“A Fabulosa Máquina do Tempo”, novo documentário de Eliza Capai, começa recontando a criação do mundo. Mas não segundo o Gênesis que conhecemos. A narrativa bíblica é reimaginada pelo olhar de meninas do sertão do Piauí, que assumem desde os primeiros minutos o papel de narradoras de suas próprias histórias. Esse prólogo lúdico sintetiza o projeto do filme: compreender o mundo a partir da imaginação infantil, sem jamais perder de vista a realidade concreta que cerca aquelas crianças.
Rodado em Guaribas, no sertão do Piauí, o longa acompanha um grupo de meninas que conversa, brinca, sonha e inventa uma máquina do tempo capaz de levá-las ao passado e ao futuro. A premissa parece fantasiosa, mas Capai — novamente dirigindo em alto nível, após os premiados “Espero Tua (Re)volta” e “Incompatível com a Vida” — transforma esse dispositivo em uma ferramenta de investigação social. Viajar no tempo, aqui, não significa atravessar dimensões, e sim refletir sobre o tempo que lhes foi tomado.
As brincadeiras das garotas revelam uma infância parcialmente interrompida. Enquanto os meninos jogam bola, elas simulam tarefas domésticas, aprendem a cozinhar, cuidam de bonecas como se fossem filhos e reproduzem responsabilidades que observam nas mulheres ao redor. Não é uma encenação inocente. É um treinamento involuntário para um futuro que parece já determinado.
O filme se torna ainda mais contundente quando pergunta se elas prefeririam viajar para o passado ou para o futuro. A maioria já sabe o que deseja ser quando crescer. Advogada, professora, policial… Mas a adolescência surge quase como uma ameaça. Elas percebem que, ao crescer, deixarão de brincar. Algumas já falam do medo do assédio que acompanha a chegada da menstruação. Outras mencionam as mudanças vividas por meninas um pouco mais velhas, que abandonaram as brincadeiras para assumir novas preocupações. Ainda tão novas, essas crianças já enxergam, com enorme lucidez, o estreitamento das possibilidades que as espera, com a desigualdade de gênero já incluída na conta.

Seria fácil transformar tudo isso em um documentário convencional de entrevistas e imagens ilustrativas. Capai evita esse caminho. Daniel Grinspum e a diretora trabalham no roteiro e na montagem para renovar constantemente o interesse do espectador ao alternarem conversas espontâneas, momentos de fabulação e situações criadas pelas próprias protagonistas. A estrutura preserva o encantamento sem diluir a gravidade dos temas.
Entre esses momentos, destaca-se a brincadeira em que as meninas fazem cinema. A dimensão metalinguística é usada com inteligência, pois não funciona apenas como comentário sobre o próprio documentário. Ela reforça a importância de que aquelas crianças possam produzir imagens, contar suas versões dos acontecimentos e descobrir que o cinema também pode ser um lugar para elas. Não apenas diante da câmera, mas atrás dela.
A fotografia de Carol Quintanilha contribui decisivamente para esse olhar. São imagens de grande beleza, capazes de revelar cores, texturas e enquadramentos que o cotidiano frequentemente invisibiliza. Ao mesmo tempo, o filme jamais estetiza a pobreza. Existe delicadeza, mas não romantização da precariedade. Há cuidado para encontrar poesia em meio às dificuldades que fazem parte da vida da comunidade.
Premiado no Cine PE, no Festival de Cinema de Vitória e na Mostra Ecofalante, após estreia mundial no Festival de Berlim, “A Fabulosa Máquina do Tempo” encontra um raro equilíbrio entre imaginação e observação documental. É um filme que escuta suas personagens antes de falar por elas. Ao permitir que essas meninas fabulem sobre o passado e o futuro, Eliza Capai revela algo profundamente presente: uma infância atravessada por desigualdades, mas que insiste em transformar a imaginação em espaço de liberdade. ■


Editor-chefe do Cinematório. Jornalista profissional, mestre em Cinema pela Escola de Belas Artes da UFMG e crítico filiado à Fipresci e à Abraccine. Também integra as equipes de Jornalismo da Rádio Inconfidência, onde apresenta o programa Cinefonia, e da Rede Minas, onde é colunista do programa Cinematógrafo. Votante internacional do Globo de Ouro.

