Anywhere, USA

Chusy Haney-Jardine, que dirigiu este “Anywhere, USA”, parece ter não uma ou duas, mas três personalidades. Afinal, seu longa de estréia, dividido em três capítulos, mais parece uma antologia de contos cômicos, cada um dirigido e escrito por um cineasta diferente. É justamente essa inconsistência de uma unidade desejada ao estilo do diretor que faz o longa ser menor do que merece.

O primeiro episódio é uma história nonsense bizarra sobre um hiponga que tenta reconquistar a namorada, contando, para isso, com a ajuda de um amigo anão paranóico, hiperbolicamente afetado pela cultura do medo Bushista. O segundo é uma comédia um pouco mais convencional, que brinca com a inocência de uma garota de oito anos que ainda acredita na Fada do Dente (a menina, que é uma graça, é interpretada pela filha do diretor, Perla Haney-Jardine, que fez a filha de Uma Thurman em “Kill Bill: Volume 2”). Por último, vem um capítulo de humor sarcástico e politicamente incorreto, cujo protagonista é um homem rico em crise de meia-idade que, ao invés de comprar um Porsche, decide conhecer uma pessoa negra.



A melhor das três histórias, sem dúvidas, é a segunda – e ela está deslocada, solta no meio do filme, que parece parar para contá-la. Quando a terceira tem início, é nítido o terreno irregular pelo qual Haney-Jardine e a co-roteirista Jennifer MacDonald passeiam, até porque não funciona a tentativa de ligar os três episódios, apenas citando os personagens de um no outro (alguns chegam até a fazer pontas nas demais tramas).

Se existe uma unidade em “Anywhere, USA”, ela está na trilha sonora, que trabalha o tempo todo com combinações estranhas. Uma situação absurda é acompanhada por uma música clássica, e assim temos o efeito cômico. Uma cena em que isso funciona muito bem é (não por coincidência) na história da menina, no momento em que ela arranca um dente para comprovar a existência da Fada. É uma cena pretensamente forte e dramática, que se torna hilariante em função do exagero que a música emprega à atitude da garota.

O filme funciona na maior parte do tempo e garante boas risadas, graças aos bem-sucedidos toques irônicos e jocosos de Chusy Haney-Jardine. Só é uma pena que ele oscile tanto de um intervalo a outro. Que num próximo projeto, o diretor se concentre apenas em um estilo de humor (de preferência o segundo!), pois talento ele demonstra ter.

nota: 6/10 — vale o ingresso

Anywhere, USA (2008, EUA)
direção: Chusy Haney-Jardine; com: Ralph Brierley, Dianne Chapman, Mike Ellis, Mary Griffin, Perla Haney-Jardine, Sheliah Ray Hipps, Ellis Robinson, Molly Surrett, Brian Fox; roteiro: Chusy Haney-Jardine, Jennifer MacDonald; produção: Jennifer MacDonald; fotografia: Patrick Rousseau; montagem: Chusy Haney-Jardine. 123 min
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