"Força Tarefa" reforça diálogo entre telas


Murilo Benício fazendo olhar de Travis Bickle. Calma, a referência para aí.

A retomada do cinema nacional apresenta um fenômeno dos mais interessantes, e bem brasileiro: diretores de TV que migram para o cinema e lá aplicam sua experiência na telinha. A recípocra é verdadeira e é impossível fugir dessa discussão em um país onde a teledramaturgia é a forma audiovisual dominante no imaginário da maior parte da população. Se queremos que o cinema “roube” pelo menos um pedaço mais generoso do bolo do que as sobras atuais, há de se olhar com mais respeito para esse sincretismo de linguagens.

“Força Tarefa”, a série policial que a Rede Globo estreou nessa quinta-feira, dia 16, tem direção geral de José Alvarenga Jr. No mesmo fim de semana, entra em cartaz nos cinemas “Divã”, comédia romântica estrelada por Lília Cabral e também dirigida por Alvarenga. Acho que a questão principal que se levanta diante das duas produções é: qual é cinema e qual é TV?



Na verdade, as duas formas parecem se misturar. Como já comentei, “Divã” parece um filme de fato, e não um episódio de série de TV com uma hora e meia de duração como “Os Normais – O Filme” (também dirigido por Alvarenga) ou “A Grande Família”. Foge também da papagaiada de um “A Guerra dos Rocha” ou um “Muito Gelo e Dois Dedos D’Água”.

“Força Tarefa” tem uma clara influência do modelo de seriado americano policial, que por sua vez bebe dos moldes do gênero concebido pelo cinema hollywoodiano: cores azul e verde acentuadas por filtros, trilha sonora de thriller de ação e tomadas muito curtas (até mesmo numa cena de diálogo, vi o Murilo Benício por uns cinco ângulos diferentes em coisa de um minuto).

Entendem o paralelo das linguagens? É uma linha tênue, que talvez seja até invisível se olharmos de uma certa distância. Alvarenga é só o mais recente representante dessa geração de cineastas a estar sob os holofotes, mas vários outros já o precederam. Daniel Filho ainda colhe os louros da bilheteria de “Se Eu Fosse Você 2”. Maurício Farias lançou há pouco “Verônica” e segue no comando semanal de “A Grande Família”. Guel Arraes e Jorge Furtado, que ano passado lançaram “Romance“, nunca pararam de brincar com esse diálogo entre telas. Luiz Fernando Carvalho, que filme para cinema mesmo só fez “Lavoura Arcaica”, criou um troço tão bonito e hermético em “A Pedra do Reino”, que a minissérie acabou indo parar nas salas de projeção do circuito alternativo. Muito em breve veremos Fernando Meirelles (que começou a carreira com o saudoso “Olhar Eletrônico” nos ano 80) retornar à TV com “Som e Fúria”. E que falta não faz a era Eduardo Coutinho do “Globo Repórter”, não?

Mas voltando ao “Força Tarefa”, analisando o episódio propriamente dito, a impressão que ficou não foi das melhores. O lado bom é que Alvarenga assumiu o estilo policial, pipocão mesmo, sem pretensões sociais. A própria influência da TV americana não é um problema, afinal é a Globo falando com seu público. É claro que seria genial se algo mais genuíno estivesse sendo feito. Mas se a proposta é fazer um “CSI” ou um “24 Horas” brasileiro, que se faça direito. Alvarenga e os roteiristas Marçal Aquino e Fernando Bonassi (herdeiros daquele ótimo cinema policial que o Beto Brant vinha fazendo) podem ter feito algo bom a longo prazo, mas neste primeiro episódio, justamente o que deveria causar “bum!” maior, não foi contada uma história intrigante. E o pior: acabou sem gancho para o próximo, para deixar a pessoa querendo ver como aquilo vai terminar. Pecado capital ao meu ver.

A música tema de “Força Tarefa” é a dos Titãs: “Polícia para quem precisa/ Polícia para quem precisa de polícia”. No caso, a aposta da série parece ser que é a própria polícia quem precisa de polícia. É uma proposta interessante, e tomara que lá na frente a coisa não vire um “favela movie“. Mas algo me diz que é quase inevitável. Só que primeiro devem criar personagens que interessem. Eu torço muito para que aquele fantasma atrás do Murilo Benício desapareça. E que a personagem da Hermila Guedes seja melhor aproveitada e aprofundada, porque o estereótipo de mulher-macho não combinou nada com ela (fora que a piada do pau pequeno não funcionou). O Milton Gonçalves então nem se fala. Vamos acompanhar.

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