Raízes do Brasil

Já foi dito que o cinema de Nelson Pereira dos Santos procura entender o Brasil através de filmes como “Rio 40 Graus”, “Vidas Secas”, “Tenda dos Milagres”, “Memórias do Cárcere” e vários outros. É natural, portanto, que a trajetória do cineasta o tenha levado a dirigir um documentário sobre aquele que é considerado o grande explicador do Brasil: o historiador Sérgio Buarque de Holanda.
Dividido em duas partes, “Raízes do Brasil” procura traçar dois perfis do autor dos livros “Visões do Paraíso” e o homônimo “Raízes do Brasil”. Primeiro, Pereira dos Santos busca na família de Buarque de Holanda depoimentos acerca de sua vida pessoal. Depois, tenta adaptar os “Apontamentos Para a Cronologia de S.”, um apanhado deixado pelo escritor e compilado por sua esposa, Maria Amélia Buarque de Holanda, contendo as datas mais importantes de sua vida e obra.
Não há dúvidas de que Sérgio é uma figura digna de um documentário. Paulista, nascido a 11 de julho de 1902, ele participou do movimento Modernista de 1922 e se tornou representante da revista Klaxon, no Rio de Janeiro, onde vivia desde o ano anterior. O trabalho como jornalista se tornou seu ganha-pão (dirigiu o jornal O Progresso, foi colunista do Jornal do Brasil e correspondente dos Diários Associados, além de colaborar com várias outras publicações). O salário era dividido entre os cuidados com a família (teve sete filhos com Maria Amélia) e sua paixão pela literatura, que o levava a empilhar livros em seu escritório e pelos corredores da casa. Além de construir carreira como historiador, Sérgio foi professor e diretor em diversas universidades e instituições brasileiras. Na política, também marcou época com a fundação da Esquerda Democrática, em 1945, e como membro-fundador do Partido dos Trabalhadores, em 1980, dois anos antes de morrer.
A primeira parte de “Raízes do Brasil” começa com uma reunião de família. Desde já, Pereira dos Santos mostra sua equipe em cena, e, mais tarde, não tem pudor de aparecer junto dos parentes de Sérgio num almoço descontraído. Essa opção de tornar a interação entre personagens e equipe mais orgânica contrasta, no entanto, com o método artificial de encenação utilizado pelo diretor em algumas situações. Por exemplo, quando três dos netos mais jovens se encontram para falar sobre as dedicatórias deixadas pelo avô. Ou quando o filho Sergito está em uma sala e a câmera se afasta, revelando uma mesa com duas cadeiras vazias; logo em seguida, suas filhas chegam pelo corredor e se sentam à mesa. Já mais tarde, acontece uma mistura: Maria Amélia dá um depoimento em frente ao prédio onde a filha Miúcha nasceu; quando termina, ela sai de quadro, mas a cena continua e a ouvimos perguntar à equipe: “Saiu direito?”, ao que é recebida com aplausos pelas pessoas atrás da câmera. Por não se decidir se quer ser formal ou informal, Pereira dos Santos acaba prejudicando o resultado.
Por outro lado, essa primeira metade de “Raízes do Brasil” se salva graças aos depoimentos dos filhos, netos e amigos de Sérgio. Inicialmente, o filme é organizado por personagens, e sempre que alguém mais importante aparece pela primeira vez, como Miúcha e Chico Buarque, sua entrada é precedida por uma montagem com fotos de arquivo da família. O que eles falam contribui para o objetivo principal do documentário: explicar como era Sérgio. Maria Amélia e Miúcha, por exemplo, relembram seu método de trabalho: ele se sentava de frente para a máquina de escrever e datilografava devagar até a idéia chegar. Depois, escrevia, escrevia, não gostava, rasgava a folha e enchia o chão do escritório de papel amassado. De tão exigente consigo mesmo, Sérgio escrevia à mão, datilografava as páginas, corrigia e depois datilografava de novo. O espectador também fica sabendo que seu escritório era um “lugar sagrado”, cheio de livros e papéis para todos os lados. Ele proibia a entrada dos filhos menores, com medo da bagunça que poderiam fazer. Chico Buarque diz que o pai só se mostrava realmente interessado pelos filhos quando eles já estavam mais crescidos e amadurecidos. Ele próprio confessa que só conseguiu entrar no escritório aos 20 anos de idade, quando começou a escrever e Sérgio passou a aconselhá-lo.
