Em “mãe!”, Aronofsky ousa como nunca antes em sua filmografia

por Pedro Tobias

É possível classificar “mãe!“, ao lado de “Fonte da Vida” e “Noé”, como parte de uma trilogia informal envolvendo religião e espiritualidade. O novo filme do diretor e roteirista norte-americano Darren Aronofsky parece abandonar a ênfase dada à obsessão de seus protagonistas para focar em sua obsessão particular.

Há, em “mãe!”, um conflito entre um filme no qual um casal (Jennifer Lawrence e Javier Bardem) precisa resolver seus problemas matrimoniais enquanto lida com a chegada de um estranho (Ed Harris), e outro, completamente diferente, no qual o Poeta (Bardem) se apresenta como uma divindade em uma enorme alegoria bíblica.

Ao longo de todo o primeiro ato e até certo momento do segundo ato, prevalece a dinâmica entre o casal. A chegada do Homem (Harris) desnuda a fragilidade da relação entre eles na medida em que coloca a personagem de Jennifer Lawrence (“X-Men: Apocalipse”, “Passageiros”) de forma completamente reativa diante dos acontecimentos. Aronofsky constrói de forma irrepreensível uma crônica a respeito da posição da mulher em uma sociedade machista e patriarcal.

A todo instante a Mãe (Lawrence) está sendo confrontada pelos demais personagens a respeito de suas atitudes. É possível notar de forma clara esse aspecto da narrativa, por exemplo, no diálogo no qual a Mulher, interpretada por Michelle Pfeiffer (“A Família”, “Where Is Kyra?”), a questiona sobre a decisão de ter filhos. Privada de qualquer liberdade por um ambiente totalmente avesso às suas necessidades e desejos, ela parece lutar até mesmo pelo ar que respira.

Em algum momento entre o final do segundo ato e o começo do terceiro, outrossim, o Diretor deixa de lado essa abordagem e a narrativa passa a circular em torno da relação humana com Deus. É exatamente neste ponto que Aronofsky se permite ousar como nunca antes em sua filmografia. Os trejeitos e maneirismos do cineasta na direção de câmera abrem espaço para o protagonismo dado à simbologia e à força das imagens ali retratadas. Os jump cuts, uma marca pessoal, sequer aparecem.

Todos os elementos técnicos se posicionam em segundo plano diante da potência da história ali sendo contada. Neste sentido é possível citar a ausência de trilha sonora. Abandonando uma parceria que vinha desde “Pi” com Clint Mansell (“A Vigilante do Amanhã: Ghost in the Shell”, “Loving Vincent”), Aronofsky convidou Johan Johansson (“Lovesong”, “A Chegada”) para compor a trilha de “mãe!”, acabando por rejeitá-la.

Há uma enormidade de sentidos e explicações possíveis com relação ao terceiro ato e ao filme como um todo, todos válidos. Entretanto, é inegável a influência que a criação de Aronofsky como judeu exerceu sobre as escolhas temáticas ali presentes. O Diretor apresenta um discurso que, a despeito de sua relação com o Divino, critica de forma explícita a sistemática das religiões na figura do Zealot (algo como “fanático” em tradução livre) interpretado por Stephen McHattie.

Talvez o ponto baixo dessa abordagem seja o didatismo exacerbado em alguns momentos. Homem e Mulher são expulsos do escritório do Poeta ao violarem a única regra imposta por ele assim como Adão e Eva na clássica história bíblica. Do mesmo modo, seus filhos, interpretados pelos irmãos Domhnall e Brian Gleeson performam a história de Caim e Abel.

A inserção da figura da Mãe, por outro lado, é feita de forma orgânica e sua “passividade”, seu silêncio ensurdecedor, agrega muito à trama e pontua a ausência de protagonismo feminino de uma forma geral, não só no seio das religiões hegemônicas.

Longe de ser um filme fácil, se é que existe uma classificação do tipo, “mãe!” reflete a maturidade do cinema de Darren Aronofsky pontuada pela abordagem menos convencional dada a seus temas. A experiência sensorial proporcionada por ele não carece de racionalizações por buscar sobretudo a reflexão. E exatamente neste ponto reside a genialidade da obra. ■

“mãe!” está em cartaz nos cinemas.

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