"Santiago" em DVD

A VideoFilmes lança este mês o DVD de “Santiago”. O filme de João Moreira Salles (“Notícias de Uma Guerra Particular”, “Entreatos”) foi lançado em 2007 nos cinemas e recolheu opiniões quase unânimes a respeito de sua qualidade. Muito do que foi dito a respeito do documentário é reiterado na faixa comentada que vem como extra no disco. Nela, o crítico e pesquisador Carlos Alberto Mattos conversa/entrevista JMS e os montadores do filme: o veterano Eduardo Escorel (“O Padre e a Moça”, “Terra em Transe”, “Cabra Marcado Para Morrer”) e a então iniciante Lívia Serpa (que depois viria a trabalhar em “Linha de Passe”).

Tanto as perguntas quanto as respostas enriquecem ainda mais “Santiago”, no sentido de que acrescentam quatro perspectivas sobre o processo de criação do documentário na montagem (incluindo uma terceira visão de JMS – sendo a primeira a de 1992, quando as imagens foram filmadas, e a segunda a de 2005, quando o filme que conhecemos foi montado). Um detalhe é que a capa do DVD informa que Eduardo Coutinho participa desta faixa comentada, mas o mestre é apenas citado em certo momento. Seria sensacional se ele tivesse participado da conversa, mas é somente um erro de impressão.



O DVD também inclui como extras três sequências com montagens alternativas e narração de Escorel, mais dois curtas dirigidos por JMS: “Poesia é uma ou duas linhas e por trás uma imensa paisagem” (1989) e “Dois Poemas” (1992). Para completar, encartado na embalagem está um livreto com a transcrição completa das falas do narrador e de Santiago, e ainda notas sobre o filme escritas por Jean-Claude Bernardet (que de tão boas realmente mereciam essa distinção).

Abaixo, um trecho da minha crítica sobre o filme, escrita à época da exibição nos cinemas.

É difícil ver um cineasta ser tão sincero e se abrir tanto para o público como João Moreira Salles em “Santiago”. Trata-se de um filme revelador, não só sobre a figura do mordomo Santiago, que trabalhou para a família Salles durante boa parte da vida do diretor e seus irmãos, mas ainda mais sobre o próprio documentarista, que faz aqui uma reflexão sobre a memória, a passagem do tempo e seu método de trabalho.

“Santiago” é um filme que se constrói e se desconstrói na montagem. Salles resgata cenas que filmou em 1992, quando o documentário seria outro, e recria o longa mais de uma década depois com o olhar de um cineasta mais maduro. Assim, ele acaba por fazer um estudo auto-crítico sobre a relação entre o documentarista e o personagem: o modo um tanto arrogante com que dirige Santiago, o personagem, cria uma nova relação entre ele e aquela figura que por anos fez parte de sua vida familiar.

Na tentativa de reparar os erros cometidos no passado, Salles cria algo novo e duplamente gratificante. Ele presta uma homenagem singular à memória de Santiago, eternizando sua peculiar personalidade em filme, e ainda oferece ao público uma instigante análise da linguagem documental e sua importância. Afinal, tal como o mordomo fazia com os personagens históricos presentes em suas inúmeras anotações colecionadas ao longo da vida, sem esse registro feito pelo diretor não saberíamos quem foi Santiago. O que move o interesse do espectador pelo filme é o interesse em conhecer o outro – justamente o que faltou a Salles em seu projeto original.

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