Foto: Warner Bros./Divulgação

“Círculo de Fogo”: Os monstros interiores de Guillermo del Toro

por Fernando Machado

“O mal do século é a solidão;
Cada um de nós imerso em sua própria arrogância;
Esperando por um pouco de afeição…”

Renato Russo (“Esperando Por Mim”, no álbum “A Tempestade”, de 1996)

Guillermo del Toro tem uma ligação muito íntima com suas figuras monstruosas, como ele mesmo revela em seu discurso na entrega do Globo de Ouro para o prêmio de Melhor Diretor. O cineasta cita uma “trilogia de monstros” que salvaram sua vida: “A Espinha do Diabo”, de 2001, “O Labirinto do Fauno” de 2006, e seu mais recente trabalho, “A Forma da Água”, de 2017. São três filmes em que del Toro retrata os monstros como um contraste com o ser humano e sua real monstruosidade. Entretanto, em “Círculo de Fogo” temos uma abordagem aparentemente mais tradicional, de um monstro que quer destruir a humanidade.

Superficialmente, o filme é sobre isso: monstros que invadem o planeta Terra por uma fissura no fundo do Oceano Pacífico, em uma nítida e respeitosa homenagem aos tokusatsus japoneses e suas grandiosas lutas entre robôs e monstros gigantes, entre o bem e o mal que assola a humanidade. Todavia, da mesma maneira que os tokusatsus eram uma analogia à bomba atômica que dizimou Hiroshima e Nagazaki em agosto de 1945, provocando mais de 250 mil mortes, “Círculo de Fogo” também tem suas claras analogias. Assim, podemos enxergar os monstros do filme como algo mais pessoal, como por exemplo, nossos medos internos. As criaturas vêm de baixo, do fundo do mar, ou seja, de dentro de nós. E del Toro é muito sensível ao explorar diferentes tipos de monstros, como se representasse a variedade dos nossos problemas. Afinal, nossos medos são distintos uns dos outros.

Outro detalhe importante do filme está no fato de serem necessárias duas pessoas em conexão neural para que os Kaiju sejam combatidos, o que me parece uma clara referência à época egoísta na qual vivemos, onde estamos cada vez mais conectados, mas ao mesmo tempo isolados em nossos próprios desejos. Em “Círculo de Fogo”, a conexão entre duas pessoas é feita por meio da empatia. Cada um sente o que outro sente, enxerga o que o outro enxerga, lembra do que o outro lembra. Até mesmo a dor e o medo são compartilhados, algo que nós temos dificuldades em fazer: nos abrirmos com alguém e expormos nossos medos e angústias. Del Toro nos mostra que não devemos nos isolar escondendo o que sentimos. Compartilhar vai muito além de apenas curtir uma foto em um rede social. Empatia é mais do que dar “tapinhas nos ombros” e dizer que vai dar tudo certo.

Adicionalmente, “Círculo de Fogo” não faz distinção de gênero, ao colocar uma mulher (Mako, interpretada por Rinko Kikuchi) para pilotar um Jaeger (nome dado aos robôs gigantes). Apesar de ainda ser um universo muito masculino, ter uma personagem feminina forte e não sexualizada é de máxima importância. Ainda que haja uma tensão sexual entre ela e Raleigh (personagem de Charlie Hunnam), a cena de maior importância é durante a conexão neural entre ambos. Ali, Raleigh tem acesso aos medos, às dores e angústias de Mako, e então a relação de empatia é criada. É interessante a forma como del Toro mostra Raleigh observando aquela situação na cabeça de Mako e como ele passa a sentir aquilo. A partir dali, a tensão sexual se esvai dando lugar a uma cumplicidade, onde um homem, por um breve momento sente o que uma mulher passa.

Hoje, homens não têm tal tecnologia neural para sentir na pele o que uma mulher sofre em uma sociedade ainda tão machista. Ainda sim, a empatia de se preocupar com o que uma mulher passa diariamente, como por exemplo, em um transporte público, em uma rua escura, em um relacionamento abusivo ou em organizações que a sexualiza e a menospreza. Cada uma dessas situações representam um monstro que, sim, precisa ser combatido.

“Círculo de Fogo” mostra que monstros existem e que podemos combatê-los se utilizarmos as armas corretas. Uma obra que deixa claro que Guillermo del Toro não é um diretor de escapismos vazios. Suas obras são repletas de profundidades e sentimentos. Vê-los é fazer uma auto-análise em busca de nossos próprios monstros. 

“Círculo de Fogo” está disponível em DVD e Blu-ray.

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