Um outro depoimento marcante é o do escritor Antônio Cândido. Ele diz que Sérgio se formou na Semana de Arte Moderna e uma das principais lições que tirou daquela época foi que a seriedade está sempre ligada à alegria – algo que refletiu em toda a sua vida, como vemos nos depoimentos dos filhos (eles dizem que o pai era sério com seu trabalho, mas muito brincalhão com eles). “Sérgio era a combinação do imenso erudito com a criatura alegre, inconformada, não convencional,” diz Cândido.
Dos raros momentos de espontaneidade do filme, destaca-se, sem dúvida, aquele no final, em que a neta Bebel se emociona quando diz que considerava o avô como um pai. É também quando Pereira dos Santos acerta ao inserir, logo depois, uma filmagem de Sérgio (no que parece ser o casamento de Bebel) acompanhada por uma gravação em áudio que o traz cantando uma música do filme “O Anjo Azul”, com Marlene Dietrich. Ao guardar essa única imagem de Sérgio em vida para o desfecho do filme, o diretor, de certo modo, encontra uma forma de recompensar o espectador, que até ali apenas ouviu falar sobre Sérgio e o conheceu somente através de fotos.
Se elogios podem ser feitos à primeira parte de “Raízes do Brasil”, o mesmo não se aplica à segunda. Basicamente, trata-se de uma leitura de textos ilustrada por fotos, filmagens de acontecimentos da época, recortes de jornais, livros e músicas. Acaba se tornando um filme maçante, mesmo durando apenas 73 minutos. A divisão da leitura é feita com as filhas Ana de Holanda e Miúcha narrando os “apontamentos da cronologia”; Zeca Buarque Ferreira lê passagens das reportagens escritas pelo avô; e Sílvia Buarque recita excertos do livro “Raízes do Brasil”. Como se não bastasse, em alguns momentos Pereira dos Santos insiste em filmar as páginas do que está sendo lido, aborrecendo o espectador com algo que já está sendo informado pela narração.
Essa segunda parte serve mais como complemento para a primeira, ao invés de ser um documentário sólido e interessante. Afinal, não passa de um apanhado de dados, datas, nomes e citações. O segundo filme possui estrutura e forma muito rígidas, ortodoxas, ao contrário do que dizem que Sérgio foi em vida. Aliás, essa constatação não deixa de ser irônica: no filme 1, são outras pessoas que falam de Sérgio e ele é retratado como uma figura fascinante; já no filme 2, que não deixa de ser o próprio Sérgio falando de si mesmo, falha-se na tentativa de despertar o mesmo interesse por sua pessoa. Sendo assim, resta parabenizar Pereira dos Santos pela decisão de ter dividido “Raízes do Brasil” em dois volumes. Se fosse um só, talvez poucas pessoas conseguiriam acompanhá-lo além da metade.
Raízes do Brasil (2003, Brasil). Direção de Nelson Pereira dos Santos. Com Maria Amélia Buarque de Holanda, Miúcha, Chico Buarque, Zeca Buarque Ferreira, Sílvia Buarque.
O DVD
“Raízes do Brasil” é distribuído pela VideoFilmes em uma edição dupla, com cada disco trazendo uma das duas partes do documentário. Ambas são apresentadas em formato de tela widescreen letterbox, com áudio em português, 2.0. Há legendas em inglês e espanhol.
O DVD peca no quesito extras. No primeiro disco, há apenas a filmografia de Nelson Pereira dos Santos e a bibliografia de Sérgio Buarque de Holanda – atrações que se repetem no disco 2, que traz ainda duas entrevistas com os professores Antonio Arnoni Prado e Maria Odila L.S. Dias, falando sobre a importância da obra do historiador.
A embalagem é simples, mas bem trabalhada, com textos e ilustração também por dentro. Não é um DVD espetacular, e nem precisava. Condiz com a qualidade do filme, o que prova ser suficiente.
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