UMA NOVA AMIGA: Para além dos estereótipos

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Em determinada cena de “Uma Nova Amiga”, o personagem do ator Romain Duris (magérrimo e numa das melhores atuações de sua carreira) senta-se diante de uma penteadeira e se olha no espelho duplo do móvel. A câmera é posicionada atrás dele, de modo que nós vejamos o seu rosto refletido e dividido em dois.

O personagem é um homem que acabou de perder a mulher e que pratica o crossdressing, ou seja, ele sente prazer em se maquiar e em vestir roupas femininas, ainda que não sinta atração por homens. Naquele momento em que ele se senta na penteadeira e nós vemos a sua expressão confusa diante do espelho, a impressão que o diretor François Ozon nos passa é a de que chegou o momento em que aquele homem, enfim, não sabe mais quem é: David ou Virginia?



O processo de descoberta de qual das duas identidades é mais forte é acelerado pela personagem principal do filme, vivida pela atriz Anaïs Demoustier. Ela era a melhor amiga da mulher de David, cresceu junto com ela e, em seu funeral, prometeu cuidar do viúvo e de sua filha recém-nascida. Só que a descoberta que ela faz sobre o segredo de David acaba fazendo com que não apenas ele defina sua personalidade, mas também ela, que vivia com a sexualidade reprimida.

“Uma Nova Amiga”, portanto, traz à luz a questão do crossdressing e instiga o debate sobre o assunto, mas também propõe uma discussão mais ampla sobre a liberdade sexual que muitas pessoas se privam de viver. Construindo personagens tridimensionais, que são complexos em suas individualidades, Ozon evita os estereótipos e, principalmente, os julgamentos.

Esta, aliás, é uma característica da maioria dos filmes do cineasta que, utilizando uma direção bem clássica e sem firulas narrativas, vem construindo uma obra consistente, composta por outros bons filmes como “O Tempo que Resta”, “8 Mulheres”, “Swimming Pool” e “Dentro de Casa”. Todos esses já foram lançados no Brasil, então, se você ainda conhece, recomendo procurá-los em DVD ou Blu-ray.

E o mesmo serve para “Uma Nova Amiga”, já que nossos exibidores não deram muita bola para o longa . É de se estranhar essa esnobação, uma vez que Ozon surgiu como diretor “cult” em fins dos anos 90 e sempre atraiu bom público no Brasil. Pelo visto, não mais. ■

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