A aparência engana e também distrai

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A coisa mais surpreendente a respeito de “Hitchcock” pode também ser a mais frustrante, dependendo do que você espera do filme. Não se trata de um making of de “Psicose”, o mais popular dos clássicos do Mestre do Suspense. Esse é apenas o pano de fundo. O filme é sobre a inspiração do cineasta, de onde ele tirava ideias para seus projetos. Oportuno, portanto, que sua esposa se chame Alma (papel de Helen Mirren), pois ela era a essência do processo criativo de Hitchcock. E o filme busca jogar os holofotes sobre ela e fazer justiça à sua importância na construção da carreira do cineasta.

O filme também agrada quando foca nos bastidores, especialmente na filmagem das cenas mais conhecidas de “Psicose”, como a sequência do chuveiro, que também serve a outro grande momento do longa na cena em que Hitch acompanha, do lado de fora da sala do cinema, a primeira exibição pública do filme, literalmente orquestrando a reação do público a cada pontiaguda nota da célebre música de Bernard Herrmann.

O que incomoda e distrai é a caracterização de Anthony Hopkins como o diretor. Por mais que ele seja um tremendo ator e a maquiagem tenha sido muito bem feita, ele não ficou parecido com Hitchcock. Todos nós conhecemos sua fisionomia, especialmente por ele ser dos poucos diretores que também faziam questão de aparecer diante das câmeras (inclusive apresentava uma série de TV com seu nome, que é homenageada na abertura e encerramento do filme). A inevitável comparação que fazemos, durante a projeção, entre ele e Hopkins, acaba se tornando uma distração. E reparem como o ator frequentemente é filmado de perfil pelo diretor Sacha Gervasi, numa tentativa clara de evocar a famosa silhueta do diretor. A todo momento Gervasi busca ângulos que façam Hopkins “sumir”, mas dá para vê-lo dentro do disfarce.



Outro incômodo é a insistência em encerrar as discussões entre os personagens com frases de efeito, ainda que as tiradas de Hitchcock sejam ótimas. Toda discussão é resolvida em três ou quatro troca de falas. As cenas com o executivo da Paramount são o melhor exemplo disso. Mas mesmo com problemas, é um filme que acrescenta conhecimento ao cinéfilo e dá aquela vontade de rever “Psicose” pela enésima vez. ■

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