Os paralelos entre “Antártida” (2026), longa-metragem brasileiro dirigido por Bruno Safadi, e “O Enigma de Outro Mundo” (1982), filme estadunidense realizado por John Carpenter, são numerosos e óbvios. Ambas as obras se passam em bases de pesquisa localizadas no continente gelado, são estruturadas em torno de uma ameaça de identidade desconhecida e se valem do suspense para tecer comentários amplos sobre as relações humanas em contexto de isolamento. No entanto, “Antártida”, que abriu o 54ª Festival de Cinema de Gramado, toma um caminho próprio, bastante diferente daquele trilhado pelo filme oitentista.
De início, a presença feminina é a primeira distinção. Se no longa de Carpenter a ausência de mulheres contribui para o acirramento da paranoia masculina e para a crítica indireta a um certo tipo de masculinidade, no lançamento nacional a trama gira em torno das questões delas. Seja de Elisabeth (Andrea Beltrão), que precisa assumir a direção da Estação Comandante Diniz após descobrir que o Comandante Barros (Antonio Calloni) está gravemente doente; ou de Marina (Leandra Leal), médica que é obrigada a lidar com o retorno à base de seu ex-marido violento, Vicente (Lázaro Ramos); ou ainda, da recém-chegada pesquisadora Inês (Marina Ruy Barbosa), vítima de violência sexual em sua primeira noite na estação. Ao inserir mulheres na história e dar a elas protagonismo, o roteiro de Claudia Jouvin e Dennison Ramalho traz uma releitura interessante e atual do filme de Carpenter, já que o novo olhar mantém o drama humano ao mesmo tempo em que dá uma dimensão mais coletiva, e portanto social, às problemáticas específicas das personagens femininas.
A produção brasileira também se diferencia por trabalhar uma história na qual os vilões são, assim como suas vítimas, seres humanos comuns. Além de Barros e Vicente, os outros homens na base – Viriato (Adélio Lima), Josué (João Vitor Silva), Dimas (Gero Camilo), Santiago (Henrique Barreira) e Gaspar (Renan Monteiro) – passam a ser suspeitos de cometer o crime contra Inês, reforçando a ideia de que qualquer homem, por mais inofensivo e agradável que seja, pode ser um estuprador em potencial, e que o cometimento da violência não parte de uma monstruosidade individual, mas sim de todo um contexto que dá aos agressores a segurança de que não serão descobertos e punidos. Enquanto os personagens estão isolados pelo frio extremo e sem possibilidade de resgate, a “cultura do estupro”, que está na estrutura da sociedade brasileira, se manifesta de forma latente.
Vendido como uma grande produção dos Estúdios Globo, “Antártida” acerta, ainda, no uso da tecnologia para criar um cenário muito realista. Embora as cenas tenham sido gravadas no Rio de Janeiro, no estúdio de produção virtual da emissora, toda a ambientação (dentro e fora da base) é absolutamente convincente, o que amplifica as tensões da história, uma vez que a localização dos personagens é fator central para o andamento da trama, e é fundamental que o público acredite que de fato aquela história está se desenrolando onde deveria estar.
O elenco, por sua vez, está bem de forma geral, mas há ressalvas. Os melhores atores aqui são, certamente, Leandra Leal e Antonio Calloni, que conseguem dar peso às suas ações e falas a partir dos rostos, de forma muito sutil. Andrea Beltrão, por sua vez, embora esteja bem, falha ao fazer com que sua personagem atravesse o limite da seriedade; sua Elisabeth se torna, assim, uma figura monocórdica, com tom de voz enfadonho e uma expressividade apagada. Marina Ruy Barbosa, por outro lado, parece completamente perdida em um papel que já é muito desafiador, entregando uma performance que transita entre o exagero e a mecanização. Ela não é ajudada pelo roteiro, já que sua personagem mal tem tempo de se estabelecer em meio à dinâmica do grupo antes que o crime seja cometido.
