apequenou a relevância política do festival, tocou num ponto nevrálgico e histórico que relembra a conivência da classe artística na época do nacional-socialismo por medo de represália e, em honestidade intelectual máxima, negou a própria história do surgimento do festival.
O que comprova o clima árido é que jornalistas entrevistados pleiteiam um controle das listas de pedidos de credenciamento para o festival, sugerindo a implementação da censura com desdobramento natural para a liberdade de imprensa, que até pouco tempo na Alemanha era intocável. O mesmo grupo tentou deslegitimar Tilo Jung: “Ele nunca escreveu uma crítica de cinema!”. A notória falta de solidariedade entre jornalistas na Alemanha ganha mais um capítulo de uma interminável novela.

A Berlinale 2026 entrará na história por vários fatores: filmes de qualidade indiscutível na Mostra Competitiva, sessões de imprensa quase vazias, artistas se curvando à censura e o festival ficando menor do que é. O escândalo virou uma “causa” mundial. Veículos como The Hollywood Reporter e Vanity Fair reportaram e até chamaram Tilo Jung para conversar.
Ainda bem que existem luzes no horizonte, como o diretor brasileiro Kleber Mendonça Filho, que afirmou “não entender” o motivo de Wenders ter dado essa declaração. Lembro-me daquela entrevista notória de Glauber Rocha no entorno do Festival de Veneza, tirando a máscara dos diretores que, segundo o baiano, só se interessavam por filmes americanos e franceses de Louis Malle. Com a soberania que faltou a Wenders, Glauber intitulou seus filmes como “de olhos no futuro” e comprometidos com a realidade. Fassbinder, um “primo” de Glauber em termos de cinematografia e chamado de l’enfant terrible do cinema alemão, foi sempre corajoso, dentro e fora das telas.
Berlim, nestes tempos, precisa mais de Fassbinder e menos de Wenders… aliás, bem menos.

Nascida no Rio de Janeiro e radicada na capital alemã, acompanha o Festival Internacional de Cinema de Berlim desde 1989, ainda como cinéfila incondicional. Em 1998, a cobertura se tornou profissional, para diversos meios de comunicação no Brasil e na Alemanha, e durante quatro anos foi expert da Berlinale no programa “Dschungelfieber”, da Rádio Eins de Berlim.

