Silêncio autoral

26c[1]

Várias vezes já me peguei imaginando, durante viagens de avião, o que se passa na vida de quem vive naquelas cidadelas ou vilarejos que, lá de cima das nuvens, podemos observar em meio a morros, matas e rios. Marcos Pimentel começa “Sopro” do alto, filmando a espessa neblina que encobre a localidade onde seu filme se passa. Como um classicista, ele aproxima-se do solo tomada a tomada, até chegar a um terreno baldio onde alguns cães devoram carcaças de boi. Este é o primeiro sinal de morte que encontramos naquela localidade bucólica.

Curiosamente, é também de um bovino que surge, mais tarde, uma das mais belas cenas do documentário, justamente para representar o surgimento da vida. E é entre essas duas pontas da existência que Pimentel nos conduz com seu filme, o primeiro em longa-metragem de sua carreira: naquele cenário, animais e pessoa levam uma vida simples, de tarefas mundanas, onde o ciclo de sobrevivência funciona em sua plenitude. Lá se nasce e se morre, e entre uma coisa e outra, vive-se dos recursos disponíveis, brinca-se na areia, lava-se a roupa no riacho, assa-se o pão, cria-se o gado, festeja-se à noite, em frente a uma fogueira.



Pode parecer que não, mas há muito acontecendo ali. Pimentel, ao lado do diretor de fotografia Matheus Rocha, opta pela contemplação, fazendo de cada quadro uma frase ou um verso. Ele não usa voice-over, mas não se pode dizer que o filme não tem narração. Ela está lá, em forma de imagens. E é nos enquadramentos, nos ângulos, no que escolhe mostrar, que Pimentel nos dá seu ponto de vista, exaltando a simplicidade daquela gente, que espera o dia de morrer, mas que não se acanha em buscar a tecnologia (há de saber usá-la, é verdade).

Há, inegavelmente, nas imagens de “Sopro”, uma reflexão do diretor, mas também um chamado para que o público reflita junto, que se deixe levar, em silêncio, por cada cena. Que ele se permita estar lá. É fazer uma aposta na simplicidade, sem fazer com que essa proposta soe simplista. ■

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