O roteiro, a propósito, apresenta ainda outros problemas, entre os quais um didatismo que por vezes subestima a capacidade do espectador de compreender e julgar o que está se passando. Em dado momento, por exemplo, Elisabeth diz às mulheres do grupo que elas não podem confiar em nenhum homem da estação a partir dali. Ora, dado o crime ocorrido, é evidente que um dos homens é o responsável, e que todos agora passam a ser suspeitos. Ao reforçar desnecessariamente uma informação que é tão óbvia quanto importante, o longa parece ignorar a possibilidade de que espectadoras e espectadores entendem e formulem o próprio juízo, e que este processo é muito mais propício à reflexão que a obra propõe.
Há também uma falha que diz respeito à única personagem feminina negra presente no grupo de militares e pesquisadores da base, Rose (Mariana Sena): ainda que tenha uma caracterização mínima (a personagem afirma ter comprimido sua feminilidade para caber no ambiente majoritariamente masculino da Marinha), ela acaba sendo completamente deixada de lado, de modo que tanto a personagem quanto a atriz são subaproveitadas. Felizmente, o longa-metragem acaba não fazendo o que eu mais temia desde o início: atribuir a culpa do estupro ao único homem negro presente na base. O personagem de Lázaro Ramos se mostra abusivo e violento com a ex-companheira, mas o roteiro não incorre no erro de reforçar o estereótipo do “estuprador negro”, tão presente na mídia e na sociedade há séculos.
Visualmente, a direção de Bruno Safadi (ao lado do diretor de fotografia Mauro Pinheiro Jr.) demonstra, pelo menos na primeira metade do filme, um cuidado e uma criatividade bastante significativos. Na cena em que Inês é apresentada aos colegas, por exemplo, tracking shots acompanham os personagens enquanto eles andam pela sala, e a transição de um personagem para outro é feita também por meio de movimentos de câmera fluidos, e não cortes secos, como poderia se esperar de uma direção mais protocolar. Mais à frente, quando Elisabeth está indo falar com outro personagem, a câmera a filma por baixo diante da porta, engrandecendo a personagem e já prenunciando que ela está conduzindo a situação.
A montagem também tem momentos dignos de nota. Em um deles, uma situação tensa é imediatamente seguida por imagens do derretimento e queda de geleiras, estabelecendo uma metáfora visual que é tanto mais efetiva por ter relação direta com a ambientação do filme e por um aspecto que é mencionado aqui e ali – o derretimento das geleiras por conta da crise climática. Já na sequência em que os homens da base são interrogados por Elisabeth, a montagem habilidosa dá ritmo e uma intensidade cumulativa às informações que vão sendo reveladas pelos personagens, intercaladas com flashbacks que se contradizem entre si – deixando claro, portanto, que alguém ali está mentindo ou omitindo o que sabe ou fez.
“Antártida” termina sendo um filme interessante, principalmente por sua inovação dentro da estrutura conhecida e por um bom uso da tecnologia. Ele aproveita um ambiente ainda pouco explorado dentro da cinematografia brasileira, e o faz atentando-se a questões fundamentais do Brasil atual, mantendo ainda uma identidade nacional – afinal, os rostos que vemos são de atores e atrizes populares na televisão, os quais, em certo momento, fazem uma festa ao som de nada menos do que o “Passinho do Volante”. Embora tenha falhas no roteiro e algumas atuações irregulares, o longa prova que, no fim das contas, baixas temperaturas também podem testemunhar a sociedade em estado ebulição. ■
Onde ver "Antártida" no streaming:

Jornalista formado pela UFMG, mestrando em Artes pela mesma instituição (com pesquisa sobre a obra do cineasta indiano Satyajit Ray) e crítico de cinema no Cinematório e no Projeto Lumi. Já cobriu o Festival do Rio e a Mostra de Tiradentes. Foi, durante um ano e meio, assessor de imprensa da Fundação Clóvis Salgado (BH). É votante no Latin American Critics’ Awards for European Films, da European Film Promotion (EFP). Tem experiência comentando filmes, programando exibições cinematográficas e na pesquisa de imagens para televisão e documentário.

