"Poderia me Perdoar?" (Can You Ever Forgive Me, 2018) - Foto: Divulgação
"Poderia me Perdoar?" (Can You Ever Forgive Me, 2018) - Foto: Divulgação

“Poderia me Perdoar?”: McCarthy sem máscaras

Melissa McCarthy construiu uma (bem-sucedida) carreira interpretando personagens desagradáveis, por vezes irritantes e imorais, que ela torna carismáticas para o público por meio de seu humor físico e debochado. E seu grande desafio em “Poderia me Perdoar?” é que, sob a direção da jovem Marielle Heller (“O Diário de uma Adolescente”), a atriz não pode recorrer a esses cacoetes e malabarismos cômicos para deixar a escritora Lee Israel mais palatável. Porque a história é essencialmente um desdobramento do fato de que ela não era uma pessoa muito simpática.

Foi, em parte, por isso que ela passou a se esconder atrás de nomes mais famosos e populares. E é por mergulhar nesse poço de depressão, autoaversão, alcoolismo e contravenção, sem jamais tentar redimir a protagonista, mas revelando os sintomas que a levaram até ali, que McCarthy vai muito provavelmente receber sua segunda indicação ao Oscar no ano que vem.

A trama conta a história real de Lee Israel, biógrafa nova-iorquina que, caída no esquecimento e sem inspiração, chegou bem próximo do fundo do poço no início dos anos 90. Deprimida, solitária e alcoólatra, ela começou a forjar cartas de escritores famosos e vendê-las para lojas de relíquias literárias, com a ajuda do amigo gay Jack Hock (Richard E, Grant), até ser descoberta pelo FBI.

Heller e McCarthy retratam Lee como uma pessoa cáustica e um tanto intragável. Características que, como mulher e nada célebre, ela só consegue capitalizar na sua escrita ao se passar por nomes mais famosos. Mas se a protagonista encontra essa máscara profissional, na vida pessoal ela não tem como ignorar a solidão causada por sua personalidade difícil. E é por isso que, mais do que no esquema criminoso de Lee, “Poderia me Perdoar?” é alicerçado na relação dela com Jack. O filme é uma história de duas almas solitárias – uma lésbica e um gay – tentando sobreviver à deriva usando um ao outro como bote salva-vidas.

Não por acaso, o longa tem seus melhores momentos quando os dois estão em cena. Por mais que se esforce ao máximo para expressar a frustração e a insegurança da protagonista nos seus muitos momentos de solidão, como toda boa comediante McCarthy mostra seu forte quando tem um parceiro de sparring à altura. E para uma atriz acostumada a roubar a cena em longas como “Missão: Madrinhas de Casamento” e “As Bem Armadas”, o maior mérito de sua performance aqui é a generosidade com que ela deixa Richard E. Grant (veterano inglês conhecido dos fãs de “Girls”) se esbaldar com as melhores frases e a extravagância de Jack, enquanto ela trabalha numa chave mais sutil e introspectiva.

Heller usa os dois personagens, e a química entre eles, para ilustrar um humor e um espírito essencialmente nova-iorquinos, algo que transborda para a própria realização do filme. Na fotografia alleniana de Brandon Trost e nas canções de jazz da trilha, Nova York é uma personagem essencial da história, com seu universo único de elitismo cultural e seu ideal isolador e opressor de sucesso e sociabilidade.

Mas mesmo com o bom elenco e uma direção competente, “Poderia me Perdoar?” derrapa em algumas cenas barangas no final, em que a protagonista se debulha em monólogos que explicam a “moral do filme” – e só servem para garantir a tal indicação de McCarthy ao Oscar. É como se o roteiro tentasse insistentemente redimir Lee Israel, ou torná-la mais palatável – algo que a própria escritora, autora da autobiografia em que o filme é baseado, detestaria. É um amaciamento forjado em busca de uma aprovação popular. Só que sem a mesma competência das cartas de Lee. 

Texto escrito como parte da cobertura da 42ª Mostra de Cinema de São Paulo. O crítico viajou a convite da Mostra.

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