Tudo Acontece em Elizabethtown

Cameron Crowe é um dos diretores mais talentosos da geração que começou nos anos 1980 e se firmou na década seguinte. Seus filmes são intimistas, falam de temas pessoais, preferencialmente ligados ao amadurecimento dos personagens. Vem sendo assim desde sua estréia na direção, “Digam o que Quiserem”, até aquela que é considerada sua pequena obra-prima, “Quase Famosos”. “Tudo Acontece em Elizabethtown” também trata de amadurecimento e, como seus demais filmes, traz uma trilha sonora espetacular, escolhida a dedo. Mas fora esses dois pontos, o resultado deixa a desejar perto do que se pode esperar do cineasta.
Em “Tudo Acontece em Elizabethtown”, Crowe não consegue criar uma empatia pelo protagonista, como fez em “Jerry Maguire – A Grande Virada”, seu filme mais conhecido. Culpa de Orlando Bloom, um ator cuja única coisa boa que conseguiu fazer até hoje foi olhar para o horizonte em “O Senhor dos Anéis”? Sim, em parte, a culpa é dele. Bloom é um mau ator. Ele não tem um pingo de carisma. Mas atores ruins conseguem se sair bem nas mãos de bons diretores, como já vimos acontecer com Adam Sandler em “Embriagado de Amor”, de Paul Thomas Anderson, por exemplo. E Crowe é um grande diretor de atores. O que deu errado, então? Ao que parece, foi Bloom que deu azar de ter trabalhado com Crowe em um filme onde ele errou a mão.
O principal problema de “Tudo Acontece em Elizabethtown” é que falta coesão ao roteiro – e olha que estamos falando não só de um bom diretor, mas também de um bom roteirista, o que torna tudo ainda mais frustrante. Crowe não consegue nem mesmo manter um diálogo interessante, como podemos observar na longa conversa entre Bloom e Kirsten Dunst ao telefone: um punhado de frases soltas que chegam a lembrar aquele tipo de filosofia pretensiosa que alguns cineastas independentes tentam nos empurrar.
O filme começa quando Drew (Bloom) chega à empresa de calçados onde trabalha, apenas para tomar uma dura do chefe (Alec Baldwin) por ter criado um tênis que gerou um prejuízo de quase um bilhão de dólares para a companhia. Nessa introdução, Crowe já estabelece que haverá um narrador (e por incrível que pareça, Bloom também é ruim apenas lendo um texto). O papel desse narrador é trazer ao público observações particulares do personagem, como seu costume de notar os “últimos olhares” das pessoas.
Hum… Tudo bem. Enquanto ainda estamos tentando assimilar se Drew é um “fracasso” ou um “fiasco”, ele recebe a notícia de que seu pai (Tim Devitt) morreu e que ele precisa ir até Elizabethtown cuidar do funeral. Durante a viagem, Crowe vira sua câmera para um terceiro enredo: o relacionamento entre Drew e Claire (Dunst). E pouco tempo depois, quando o protagonista chega a seu destino, o filme mergulha em uma infinidade de subtramas: o primo de Drew (Paul Schneider) que não se relaciona bem com o pai, o garotinho que grita para chamar a atenção, o “amigo” do pai que o sacaneou no passado (Bruce McGill), o sujeito recém-casado no hotel, enfim… Fica tudo tão bagunçado, que a péssima tradução do título brasileiro acaba se justificando. É uma daquelas situações a que Roger Ebert costuma se referir em suas críticas: quando você estende a mão para tentar agarrar algum tema que lhe guie durante o filme, você percebe que está segurando apenas o ar.
Não dá para saber se Crowe quis contar a história de um filho que redescobre o pai, como ele indica que vai fazer ao nos mostrar flashbacks da infância de Drew, ou se ele quis filmar a redescoberta pessoal de um jovem frustrado com sua vida profissional. Não dá para saber, porque Crowe desvia do assunto o tempo todo com aqueles personagens entrando e saindo de cena sem muito propósito. Assim, você pode acabar se sentindo tão perdido vendo o filme quanto Drew tentando se encontrar em Elizabethtown. Você tenta desesperadamente criar algum vínculo emocional com os personagens, mas como isso é possível se Crowe nem ao menos nos permite conhecer mais o pai do protagonista para também sentirmos por sua perda? Confesso que cheguei até mesmo a imaginar meu próprio pai morto ali na tela para tentar ser tocado pelo filme, mas não deu. Aliás, a única cena que me fez sentir um pouco de emoção (e, não por coincidência, a única que me lembrou que aquele era mesmo um filme de Cameron Crowe) é o fim da viagem que Drew faz com a urna funerária do pai, quando estamos ouvindo a belíssima “My Father’s Gun”. E só. Em duas horas de duração, apenas essa cena me tocou de alguma forma. Há um trailer/videoclipe do filme que também usa a canção de Elton John. Pois esse vídeo é como se fosse um curta bem melhor do que o longa que dele se originou.
E vale notar que a “viagem pela América” feita por Drew acaba se convertendo num segmento totalmente a parte do universo do filme. Teoricamente, deveríamos acreditar que a personagem de Dunst escreveu um imenso guia de turismo para Drew, com fotos, indicações e músicas adequadas para se ouvir em cada parada. Não vou levar em consideração o mero fato de que teria sido impossível ela preparar tudo aquilo em tão pouco tempo (licença poética, tudo bem). O problema é que simplesmente não ficamos convencidos de que uma garota como ela possui uma vivência grande suficiente para conhecer metade dos Estados Unidos, mesmo sendo uma aeromoça acostumada a viajar. Na verdade, essa parte do filme é Crowe falando por Claire. São as palavras, referências e homenagens que o diretor quis fazer, não a personagem.
É por isso que “Tudo Acontece em Elizabethtown” acaba soando um tanto egoísta. Crowe sem dúvidas quis fazer um filme pessoal, mas parece que a única pessoa em quem ele pensou foi ele mesmo. Não duvido que o diretor tenha se divertido à beça filmando e se deleite assistindo à sua própria obra. Mas e nós? Não é um filme péssimo, nem mesmo ruim (até porque, um Crowe ruim é bem melhor que meia dúzia de filmes regulares lançados no ano passado). Só é decepcionante perto de tudo que ele vinha fazendo até agora.
Parafraseando as palavras de Drew, podemos dizer que “Tudo Acontece em Elizabethtown” não é um fiasco, porque não é nenhum desastre pelo qual Crowe ficará lembrado pelo resto de sua vida. É apenas um fracasso, porque não passa de uma ausência de vitória em uma carreira que vinha se acostumando a colecionar sucessos.
Tudo Acontece em Elizabethtown (Elizabethtown, 2005, EUA). Direção de Cameron Crowe. Com Orlando Bloom, Kirsten Dunst, Susan Sarandon, Alec Baldwin, Bruce McGill, Judy Greer, Jessica Biel, Paul Schneider, Loudon Wainwright, Tim Devitt.
O DVD
O DVD não foi avaliado para esta resenha. De acordo com informações da Paramount Pictures, estas são as características do disco:
Formato de tela: widescreen anamórfico 1.85:1
Áudio: Dolby Digital Surround 5.1, nos idiomas Inglês e Português
Legendas: Inglês e Português
Extras: Testes; Conheça a Equipe; Cenas Originais; Galeria de Fotos; Trailers de Cinema
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